Beatles em ritmo de forró

Foto: Divulgação

Basta uma visita ao Nordeste brasileiro, seja em grandes capitais ou cidadezinhas do interior, principalmente nos estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Pará, Rio Grande do Norte e Ceará, para se deparar com banquinhas vendendo as mais famosas histórias do Brasil e do mundo contadas no formato Literatura de Cordel.

Aquele livreto em preto e branco que cabe no bolso, com ilustrações simples, geralmente feitas em xilogravura, não impõe limites para narrar histórias rimadas e ritmadas. Aventuras de Lampião e Zumbi dos Palmares, revendo clássicos literários brasileiros, passando por biografias de Luiz Gonzaga ou do ex-presidente americano Barack Obama, por exemplo. Tudo pode virar cordel!

Desde os anos 1930, a Literatura de Cordel vem influenciando grandes escritores no Brasil. Mas ela é mais antiga do que isso. Desde o século 18 já existiam registros de cordéis em terras nordestinas.
Mas se puxar a cordinha da história, descobre-se que o Cordel é uma herança dos portugueses e podia ser encontrado na Europa lá por meados do século 12 em países como França, Espanha e Itália.

Sendo assim, faz o maior sentido que, de repente, o Cordel seja o fio condutor de uma história (ou seria um “sonho meio doido que passou a existir”?) que brinca sobre a improvável relação entre um sujeito simples do Nordeste brasileiro e quatro músicos que falam “uma língua esquisita” lá do outro lado do oceano, no Velho Continente. Tudo isso no balanço ritmado da sanfona e da zabumba.

Isso é Beatles Cordel, um projeto piracicabano que transformou o cancioneiro do Quarteto de Liverpool em forró, numa deliciosa e divertida opereta musical. O álbum, lançado em 14 de maio, apresenta versões para Help, Love me Do e outras faixas, costuradas pela narração da história de Seu Quité, um nordestino que não descola do seu radinho de pilha e descobre uma estação onde só toca Beatles, em pleno sertão nordestino.

O “cabra” fica fissurado por aquele novo “conjunto de forró importado”, o qual ele carinhosamente chama de “Os Brito”, formado por “João Eleno da Zabumba”, “Paulo Macarte”, “Jorge Rérrisso” e Ringo, “o ritmista”.
A narração principal da história é feita pelo músico piracicabano Rafael Beibe, o tal do “João Eleno” e também idealizador do projeto. O ator Giovani Bruno interpreta Seu Quité, levando um ar bastante teatral à narração. Há ainda participações de Zé Pitoco, Sapopemba e Lucy Alves.

Lucy narra um trecho lindíssimo e delicado da história, antecedendo com perfeição a execução de All You Need is Love. “Aprendi a palavra ‘love’ e entendi porque ela é tão usada. É porque ‘love’ não tem mais ou menos. ‘Love’ é feito enxurrada, quando chega tem que enfrentar. ‘Love’ é tudo ou ‘love’ é nada.”
E o álbum todo tem essa pegada, como quando Seu Quité narra a lenda de que Paul McCartney teria ouvido o baião Assum Preto, de Luiz Gonzaga, que o inspirou a compor o clássico Blackbird, tocado na sequência.

É impossível não se encantar por todo o conceito do álbum. Minha experiência em escutá-lo me levou para tão longe que eu me perdi em risos e lágrimas em viagens alucinadas entre o sertão do Brasil e Liverpool. Leve, Beatles Cordel consegue passar ternura, afeto, delicadeza e um conforto escapista no meio de tanta coisa horrível e absurda que estamos vivendo.

Fazia muito tempo que um álbum não me deixava tão feliz… feliz em ser brasileiro, em amar Beatles, em ser de Piracicaba, terra-mãe de artistas incríveis como os que participam do disco.
Esse rapazinho que vos escreve ficou sem chão com um trabalho tão cheio de amor. Afinal, amor é o que nós mais precisamos!

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