Antes que se perca

Durante a II Guerra Mundial – mais precisamente em 1943 – um aristocrata foi nomeado prefeito de Piracicaba. Era Jorge Pacheco e Chaves, “o doutor Jorge”, como o chamavam. Ou “dr. Punho de Rendas”, para os adversários. Na realidade, ele era um homem culto, refinado, de maneiras elegantes. Muito rico, ele dizia: “Minhas heranças eu as gasto viajando pela Europa.” E, de lá, trazia lições, exemplos, inspiração. Foi um dos criadores da nossa histórica “Chácara Nazareth”.
Piracicaba vivia a transição provocada pela guerra e pela fortíssima presença de descendentes de italianos, sírios, espanhóis, alemães e de japoneses, quase todos olhados preconceituosamente por razão da catástrofe mundial. Os “inimigos”, mesmo já estando no Brasil, eram os vindos da Alemanha, Itália, Japão. O “doutor Jorge” – homem de visão universal – tentou diminuir as tensões e se propôs uma meta: “civilizar Piracicaba”, então uma pequena cidade que começava a perder suas características. A grosseria, a desordem, a formação de guetos começavam a fazer sombras à verdadeira imagem piracicabana, terra de cultura e de civilidade, de artes e de convivência harmoniosa. Pouco o “doutor Jorge” conseguiu. Mas deixou sementes plantadas e um símbolo significativo: a reforma do jardim central, que ele pretendia fosse uma réplica das Tulherias.
Boas maneiras são atributo de povos civilizados. O oposto disso é a barbárie. Civilização e cultura caminham juntas, irmãs siamesas. O povo culto, civilizado tem modos de viver mais refinados, com relacionamentos também polidos. Não nos esqueçamos de polidez, polido, polimento serem palavras com a mesma raiz de política, “polis”. Cultura e civilização são a “Paidéia” dos gregos, a “Humanitas” dos latinos. Trata-se, em resumo, da formação e da educação integrais do homem e, por conseqüência, de uma sociedade humana.
Quando um povo perde o senso de civilidade, caminha para a sua própria degeneração, que é a principal fonte da decadência. E isso acontece também por descuido, por lentas e repetidas concessões, pelo silêncio dos bons, pelo descaso de classes dominantes. Em seu monumental livro “Os Miseráveis”, Victor Hugo alerta: “Os povos, como os astros, têm direito ao eclipse”. Piracicaba, descuidadamente, não estaria ameaçada de um eclipse cultural? Não já estamos ameaçados pela ascensão da barbárie e de bárbaros?
Não são necessárias grandes elucubrações ou estudos para se perceber a cada vez mais acelerada perda da civilidade, a polidez sendo substituída pela grosseria. Basta estar no trânsito, em ambientes públicos, em ruas congestionadas por multidões apressadas. O desrespeito impera. Pessoas atropelam-se, xingam-se e xingam, jogam lixo nas ruas, desrespeitam sinais e leis de trânsito, pisoteiam sobre as mais comezinhas regras de boa convivência. O individualismo é brutal. A solidariedade começa a enfraquecer.
Ora, uma das noções de humanidade induz-nos a “uma fraternidade”. Se assim não for, o ser humano será apenas um primata diferenciado. Já se fala numa sociedade “pós-humana”, o que nos pode conduzir a um primitivismo agora “sui generis”: primatas com celulares, num mundo apenas digital. Ora, sempre soubemos que palavras e gestos simples demonstram um povo civilizado: obrigado, por favor, desculpe-me, bom dia, boa tarde, um sorriso. Enfim, regras básicas de relacionamento social. Pois, em resumo, cultura exterioriza-se na polidez e no respeito. Se não reagirmos à riqueza ameaçada, estaremos à beira da degeneração.
Por que não voltarmos a ser corteses como testemunho de Natal?

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