“Basta”, “Fora”

Close up portrait of a serious young asian woman showing stop gesture with hand isolated over white background Fundo foto criado por drobotdean - br.freepik.com

A maldição caiu sobre este país quando da renúncia do alucinado Jânio Quadros à presidência da República, em 1961, 25 de agosto. Foram apenas sete meses de governo e o povo o elegera de maneira avassaladora. Jânio foi a esperança de muitos e, de minha parte, posso, orgulhosamente, dizer que ele nunca me enganou, apesar de meus quase juvenis 21 anos. Era, então, o Brasil, altamente politizado. E a discussão e a informação políticas faziam parte de nosso cotidiano.

Discutia-se em quem e por que votar. E os candidatos – até mesmo os menos viáveis – tinham suas biografias escancaradas à população. Foi quase impossível votar em alguém sem saber quem ele era. Portanto, tão ao contrário de agora.

Maquiavélico e mórbido, Jânio sabia que as Forças Armadas não aceitariam – um histórico vicio de mandonismo – que o vice-presidente, João Goulart, assumisse. E o Brasil simplesmente se transformou num imenso barril de pólvora. A história já foi contada. Limito-me, apenas, a recordar, pois a gravidade de nossa situação assemelha-se, em muito, àquela, ainda que com homens menores. Vivo a angústia e a tentação de admitir o regime democrático não seja a vocação brasileira. Ou de grande parte de nosso povo. É como se o espírito monárquico não nos abandonasse, “Aqui, d´el Rey”.

O fato é que João Goulart não conseguiu governar. Foi preciso criar-se o Parlamentarismo para ele assumir. E, algum tempo depois, um plebiscito para retornar ao Presidencialismo. As Forças Armadas nunca aceitaram aquela saída democrática e emergencial proposta e efetivada por Tancredo Neves. Aliás, o ex-general Augusto Heleno – tão próximo do ex-capitão que está na presidência – sabe muito bem disso. E parece saudoso do que houve.

Após a má fé daquela renúncia, o Brasil entrou em crise tal que se mostrou mais perigosa do que a causada pelo suicídio de Getúlio Vargas em 1954. O país fora engolido pelo caos, como já se prenuncia também agora. Foi quando o “Correio da Manhã”, do Rio de Janeiro – um dos mais importantes dos diversos importantes jornais do Brasil – deu o grito da alma coletiva: “Fora!”, no dia 31 de março de 1964. E, no dia 1ª. de abril: “Chega!” O Exército já se mobilizava em Minas Gerais e o golpe civil-militar aconteceu. O gênio político de Tancredo Neves não fora capaz de salvar a democracia brasileira. O resto é história, uma triste história.

Nestes meus últimos tempos, o medo, quase pavor, é o de tudo se repetir. No ar – como já o dissera o “Barão de Itararé”, Aparício Aporelli – “há mais do que simples aviões de carreira.” Já começaram os panelaços. O “Fora”, o “Basta” já estão na garganta de um povo à beira da rebelião. E o samba da Gaviões da Fiel – para o Carnaval que não haverá – surge como um hino da indignação e da vergonha que pareciam adormecidas. Adormeceram, sim, entre poderosos insensíveis, em pequenas elites acomodadas. Mas, como vulcão represado, está em ebulição. A irresponsabilidade tem preço. E é alto.

Por mais me esforce eu, por mais queira distanciar-me, minh´alma e corpo – como um estômago intoxicado – exigem lançar fora todo o veneno. O hino da Gaviões da Fiel é o vômito de um povo obrigado, até aqui, a engolir mentiras, farsas e crimes. Mesmo sem um Tancredo Neves ou um Ulisses Guimarães, o Congresso Nacional está obrigado a agir. Se não o fizer, a explosão será fatal.
Democracia não é luxo que se usa em data especial. Democracia é vigilância, indignação cotidiana, dignidade coletiva para evitar que, na história, “a farsa não se transforme em tragédia”.

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