Assassinato de Madalena choca e comove os piracicabanos

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(Foto: Arquivo/JP)

Figura carismática, Madalena Leite atuou por mais de 20 anos como líder comunitária e fez história em 2012, sendo a primeira e única mulher travesti a conseguir ocupar uma vaga de vereadora na Câmara de Vereadores de Piracicaba. No mesmo ano, foi homenageada na 6ª edição da Parada LGBTQ+ da cidade. Na madrugada de ontem (07), a carismática personalidade da Noiva da Colina foi encontrada morta em sua casa e, de acordo com a polícia, de maneira cruel e brutal.

Em entrevista ao Jornal de Piracicaba no ano passado, Madalena falou sobre sua trajetória de vida, que passou por momentos conturbados na infância. “Antes eu dormia na rua, dormi em uma construção na época que era moleque, entre meus 14 e 16 anos. Assistia a missa na Igreja Bom Jesus e dormia no banco. A mulher que abria a igreja me via dormindo no banco e me acordava para dar um copo de leite e pão com manteiga. Comia e continuava andando. Depois fui trabalhar na república, logo após perder a minha família. Ela (república) ficava na Benjamin, na época do Canecão”, contou na época.

Paulo Soares, presidente do Caphiv (Centro de Apoio HIV/ Aids e Hepatites Virais), conta que a atuação de Madalena na Câmara, trouxe melhorias fundamentais para os trabalhos desenvolvidos pelo Centro de Apoio. “Foi por meio dela que conseguimos uma ambulância para o Caphiv” contou.

Amigo pessoal de Madalena por pelo menos 15 anos, Paulo foi quem coordenou a campanha de Madalena em 2012 e diz que o legado deixado por ela, abrange muitas pessoas. “Ela era um ser humano incrível, há pelo menos 30 anos ela fazia a festa das crianças na comunidade do Boa Esperança, com arrecadação de brinquedos e alimentos que eram distribuídos para a comunidade, ela fará muita falta” enfatizou.

A morte dela, de acordo com Paulo, reflete diretamente o cenário de preconceito em que vivemos. “A morte da Madalena fala dos números, das estatísticas que apontam os índices de transfobia e racismo, mas também nos mostra que é preciso ter forças para lutar cada dia mais pela nossa causa”, enfatizou.

O coordenador geral da ONG Casvi, Anselmo Figueiredo, falou sobre a morte de Madalena em sua rede social: “Hoje o dia começou com uma notícia muito triste. A líder comunitária e ex-vereadora Madalena foi encontrada morta em sua residência, brutalmente assassinada”, postou.

“Venho por meio deste me solidarizar com seus familiares e amigos mais próximos, registrando minha indignação com mais esse crime LGBTIFOBICO em nossa cidade.

A história de vida de Madalena foi pura resistência. Negra, pessoa transgênera, pobre, da periferia, Madalena foi um símbolo da luta contra discriminações de todas as formas. Até quando vamos aceitar que uma pessoa seja assassinada pelo simples fato de ter uma orientação sexual ou uma identidade de gênero diferente? Cobraremos justiça”, acrescentou Figueiredo.

REPERCUSSÃO

A Câmara de Vereadores, lugar onde Madalena trabalhou, emitiu nota oficial de pesar em homenagem à ex-vereadora. “O ícone piracicabano que se tornou respeitado por todos, por sua alegria, simplicidade e simpatia, foi o primeiro transexual, que de origem humilde, pobre, de cor negra e que em meio a tantas dificuldades, chegou ao Poder Legislativo de Piracicaba. Exemplo de luta, persistência e superação, hoje nos deixou para sempre”, traz a nota.

O prefeito de Piracicaba, Luciano Almeida (DEM), também se manifestou, lamentando a morte da ex-parlamentar. “Nossa cidade perdeu uma das pessoas mais queridas da sua história. Madalena será lembrada pela alegria contagiante e pelo cuidado para com o seu próximo, seja como líder comunitária ou mesmo como vereadora. Que Deus possa consolar o coração da família e dos amigos enlutados nesse momento”, disse.

A deputada federal Samea Bonfim (Psol) também publicou nota em suas redes sociais. “Madalena Leite foi a primeira vereadora trans eleita em Piracicaba. Recebemos a triste notícia de que ela foi encontra da morta em sua própria casa. Quanta dor. Toda nossa solidariedade à família e aos amigos. Madalena Presente!

IMPRENSA

Nesta terça-feira, 7 de abril, Dia do Jornalista, muitos profi ssionais se manifestaram nas redes sociais sobre a morte de Madalena. O jornalista Thomaz Fernandes lembrou da entrevista à então vereadora eleita, em 2012. “Em choque com a morte dessa fi gura. Coube a mim a pior parte, a de entrevistar a vereadora sendo vítima de ataques homofóbicos, falando da própria doença (ela enfrentou um câncer) e no assassinato de uma travesti famosa de Piracicaba e parente (pelo que me lembro distante) da Madalena, a Abelha. Lá em 2012, em que a identidade de gênero era um assunto distante pra mim, ela foi história como a “primeira travesti eleita vereadora em Piracicaba”, mas a verdade é que ela era diferente de qualquer letra da sigla para o que na época era chamado de LGBT. Ela se referia a si no feminino, mas não admitia que seus sobrinhos a chamassem de tia (era tio), sentia o maior orgulho em tomar posse de terno e gravata e dizia que olhava para o espelho e via “um homem de muita coragem”. Até hoje não sei se ela era uma trans que absorveu os preconceitos dos quais foi vítima e nunca se sentiu confortável para ir além do nome de mulher, ou se a persona feminina folclórica e bem-humorada era uma forma de defesa para um homossexual negro, pobre e da periferia se proteger da incompreensão e violência; como se o apelo cômico permitisse que ela transitasse entre todos”, postou o jornalista.

“Porque tudo já foi dito hoje sobre você, deixo aqui a imagem que, para mim, fica da sua passagem perfumada, alegre e apaixonada por essa vida. Vá em paz, Madalena”, comentou a jornalista Cristiane Sanches ao postar a imagem de uma rosa vermelha. O assessor da Câmara de Vereadores de Piracicaba, Rodrigo Alves, lembrou a reportagem que fez com Madalena para a TV Câmara, logo após a posse da vereadora. “Essa reportagem traz a ‘essência’ de Madalena, a fi gura folclórica de Piracicaba e reconhecida líder comunitária. A produzi em 2013, para a TV Câmara, quando Madalena assumiu o tão sonhado mandato de vereadora e se tornou a primeira travesti eleita na cidade (ela não gostava da expressão trans, preferia travesti).

A jornalista Eliana Teixeira lembrou a popularidade da ex-vereadora. “Madalena foi brutalmente assassinada, algo tão contrastante como a alegria que espalhava pelas ruas de Piracicaba. Madalena era uma fi gura familiar a mim, que quando criança a via passar pelas ruas do Bairro Alto, onde meus avós moravam. Madalena era popular e familiar a muitas pessoas. Mas isso não foi sufi ciente para conter a homofobia, menos ainda a violência”, comentou.

Pedro Martins
Beto Silva

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