Artêmis, a “Camelot” do Rei

Eis que, antes mesmo de iniciar a croniqueta, dou-me conta de quão antigo sou. Sinto-me, porém, beneficiado por isso. Pois – contador de histórias que me considero – imagino-me entre aquelas carochinhas, vovós que faziam narrativas aos netinhos. Isso é bom. Esse despertar acontece-me por causa dos 80 anos do Rei Roberto Carlos e da presença de Piracicaba em sua vida. Uma passagem que lhe fez bem e que nos coloca como pequenina parte de sua história.

Percebo-me antigo por causa de Artêmis. Pois sou de quando a atual Ártemis era Artêmis. Na realidade, o belíssimo lugar era o nosso Porto João Alfredo. E ir ao “Porto” era uma aventura, parecendo-nos tão distante e aventuroso. O distrito passou a chamar-se Ártemis, como que uma homenagem à deusa da floresta, da caça – talvez para simbolizar o encantamento do lugar. A Ártemis grega corresponde à Diana romana. O fato é que, na década de 1950, houve uma grande polêmica, pelos jornais, quanto ao nome: Ártemis ou Artêmis? Pois o povo insistia no Artêmis. E, na verdade, este ou aquele dava na mesma. Fiquei com Artêmis. Até hoje. Pois a pronúncia está carregada de belas lembranças, incluindo a recordação de meu padrinho de batismo, Manoel Chaddad, líder daquele belo lugar.

Pois bem. Artêmis está presente na vida de Roberto Carlos. E isso, pois, nos coloca como um momento muito feliz e pacífico na história dele. Foi em Artêmis que o Rei resolveu recolher-se por bom tempo, escolhendo um espaço de paz, de sossego para repousar, fugindo das multidões. Ele e a sua então amada Nice instalaram-se num rancho paradisíaco à beira do rio Piracicaba. E entenda-se: rancho, para os piracicabanos, era o lugarzinho à beira rio, lugar de pescarias, de refúgio e, também, de amores clandestinos. Em Artêmis, porém, eram – e ainda são – lugares refinados, privilegiados.

Roberto Carlos e Nice recolheram-se em Artêmis, contando com amigos e vizinhos como os Baldo (Ester Farah) Zardetto de Toledo, Vicente (Amélia) Petrocelli e outros. Ah! a Ester Farah, a mulher revolucionária, líder, violonista, cantora de voz rouquenha. Ah! Amélia Petrocelli, minha tia, irmã de meu pai, linda como ninguém. Ah! o velho Porto João Alfredo, lugar de mistérios, delícias, belezas.

Roberto e Nice instalaram-se em Artêmis por um bom tempo. E lá eles criaram a “Camelot” do Rei, onde recebiam pouquíssimos e privilegiados amigos, onde amaram e criaram, encantando ainda mais o lugar. Foi em Artêmis que o Rei compôs a canção imortal que ainda aquece corações apaixonados, a “Amada Amante”. Foi em Artêmis que Roberto acolheu o jovem Bebeto, coautor de algumas de suas canções.

Conheci Roberto Carlos quando, ainda, ele não era o Rei. Fazendo explodir a juventude com a Jovem Guarda, ele veio a Piracicaba e fez parar a cidade. Sei lá do porquê, ele era o convidado especial para um jantar na casa da vereadora Maria Benedita Penezzi, a inesquecível Ditinha. Estive entre os poucos presentes. Pois a Ditinha – a marqueteira Ditinha – queria um jornalista para testemunhar o seu privilégio. Roberto não abriu a boca. E fiquei irritado. Pois, na verdade, eu tinha implicância com o ié-ié, já que me apaixonara pela bossa-nova. Mal sabia eu que, naquela noite, o jovem jornalista jantava ao lado do futuro Rei. 

Que historiadores monárquicos não se esqueçam de que o Rei instalou a sua “Camelot” num pedacinho do céu piracicabano. Artêmis, Ártemis, Porto João Alfredo, não importa: lá foi o ninho de amor de Roberto Carlos e de Nice, os amados amantes. Uma história da carochinha…

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