As matrizes do pensamento ocidental

Sócrates, com a maiêutica, ensinou o parto das ideias e estabeleceu as regras básicas do pensamento lógico. Seu discípulo Platão aplicou e desenvolveu as ideias do mestre, teorizando acerca de um mundo ideal que deve servir de baliza e modelo para as realidades humanas. Seu pensamento é dedutivo, parte do geral e se aplica ao particular, mantendo-se sempre ambos em perfeito equilíbrio.

Já Aristóteles, discípulo de Platão, desenvolveu e aperfeiçoou os ensinamentos socráticos e platônicos de um ponto de vista diverso. Aristóteles era cientista, filho de médico e ele próprio estudou medicina. Seu método era o estudo dos casos concretos e particulares para, a partir deles, chegar ao conhecimento e formulação das regras gerais. Seu pensamento era indutivo, ao contrário de Platão. Mas ambos se completam admiravelmente. Em ambos se nota o mesmo equilíbrio fundamental da natureza humana, o geral com o particular, o todo com as partes, a teoria com a prática.

Um exemplo mostra bem as diferenças dos dois. Na República, Platão concebeu um regime político ideal, se bem que, no sentido original do termo, utópico, ou seja, não existente em lugar algum. Já Aristóteles escreveu a Política seguindo o caminho inverso. Possuindo um generoso e rico mecenas, Filipe da Macedônia, dispunha de verbas abundantes para seus estudos. Pôde, assim, enviar emissários a todos os povos então conhecidos, coligindo mais de 200 relatos de como se governavam em concreto os povos. A partir desse rico material de pesquisa teorizou e elaborou sua obra.

Platão e Aristóteles, por caminhos diferentes, influenciaram profundamente o pensamento político do Ocidente, sendo ambos considerados ainda hoje, a justo título, luminares da Ciência Política.
O pensamento grego, assimilado e adaptado pelo gênio romano, recebeu ainda um terceiro componente, de importância fundamental: a influência hebreia, que nos chegou por intermédio do Cristianismo, trazendo o elemento religioso da Revelação divina. Essas são as três matrizes do pensamento ocidental, profundamente lógico, coerente e completo.

Na Era Cristã, o pensamento de Platão teve numerosos seguidores, dos quais o maior e mais brilhante foi Santo Agostinho, pensador e intelectual fecundíssimo. De conhecimentos enciclopédicos, escreveu com profundidade e espírito criativo sobre todos os ramos do conhecimento humano, sempre sem perder de vista a unidade fundamental desse conhecimento.

Já Aristóteles teve, na Idade Média, um seguidor igualmente genial, São Tomás de Aquino, que cristianizou, renovou, desenvolveu e aperfeiçoou o aristotelismo, num conjunto de mais de cem obras, igualmente abarcativas de todos os ramos do conhecimento. O pensamento aristotélico-tomista também privilegia a visão global do conhecimento humano, especialmente na Summa Contra Gentiles (que é exclusivamente filosófica e faz abstração da Revelação) e na Summa Theologiae (que focaliza temática religiosa e teológica, sem embargo de incorporar poderosamente o arcabouço filosófico).

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