Bandeiras

Quando se fala em bandeiras, a lembrança imediata é a de um pedaço de pano de uma ou mais cores, preso na parte superior de uma haste, que serve de símbolo de uma nação, estado, município, corporação, partido, enfim, de qualquer grupo organizado.
Lembro-lhes que elas serviram mais para justificar a prática de atos inconfessáveis do que para as boas ações.
Castro Alves, por sua vez, conseguiu produzir esses belíssimos versos que são arremates de justa crítica ao crime de escravidão cometido em nossa pátria até 1888: “Auriverde pendão de minha terra, / Que a brisa do Brasil beija e balanças, / Estandarte que a luz do sol encerra, / E as promessas divinas da esperança… / Tu que da liberdade após a guerra / Foste hasteado dos heróis na lança…, / Antes te houvessem roto na batalha, / Que servires a um povo de mortalha!”.
Ele critica com veemência a escravidão dos africanos, mas antes deles nossos nativos já eram escravizados. Em 1534, D. João III legalizou a escravidão indígena ao permitir que os donatários capturassem dezenas de brasis para uso pessoal e exportação, sem pagar impostos. Pagos os impostos não havia limite à exportação.
Nossos nativos do litoral não conheciam a escravidão, pois não havia entre eles um desenvolvimento de produtividade social do trabalho que a justificasse. Os tupinambás, por exemplo, capturavam alguns poucos inimigos para sacrificá-los em suas cerimônias rituais. Esses prisioneiros portavam um colar de contas, que retiradas uma a uma, marcavam o número de luas que o prisioneiro viveria antes do sacrifício.

Conforme aumentou a necessidade de braços a legislação permitiu que os capturassem nas “guerras justas”, contra tribos antropófagas ou que resistiam à catequização. Em 1536, o Papa Paulo III determinou que reconhecessem os nativos como pessoas, pondo momentaneamente limites à escravidão ilimitada. Por volta de 1550 começaram a chegar os primeiros escravos vindos da África, prática oficializada em 1559. Calcula-se que até 1888 cerca de 3 milhões de escravos foram absorvidos pelo cultivo da cana de açúcar, do fumo, do algodão, pela mineração e serviços domésticos. A escravidão indígena durou até 1755. Foi proibida pelo Marquês de Pombal. As expedições oficiais patrocinadas pelo governo eram chamadas de Entradas, enquanto as Bandeiras eram por particulares. Na realidade a palavra Bandeira apenas apareceu em documentos do século 18 e usada pelos paulistas. Antes se dizia entrada, jornada, viagem, companhia, descobrimento e até frota. As Bandeiras tiveram três ciclos: o da caça ao índio, do sertanismo, de contrato e o da mineração. Houve também expedições em busca do ouro de lavagem procurado nas margens dos rios e nos leitos não profundos. De 1630 a 1654 como os holandeses se apossaram do nordeste brasileiro e das regiões africanas fornecedoras de escravos, houve grande carência dessa mão de obra. Esse fato provocou o ciclo da caça ao índio pelos paulistas que iam vendê-los onde havia falta deles como no Maranhão, sul da Bahia e Rio de Janeiro. Destacaram-se nesse período Manuel Preto, Antonio Raposo Tavares que atacaram as missões jesuíticas de Guairá, destruindo os aldeamentos e aprisionando milhares de indígenas. Outros apressadores foram Amador Bueno, Bartolomeu Bueno da Silva (Anhanguera) e Domingos Jorge Velho, este contratado depois para destruir o Quilombo de Palmares. As Bandeiras costumam angustiar os que as estudam pelo paradoxo nela contido. Seus autores desbravaram o Brasil e triplicaram seu território, vencendo inauditas dificuldades em façanhas heróicas. Ao mesmo tempo foram hediondos facínoras pelas matanças, destruições e os milhares de escravos que fizeram. Segundo Alfredo Ellis Junior foi um fenômeno sem ideologia. Na realidade a ideologia era a que ainda hoje vigora para muitos – para enriquecer vale tudo.

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