As infâncias em tempos de pandemia

Foto: Freepik

Pensar na ideia de infância quase sempre nos parece uma questão usual, com fácil definição e reconhecimento, afinal a infância é no senso comum tratada como sinônimo de criança. No entanto, é preciso fazer uma ressalva e reconhecer uma concepção um tanto mais complexa, pois a infância, enquanto estrutura social, é múltipla, plural e diversa.

A partir dessa perspectiva, torna-se possível afirmar que há inúmeras infâncias, cada qual com suas particularidades, características, culturas e práticas sociais. Basta pensarmos nas brincadeiras e formas de sociabilidade de crianças vindas de lugares distintos, com costumes, crenças e condições socioeconômicas diversas. Ora, tratar a infância como algo homogêneo é, na minha opinião, um grande equívoco, especialmente em um país cujas diferenças sociais são notórias.

Diante da pandemia que afeta de maneira especial os brasileiros, tendo em vista que somos um dos países com maior número de mortes pela doença, não podemos negar que diversas formas de sociabilidade se modificaram. Ambientes que outrora possibilitavam encontros, construções afetivas e, até mesmo, conflitos, os quais contribuíam com a construção subjetiva e social, se distanciaram do cotidiano infantil. A escola como um dos principais ambientes de socialização, nos ajuda a perceber as dificuldades que escancaram as diferenças com que cada criança (sobre)vive a essa etapa chamada infância em tempos de distanciamento.

Se de um lado temos crianças frequentando quase que diariamente as escolas, participando de atividades extras, como aulas de idiomas, esportes, danças e etc, por outro, é preciso considerar que há muitas crianças distante de tais possibilidades. Há cidades, aqui mesmo no estado de São Paulo (diga-se de passagem, o estado mais rico da federação), em que crianças frequentam as aulas durante uma semana e ficam em suas casas nas outras duas semanas seguintes, como forma de revezamento entre os alunos. O problema é que, nessas duas semanas em casa, não há qualquer atividade educativa, pelo contrário, as crianças ficam à própria sorte.

Apesar da diferença entre escolas públicas e privadas não ser uma novidade, é notório que agora tal desigualdade foi alçada a outro patamar. De um lado, há escolas que oferecem inúmeras oportunidades de contato com os alunos, seja de modo presencial ou remoto. Na outra ponta, estão crianças que, em muitos casos, não podem sequer frequentar a escola com regularidade, tampouco acompanhar as aulas remotamente, seja por falta de dispositivos que permitam o acesso, seja pela baixa qualidade da internet.

Considerando que a infância é um período de formação cujos atravessamentos contribuem na formação social dos indivíduos, torna-se urgente questionar: De que modo essas perdas serão reparadas? Quais serão os impactos para a formação do sujeito diante desse cenário? De que maneira as desigualdades, que já eram grandes, se expandem em tempos de pandemia?

Ao observar pessoas dizendo que estamos atingindo certo estado de normalidade, que o perigo já teria passado e que, por isso, teríamos que levar nossa vida sem qualquer cuidado extra (uso de máscaras, distanciamento social etc.), torna-se claro a nossa capacidade, enquanto sociedade, de olhar tão somente para o próprio umbigo. Falta-nos o altruísmo e a compreensão de que nossas atitudes individuais interferem no coletivo. No caso das crianças, quanto mais tempo levarmos para superar, com segurança, este cenário, maior também será o tamanho e a profundidade do abismo que separa as crianças e suas infâncias.

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