ÁFRICA. Encontros Notáveis

Foto: Pexels

Em Maputo, na manhã que chegava, chamava por Laís, paulistana querida, que vivia em prédio quase em frente ao meu. Ela, o marido e eu éramos amigos, cada qual na sua atividade. Laís, sempre que nos convidava para jantar, animava as noites imitando cantoras famosas que frequentavam sua memória, deixando o ambiente de sua casa ainda mais acolhedor. Sentíamo-nos acomodados em bares tradicionais de São Paulo, diminuindo a saudade e revivendo instantes de boemia ao cantar Ronda e outras tantas canções. Avançávamos na noite entre comida boa, geralmente preparada por Fernando, seu marido, e música brasileira da melhor qualidade.

Laís e eu saíamos juntos a caminhar pela Ponta do Ouro, praia belíssima, percorrendo à beira do Índico, seus contornos, com avanços e recuos por toda a orla, ao som da marulhada. Frente ao mar, reserva ambiental preservada. O mar, diziam os maputenses,de repente, repuxa esgotando a água como se a sorvesse num só gole só, até à última gota, dois, três quilômetros adentro, alongando a praia, formando esplanada. Chão-parado propício a quadras de futebol e vôlei. Era o que faziam. A criançada, na sua maioria, órfãos de guerra, divertem-se a mais não poder, de ponta a ponta. Quando a maré se ergue e o mar, distendido, avança, sem que sol e lua, em sua atração, avisem, engole as crianças que, brincando, nãovencem a preamar.

Incontáveis as manhãs em que percorremos os tantos quilômetros daquela paisagem linda. Nenhuma guardou lembrança como a que lhes conto, agora. Se os tempos verbais se atropelam entre presente e passado, não julguem. No passado, sou eu, vivendo aquilo. No presente, o que ainda ocorre.

Eram cinco e trinta da manhã. Dia começando. Iniciávamos a caminhada, um passeio quase sempre solitário. De repente, direção contrária à nossa, um senhor não muito alto, roupa de atleta, vinha em nossa direção, praticando corrida. Não pude reconhecer, na distância, até surpreender-me com o grito de alegria de minha companheira de jornada que, atravessando a rua, alto e bom som, proclamou: Dudu! Dudu! A notável personagem, postura elegante, fala gentil e bem-educada, respondeu: Dudu não. Tutu! Desmond Tutu.

Desmond Tutu, vida construída em favor da liberdade e justiça social, primeiro negro consagrado arcebispo na Igreja Anglicana Sul-Africana, da Cidade do Cabo, Prêmio Nobel da Paz por sua luta pacífica contra o apartheid. Nesta manhã moçambicana, soubemos ter sido designado primaz de sua Igreja para a África Austral e visitava Maputo para palestras. Assisti a todas depois deste encontro memorável.

Notável pregador, pude estar com ele duas vezes mais, em Cape Town já na África do Sul. Hoje, com noventa anos, Desmond Tutu que carregava, sobre a roupa esportiva, um crucifixo em ouro fazendo explícita sua aproximação de Jesus Cristo na defesa constante de pobres e oprimidos, deu-nos a bênção de que necessitamos todos e prometeu seguir lutando por países com governo digno, livres de preconceito, onde pretos e brancos, unidos e amigos, formem um só povo. Para isso, anotação feita em uma de suas palestras para jamais esquecer: saber votar. Saber escolher. Havendo bons, honrar os melhores. Isto é Democracia!

Interrompo o relato para contar-lhes que tive esta sorte: Conheci cinco ganhadores do prêmio Nobel da Paz. Primeiro, Adolfo Pérez Esquivel, o ativista argentino, quando atuava em Quito. Fomos juntos ao hotel que hospedava Merecedes Sosa, em visita de trabalho àquele país. Em Moçambique, Desmond Tutu e Nélson Mandela, quem lutou como nenhum outro, pela emancipação da humanidade. Anos depois, na Nicarágua, Rigoberta Menchu, indígena guatemalteca que lutou bravamente em favor de seu povo e dos demais povos indígenas e Teresa de Calcutá, madre macedônia, quando em visita às Missionárias da Caridade, congregação fundada por ela, me acolheu em visita.

Volto ao tema. Durante o encontro aberto por Desmond Tutu, para encerrar o ciclo, Nélson Mandela. Arrebatador. Pude estar com ele depois destas reuniões que fizeram Moçambique muito melhor. Quanto aprendi. Um dos maiores líderes da história moderna. cuja vida se confunde com a História e tem, em 19 de julho, por decisão das Nações Unidas, seu dia Internacional e Universal.

Certa feita, em viagem urgente ao Brasil para estar com uma de minhas irmãs, nos encontramos – e esta foi a última vez – no aeroporto de Johannesburgo. Inesquecível. Eu descia as escadas para a sala de embarque e ele, sentido oposto ao meu, sem nenhum segurança, alto, muito alto, braços longos, abertos, preparou o abraço, dizendo: brasileiro amigo! Conversamos rapidamente. Ambos tínhamos avião à espera. Despedimo-nos. Por certo, levou de mim o afeto, a gratidão por permitir que, conhecendo-o, pudesse guardar, para sempre a grandeza do homem, não o mito.

É honroso pensar que pude estar com um dos maiores líderes universais, herói de seu povo, prestigiado em todo o mundo, bravo na luta contra a dominação em benefício de um país de iguais. Condenado, por isso, à prisão perpétua, mesmo preso, não desistiu de lutar em favor do bem comum, dos direitos fundamentais e da justiça.

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