O piracicabano André Romani é uma daquelas mentes criativas e polivalentes. Com 38 anos ele já trabalhou ao lado do expoente da publicidade Washington Olivetto, é um dos precursores do Brasil no Twitter, criou músicas para sambistas como Nelson Sargente e, atualmente, em meio à pandemia, criou um aplicativo para reunir e divulgar as lives de todo o país. Saiba um pouco de sua trajetória nesta entrevista.

André, como foi a sua infância em Piracicaba? Quais locais da cidade que mais de te marcou?
Piracicaba sempre foi uma cidade muito acolhedora, um referencial. Nasci aqui e as coisas pareceram sempre conspirar para que eu sempre estivesse por perto. Nasci no tradicional bairro da Paulicéia, mas passei grande parte da vida no Piracicamirim, Rua Estefânia Novaes. Há alguns anos moro no São Dimas, mas isso só para citar os endereços. Considero Piracicaba toda um lugar bom pra se parar e estar. Frequentei e frequento todas as regiões da cidade, tenho amigos em muitos bairros e estou por lá na medida do possível. Sou daqueles piracicabanos natos, que já palpitou com o Saponga sobre o XV e já tomou o chopp da barraca alemã na Festa das Nações. Piracicaba é riquíssima culturalmente, você pode encontrar histórias interessantíssimas, lugares e personagens na sua rua, seu bairro, sem muito esforço.

O que te levou a se envolver com publicidade e propaganda? O que mais te chamava a atenção nesta profissão?
Na verdade o que não me chamava a atenção eram as ciências exatas. Então, como sempre gostei de escrever acabei me enveredando para o lado da criação publicitária, mais precisamente a redação. Lógico que a propaganda também demanda muito conhecimento exato, mas certas áreas, digamos assim, estão mais isentas disso. Acabei descobrindo esse viés da redação publicitária no decorrer do curso, algo que não é muito comum acontecer, aliás não raro alguém abandona um curso por não se identificar, eu tive sorte e descobri as asas do avião durante o voo.

Você se graduou em Piracicaba e fez uma especialização em São Paulo. Qual a diferença entre estudar no interior e na capital? Estar na capital ofereceu mais oportunidades?
Do ano que me formei até a minha especialização em comunicação digital há pouco, muita coisa aconteceu. Hoje não vejo diferenças relevantes em estar na capital ou interior. (Aliás, como qualidade de vida vejo o interior como vantagem) Quando o mundo era mais analógico talvez sim estar na capital era um ponto a favor, hoje em dia penso que não mais. Você pode estar em qualquer região do mundo e ter o seu trabalho/portfólio exposto para quem quer que seja, com a possibilidade de manter contato com os profissionais que você admira, estando na capital ou interior. O primeiro passo pode ser dado daí mesmo onde você está.

Como aconteceu a oportunidade de estagiar com o Washington Olivetto?
Enquanto estudante, o primeiro grande desafio era encontrar uma oportunidade de estágio. Você não tem nenhuma experiência e ainda assim é colocado à prova e em competição com uma legião de candidatos. Nessa fase você ouve muitos nãos, aliás, parece que só ouve não. Comigo não foi diferente, mas foi o estopim pra que eu tentasse um passo maior. Depois de ouvir mais um não, decidi que se iria ouvir outro, que fosse do maior publicitário brasileiro. Obviamente não tinha o contato do Olivetto, então testei várias combinações de e-mail possíveis e mandei o portfolio me apresentando.

Por sorte, uma das combinações de e-mail era a certa e foi o primeiro sim que ouvi. Poucos meses depois desse e-mail eu estava ocupando uma das cadeiras da icônica agência brasileira, um dos pilares da cultura brasileira e que virou até música do Jorge Ben Alô, Alô W/Brasil. (Lá também descobri que a canção começou a nascer em uma das festas da agência).

Um dos aplicativos de sua autoria é o Twinester. Qual é sua funcionalidade e qual foi o insight para criá-lo?
Quando o Twitter apareceu , ainda estávamos com o pensamento muito arraigado ao Orkut. Pouca gente entendeu a rede de cara. Gostei muito da ferramenta mas via uma necessidade não preenchida de poder obter informação segmentada, por assuntos específicos tal qual as comunidades no Orkut, daí nasceu a ideia. As famosas hashtags pareciam mais um conjunto de monólogos e muita das funções que temos hoje no Twitter ainda não existiam. Todas as grandes plataformas oferecem API’s que permitem esse desenvolvimento integrado, foi a porta que precisávamos para criar a funcionalidade inédita.

Inclusive o Twinester o levou a ser palestrante de uma edição do campus Party. Como avalia a experiência em um evento de grande porte? Abriu portas?
Não demorou muito para que estivéssemos na grande mídia do país e até um dos fundadores do Twitter, Evan Willians, nos retornou parabenizando pela ideia e dizendo que tinha gostado. O convite para a Campus Party surgiu nesse contexto. Eu e o Christian Aléssio, o desenvolvedor, palestramos no palco principal do evento ,que naquele ano, receberia nos demais dias no mesmo palco: Scott Goodstein estrategista digital da campanha à presidência de Barack Obama, o famoso hacker Kevin Mitnick e Lawrence Lessig um dos criadores do Creative Commons. Com certeza foi uma porta fundamental para atingirmos a marca dos milhões em audiência e passarmos pelos principais portais do País, assim como firmar parcerias importantes como o projeto que desenvolvemos com a MTV Brasil.

Este ano, em meio à pandemia, você criou um aplicativo que funciona como uma agenda de lives, o Deus me Live! Como está a adesão do país ao app?
Apesar de não ser um formato inédito, o volume de lives teve um crescimento muito acelerado por conta da pandemia. Era muita informação de forma pouca organizada. A criação de uma agenda colaborativa foi a solução que inicialmente pensei em disponibilizar apenas para os amigos, mas que se mostrou uma necessidade de muitos. As lives vieram para descortinar um novo mercado, o público não presencial. Por várias razões não estamos disponíveis para estar fisicamente num evento e as lives cumprem agora esse papel. A ferramenta caminha muito bem, temos milhares de usuários do Brasil todo, que colaboram com sugestões de artistas regionais e também com os mais famosos. O interessante da criação conjunta de uma agenda é que você pode acabar descobrindo artistas novos que não têm os mesmos holofotes.

E quais são as novidades do app nestes últimos meses?
Inicialmente a agenda toda era dedicada a música. Há pouco abrimos a agenda para todo tipo de live, culturais, formativas e de bem-estar. O próximo passo é tornar a ferramenta totalmente colaborativa e interativa. Os “rankings” de qualidade serão ditados pela audiência e usuários do app.

Apesar de você trabalhar com tecnologia que conecta pessoas, você não é um grande entusiasta de redes sociais. Por quê?
Particularmente não sou muito adepto a exposição excessiva em redes sociais. Se você não faz um bom uso, não delimita seus critérios, em qualquer que seja a rede, há uma grande chance do usuário se expor mais do que o necessário. Para um CNPJ isso pode ser bom, para um CPF talvez nem tão bom. As redes devem sim ser usadas como ferramentas facilitadoras, mas não podem tomar o protagonismo para si. Em excesso, elas podem dissimular a condição de sociabilidade a que se propõe. Não acho que um emoji sorrindo pode cumpir plenamente seu papel. Pense quantas vezes você mandou um emoji sorrindo estando na verdade com a cara fechada.

André, em paralelo, você também é compositor de samba tradicional. Como surgiu a oportunidade de ter suas composições gravadas por grandes sambistas?
Apesar de nunca ter vivido exclusivamente com música, sempre mantive uma ligação muito estreita com ela. Cheguei até estudar no conservatório de Tatuí e fiz muitos amigos nesse meio. Nesse contexto começo a compor e naturalmente as coisas aconteceram.

Tenho alguns sambas gravados, por sambistas da cidade, São Paulo e Rio de Janeiro. Por exemplo, logo mais será lançado o último trabalho do Reinaldo e tenho o privilégio de estar nesse repertório, um disco histórico pois foi o último registro deste, que é um dos maiores intérpretes da história do samba. Nossa cidade é muito bem abastada também nesse quesito. Temos aqui músicos, intérpretes e compositores, que são referências , seja no Brasil ou no mundo, em música popular ou erudita, em quaisquer gêneros.

Um deles é o icônico Nelson Sargento. Conte um pouco de sua parceria com ele. Você tem contato ainda com ele?
A sorte também é bem-vinda não é? O samba com o Nelson foi um caso desses. Ele estava na cidade para um show com um parceiro que eu já compunha também. Num papo o Nelson apresentou uma primeira parte de um samba a este parceiro, o Tuco Pellegrino. O Tuco fez uma segunda parte e me apresentou sem dizer que a primeira parte era do Nelson. Eu sugeri para essa segunda parte que ele havia feito , uma nova letra. Todos gostaram e virei parceiro no Nelson Sargento, que completou recentemente 96 anos de vida. Coisa boa né? Tenho um quadro do também artista naif Nelson Sargento na parede da sala, onde ele fez uma dedicatória para mim após esta parceria.

Quais serão as principais características deste material e quem participará? Imagino que encara este desafio como um sonho em curso de ser realizado, não?
Não diria sonho, até porque nunca havia idealizado gravar um trabalho. Encaro como um marco para mim, não só porque até então não tinha registrado minhas canções de maneira profissional, mas pela proposta de reunir num trabalho exclusivamente autoral, tantas referências e amigos. Nesse trabalho estou conseguindo juntar grandes arranjadores, instrumentistas , compositores e intérpretes. No disco, além de sambas que compus sozinho ,trago canções em parceria com Wanderley Monteiro, Moacyr Luz, Chico Alves, Tuco Pellegrino, Serginho Jabaquara, Xande de Pilares e o conterrâneo Alessandro Penezzi. O disco contará com arranjos do mítico Rildo Hora, Claudio Jorge ,Mauro Diniz e completando o tempero dessa mistura que mencionei, vários pratas da casa como: Leandro Oliveira, Saulo Ligo, Marcos Godoy, Vitor Casagrande, Xeina Barros, Rafael Barros, Leba do pandeiro, Mestre Thadeu e Xande Campos, Buziga, Samuca, Juca Ferreira , Quilombola e projeto Xô Segunda. Será interessante esse registro.

Além de tudo isso, você ainda trabalha no Sesc Piracicaba com editor de web, com conteúdo digital. Esta área hoje é importantíssima para fazer a cultura se manter relevante em meio à pandemia. O momento foi um desafio para aprender e criar ainda mais neste setor?
Atuo no Sesc piracicaba desde a criação da editoria web no regional São Paulo, há 7 anos. A função dos editores é consolidar a presença das unidades com suas várias vocações e linguagens no ambiente digital.Este momento está sendo particularmente desafiador para toda a equipe, pois potencializa o olhar para esse meio como uma alternativa possível e necessária para o entretenimento, informação, contemplação etc. Seguimos atuando para manter e adequar de maneira consciente e consonante o papel que o Sesc já vem cumprindo , especificamente em Piracicaba, há 40 anos.

Erick Tedesco

Foto: Claudinho Coradini/JP

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