Ainda falta às mulheres ocuparem vários espaços e cargos de chefia

Lia é integrante do coletivo Beleza Preta de Piracicaba desde 2019, e fala com orgulho de ser presidenta preta do Conselho Municipal da Mulher de Piracicaba na gestão 2020/2021. | Foto: Amanda Vieira/JP

A advogada paulistana Lia Mara de Oliveira escolheu Piracicaba como sua terra natal. Ela conta que está há muitos anos na cidade. A família da mãe – Josefa de Oliveira – morava em Piracicaba e Charqueada e, por isso, decidiu adotar a cidade. Ela é viúva e mãe de Renata Karine Oliveira Fetti e é bacharel em Ciências Jurídicas atuando nas áreas cível, criminal e empresarial, é também promotora legal popular, formada pela 2ª Turma Piracicaba, em 2017.

Lia é integrante do coletivo Beleza Preta de Piracicaba desde 2019, e fala com orgulho de ser presidenta preta do Conselho Municipal da Mulher de Piracicaba na gestão 2020/2021.

Ela é formada pela Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), turma de 1.986. Entre suas atividades, Lia foi palestrante na VI Semana de Administração e Administração Pública realizada na Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp, em setembro 2018, e no ano passado concluiu o curso livre de Introdução ao Direito Digital.

Neste mês de março, dedicado às mulheres a presidente do conselho Municipal da Mulher de Piracicaba, Lia Mara é a entrevistada do Persona deste domingo e falou dos desafios, lutas e conquistas das mulheres, alem da atuação da mulher diante da pandemia de covid-19. Por causa da pandemia, a entrevista foi feita por e-mail.

Quais as principais demandas recebidas pelo conselho Municipal da Mulher de Piracicaba?

As demandas são referentes as diversas violências de gênero, com incidência maiores as violências domésticas, participação nas elaborações e sugestões de políticas públicas para as mulheres.

Como o órgão tem atuado junto à sociedade e, em especial, como é essa atuação junto às mulheres?

Saliento que, o Conselho Municipal da Mulher, foi instituído pela Lei 7.235, de 14 de dezenbro de 2011, tendo como finalidade promover a discussão e indicar à Secretaria Municipal de Governo as diretrizes para o planejamento e a implementação de programas e ações de políticas públicas voltadas à mulher e suas necessidades, a fim de garantir a igualdade de oportunidades, de forma a assegurar à população feminina a promoção da cidadania plena e a eliminação de todas as formas de discriminação. Desta forma o Conselho Municipal da Mulher tem atuado em Rede, junto aos serviços de prevenção, atendimento e proteção às mulheres no Município de Piracicaba.

Sororidade e empoderamento. Novas palavras têm surgido para efetivar e reforçar reivindicações antigas das mulheres. Como a senhora avalia as lutas e conquistas ao longo do tempo?

A união entre as mulheres faz com que alcancemos políticas públicas menos desiguais, mas não nos esqueçamos da especificidade de cada uma, e em se tratando de empoderamento, como mulher preta não posso ignorar a minha história, nem das minhas ancestrais que a muito vem buscando.

O feminicídio tem sido um crime recorrente na sociedade atual e Piracicaba não é uma exceção. Nesse sentido, leis específicas de proteção à mulher surgiram nos últimos anos. As cidades criaram patrulhas no sentido de reforçar a segurança. Em sua opinião esses mecanismos têm surtido efeito O que falta para garantir a segurança e integridade das mulheres?

Não basta só as criações de leis se o poder público não amparar os órgãos que as executam, pois há déficit de guardas civis para atuarem na Patrulha Maria da Penha, na cidade de Piracicaba, haja visto que, quando abre concurso público para preenchimentos de vagas junto a referida guarda, destaca-se o percentual de 20% para o gênero feminino; faz-se necessário também o investimento no Centro de Referência Especializado de Atendimento à Mulher em situação de violência doméstica(CRAM); Criação e promoção de casa abrigo para mulheres vítimas de violências domésticas e seus filhos. Com o agravamento que não temos a Delegacia Especializada no Atendimento às Mulheres funcionando 24 horas e aos finais de semana, onde ocorrem índices maiores de violências domésticas.

Como a senhora avalia a participação da mulher na política  nos níveis municipal, estadual e federal?

Tivemos um aumento nas últimas eleições municipais, mas necessitamos que mais mulheres estejam à frente na política em todos os níveis e que haja representatividade e aumento da participação da mulher preta nesse contexto.

A pandemia do coronavírus alterou a estrutura e comportamento da sociedade, seja nas relações de trabalho e familiares. A senhora acredita que a mulher seja mais cobrada por essas mudanças e, consequentemente, sofra mais por causa dessas adequações?

Para as mulheres que nesse momento estão trabalhando em “home Office”, está com sobrecarga de trabalho, pois tem que dar conta do que a empresa lhe “cobra” enquanto funcionária, dos afazeres domésticos, do cuidado dos filhos, etc. mesmo com o empoderamento feminino a mulher não se desvinculou que não é obrigada a dar “conta” de tudo, chegando ao ponto de adoecer. Há que se falar também das mulheres que criam sozinhas seus filhos e perderam os empregos e não conseguem suprir as necessidades básicas, mulheres essas que em sua maioria são pretas e moram na periferia.

O que a pandemia de covid-19 deixa de aprendizado para as mulheres?

Que a pandemia deixe aprendizado não só as mulheres, mas a toda sociedade, que nos tornemos mais solidários, que prevaleça o amor, respeito, dignidade, igualdade.

Em sua opinião, ainda há exceções da participação da mulher, seja nas atividades econômicas, políticas, esportivas, sociais?

As mulheres embora sejam a maioria, ainda permanecem invisíveis e excluídas em diversos ramos da sociedade e por vezes se quer conseguem ocupar cargos de destaques dentro de empresas, destaques na política e em demais lugares onde predominam o gênero masculino, pois vivemos numa sociedade racista e patriarcal.

Onde a senhora acredita que ainda falta a presença da mulher ?

Eu, mulher preta não posso deixar de citar que ainda nos falta ações afirmativas para que estejamos em diversos espaços e ocupemos vagas de chefia.

Como presidente do conselho Municipal da Mulher, qual a palavra da senhora às mulheres em mais um mês dedicado a elas?

Deixo uma frase de Lélia Gonzalez: “É importante ressaltar que emoção, a subjetividade e outras atribuições dadas ao nosso discurso não implicam na renúncia à razão, mas, ao contrário, num modo de torná-la mais concreta, mais humana e menos abstrata e/ou metafísica. Trata-se, no nosso caso, de uma outra razão.”

Beto Silva
[email protected]

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