Beatriz Turetta: Desenvolvimento e transformação

A menina do Algodoal na cidade grande. Era assim que Beatriz Aparecida dos Reis Turetta se sentia ao cursar o pós-doutorado em Educação Especial na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), entre 2013 e 2017. Atualmente uma das administradoras do grupo Libras Piracicaba e Região, que reúne cerca de 300 pessoas de 23 cidades, com sua voz calma e atenciosa, Beatriz, ou Bia para os amigos, sempre sonhou em ser professora. Só não imaginava que chegaria onde chegou.

Vinda de uma família humilde, Beatriz aprendeu valores com os pais Gentil José dos Reis Filho e Elisa Maria Ferrari dos Reis que leva incansavelmente para sua vida profissional e familiar com os três filhos e o marido. Para ela, todas as pessoas são capazes de se desenvolver e, para isso, precisam apenas das oportunidades necessárias.

Focada nos projetos no âmbito social, Beatriz não vê a hora de voltar para a sala de aula e, ao exercer sua paixão, habilitar outros profissionais como sementes para transformar a sociedade e diminuir as desigualdades sociais.

Beatriz é graduada em pedagogia pela Unisal, tem especialização em atendimento às necessidades educacionais especiais pela Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), é mestre e doutora em Educação pela mesma universidade e pós-doutora em Educação Especial, sob a orientação da Prof. Dra. Cristina Broglia Feitosa de Lacerda.

Pode nos contar um pouco da sua infância?
Meus pais [senhor Gentil e senhora Elisa] são de uma família muito simples. Me lembro que quando era criança eles sempre me diziam que eu precisava estudar para não ser como eles. Mal sabiam que ser como eles era meu maior sonho. São pessoas de corações enormes. Nunca vi meus pais negarem comida ou um bom papo para ninguém, por mais difícil que fosse o período em que estivessem vivendo. Eles nos ensinaram valores que levaremos para toda a vida e que eu espero poder deixar para meus filhos. Minha mãe sempre nos incentivou a estudar. Seu maior sonho era ver seus filhos formados. Tenho dois irmãos mais velhos. Nós três tivemos as oportunidades necessárias para concluir o Ensino Superior. Nem todos os meus amigos tiveram a mesma sorte. Cresci no bairro Algodoal, tive uma infância muito pobre, mas também muito feliz, cercada de amigos e de muita vigilância. Meus pais tinham muito medo que eu usasse drogas ou que engravidasse muito jovem. Na juventude tudo parecia muito rígido demais, mas hoje, tendo perdido muitos amigos para as drogas, tendo visto muitos sonhos devastados por doenças ou por morte, sou grata a meus pais e meus irmãos mais velhos pelo modo com que me criaram. Meu pai trabalhava numa metalúrgica, dobrava turnos para que pudéssemos ter um pouquinho mais de conforto. […] Tenho muito orgulho de tudo que meus pais fizeram por nós. Enquanto meu pai trabalhava, minha mãe ficava em casa cuidando de nós, dos idosos da família e dos filhos dos vizinhos. Uma casa cheia de gente que sempre tinha lugar para mais um, ainda tem. Atualmente meu pai é aposentado. Meus pais fazem salgados, bolos e doces para complementar a renda familiar. Acredito que além de ajudar nas despesas da família, esse trabalho ajuda a mantê-los vivos, ocupados e felizes.

Como se tornou professora?
Nunca pensei em ter outra profissão. Desde pequenina sempre quis ser professora. Assumi minha primeira sala de aula com 15 anos, no tempo em que se podia trabalhar na Educação Infantil cursando o Magistério. […] Quando terminei o magistério, meu sonho era fazer pedagogia, mas minha família não tinha condições de arcar com os custos, então decidi aceitar um trabalho como recepcionista de uma escola para conseguir pagar a faculdade. Nessa escola trabalhei na recepção, na faxina, na biblioteca, na secretaria, e por fim, assumi a tão desejada sala de aula.

Quando terminei a pedagogia, achava que estava pronta para atender a todas as crianças, afinal eu já tinha “faculdade”. Nesse período, as escolas estavam começando a aceitar matrículas de crianças com deficiência e eu fiquei sabendo que provavelmente seria professora de uma criança com Síndrome de Down. A ideia era apavorante, eu não sabia nada a respeito e precisava de formação. No mesmo período, surgiu um curso de especialização na Unimep e eu decidi que o faria para poder atender essa criança e outras que pudessem vir a ser minhas alunas. […] Depois disso tive o prazer de lecionar para o Gabriel, um garotinho de 5 anos com Síndrome de Down que agora já é um moço lindo. Com ele, eu aprendi tudo aquilo que não me ensinaram no curso. Gabriel mudou minha vida para sempre. […]

Durante a especialização, me interessei pela área da surdez por causa de uma prima surda. […] Fiz o mestrado em Educação com temática na área da surdez e o doutorado em Educação com temática na área da Educação Especial de modo geral. […]

Durante o período de outubro de 2013 a outubro de 2017, vivenciei uma das experiências de formação mais incríveis da minha vida. Fiz estágio pós-doutoral no Programa de Pós-Graduação em Educação Especial da UFsCar. Durante esse curto período minha vida foi totalmente transformada. Eu nunca tive a pretensão de sonhar com algo assim, as coisas foram acontecendo e eu sempre muito grata a todas as oportunidades que a vida me ofereceu. Digo que minha vida foi transformada porque nesse período me sentia a menina do Algodoal na cidade grande.

Fiz estágio pós-doutoral numa Universidade reconhecida mundialmente e as amizades que construí nesse período vou levar comigo para a vida toda. […] Quando terminei o pós-doutorado, sabia que nunca mais seria a mesma pessoa, a mesma mulher, a mesma esposa, a mesma mãe e muito menos a mesma profissional.

Pode nos contar um pouco sobre sua família?
Sou casada com Pedro Rogério Turetta. Temos três filhos: Matheus de 11 anos, Gabriel e Gustavo com 5 anos. Rogério foi meu primeiro namorado. Estamos juntos há 24 anos. Em julho desse ano completamos 18 anos de casados. Construídos uma família linda. […] Matheus foi a realização de um sonho, um sonho lindo que inundou nossas vidas de alegria. Quando decidimos que queríamos mais um filho, a surpresa veio de outro modo […] desta vez estava gestando dois bebês.

Quando recebemos a notícia, Matheus pulava de alegria enquanto nós tentávamos absorver a ideia que de uma família de três, nossa família passaria a ter cinco pessoas. […] Não existe coisa melhor no mundo do que ver as artes que três meninos são capazes de aprontar.

Como é a Bia mãe?
Quem me conhece sabe que eu sou uma mãe como todas as outras. Já fui muito mais exigente comigo mesma, hoje lido melhor com minhas imperfeições. Erro e acerto todos os dias. Brinco e brigo. Sorrio e choro. Mas tenho a certeza que sou a melhor mãe que posso ser. Não a melhor de todas, a melhor de mim mesma, dia após dia, tentando aprender com meus erros e acertos. Ser mãe de três meninos tão diferentes não é nada fácil. Assegurar que cada um seja respeitado em sua individualidade é um desafio que enfrentamos diariamente.

Minha família é tudo para mim. E quando digo minha família, não resumo aos meus filhos e meu esposo. Tenho uma família linda e grande. Nesses tempos de pandemia o que mais me dói é não poder ver a casa cheia de gente.

Quais valores você leva na vida atuando com educação especial?
Meus estudos no âmbito da Educação Especial me fazem acreditar que todas as pessoas são capazes de se desenvolver e que só precisam das oportunidades necessárias para que isso aconteça. Cabe à sociedade oferecer as condições necessárias para o desenvolvimento de todas as pessoas, independente de suas características orgânicas e/ou psíquicas. Cabe a nós lutar para que a sociedade seja mais acessível.

Por que é importante para você trabalhar com inclusão?
Eu trabalhei muito tempo no âmbito acadêmico. Estava focada em contribuir com a educação das pessoas com deficiência estudando e produzindo materiais para que as outras pessoas tivessem a formação adequada para atuar na área da Educação Especial. O contato com os alunos surdos no CEEJA (Centro Estadual de Educação para Jovens e Adultos) e no atendimento particular me fez sair desse lugar. Atualmente tenho atuado mais no âmbito social, tenho tentado utilizar tudo que aprendi, inclusive com verbas públicas, para contribuir com a diminuição das desigualdades sociais.

Não diria que trabalho com inclusão, afinal, o conceito de inclusão é contraditório e dialético. Como dizia Sawaia, a sociedade exclui para depois incluir, mesmo os excluídos de alguns âmbitos, estão inseridos na sociedade, apesar da relação de subalternidade. Então eu diria que trabalho para que todas as pessoas tenham direito a uma condição digna e decente de vida. Como professora, apenas tento trabalhar para que todas as pessoas tenham acesso ao conhecimento e possam desenvolver-se da melhor maneira possível.

Como surgiu o Grupo Libras Piracicaba e Região e como avalia o desenvolvimento dele?
Em março de 2019 aconteceu em Piracicaba o I Encontro de Surdos de Piracicaba. Esse encontro teve como objetivo proporcionar aos surdos um espaço de convivência em Libras. Aberto a todos os interessados em Libras, o Encontro contou com a presença de aproximadamente cem pessoas.

Com o intuito que as pessoas pudessem manter contato, nesse mesmo mês foi criado um grupo de whatsapp para que todos os encontros e eventos em Libras da cidade pudessem ser compartilhados entre os participantes. A ideia era que o grupo continuasse se encontrando para momentos de vivência em Libras.

Os encontros promovidos pelo grupo proporcionaram o fortalecimento da comunidade surda piracicabana, que, ao mesmo tempo em que se divertiam nos passeios e nas festas, intensificavam sua vontade de lutar por mais visibilidade da Libras e mais acessibilidade na cidade.

O grupo se fortaleceu muito rápido. Com pouco mais de um ano de existência, temos o orgulho de dizer que somos um grupo com mais de 300 pessoas de 23 cidades da região que trocam dicas e informações pelo whats, se encontram, participam de atividades educativas e culturais e de campanhas em prol da acessibilidade.

Temos uma média de 250 pessoas no grupo de Whatsapp e mais de 50 pessoas surdas com as quais mantemos contato por meio de uma linha de transmissão.

Certamente Thiago Pereira da Silva, Alexandre Ribeiro, Leonardo Luís Vitti, Gustavo Coelho Mamede, Pedro Domingos Grella e Davi Rodrigues Marques merecem destaque pelo trabalho que estão realizando no grupo. […] Alguns deles inclusive fazem o trabalho de tradução de informações lidas em português para a Libras com o intuito de explicar aos surdos que não têm fluência em Língua Portuguesa os assuntos do cotidiano. É lindo ver como se ajudam!

Mas um grupo não é feito apenas por administradores e líderes, é feito de gente, de pessoas que se relacionam de maneira prazerosa e que desejam estar juntas. Nosso grupo é assim, como uma grande família, cada um ajudando do jeitinho que pode. Nosso lema é: juntos somos mais fortes.

Quais são as reivindicações da comunidade que o grupo representa?
Nosso grupo luta por acessibilidade em Libras na cidade, mas nosso trabalho não se resume a isso. Estamos trabalhando para que essa comunidade seja atendida com qualidade nos diversos âmbitos da vida social: educação, saúde, trabalho, cultura e lazer. Lutamos por uma sociedade mais justa para as pessoas surdas, mas não exitaremos em fazer parcerias com outras instituições que precisem de nossa ajuda para lutar por uma sociedade mais justa e inclusiva para todas as pessoas.

Com a pandemia da covid-19, pode me contar um pouco dos desafios que você tem observado da comunidade surda de Piracicaba?
A pandemia apenas deixou mais evidente a falta de acesso às informações que essa comunidade sempre vivenciou. Essa comunidade sempre precisou de amigos e intérpretes voluntários para traduzir e interpretar as informações que circulam na sociedade para eles. A questão é que, agora, é uma questão de vida ou morte.

A comunidade surda usuária de Libras tem ficado sem informações mínimas a respeito da situação atual da doença seja no âmbito municipal, nacional ou internacional. É urgente que a mídia e o poder público se responsabilizem por oferecer as informações acessíveis a essa parcela da população que não ouve e não domina com fluência a Língua Portuguesa.

Essas pessoas também precisam se cuidar, cuidar de seus familiares, compreender como o vírus se comporta, entender as formas de contágio, ter acesso às informações que narram a situação atual do local onde vive.

Se as informações não chegarem o mais rápido possível, essas pessoas estarão correndo risco de vida e colocando a vida de outras pessoas em risco também.

Nesse sentido é urgente que os órgãos públicos e a mídia se responsabilizem pela garantia do acesso às informações em Libras a essas pessoas, principalmente nesse período de pandemia, mas não deveria se restringir a este.

Recentemente vocês participaram da campanha #LibrasnaTV. Como foi a repercussão da campanha em Piracicaba?
Quando o Grupo Libras Piracicaba e Região ficou sabendo da campanha #LibrasNaTv não hesitou em participar. [Ela] veio de encontro ao que estávamos vivenciando em Piracicaba. Em pouco mais de três dias conseguimos reunir mais de 460 fotos de apoio à campanha. Uma emoção sem fim! A partir dessa campanha conseguimos a visibilidade necessária para a problemática na cidade e conseguimos algumas conquistas importantes.

Por intermédio do presidente da Câmara de Vereadores de Piracicaba Gilmar Rotta, conseguimos que o projeto Câmara Inclusiva se estendesse até as redes sociais da Câmara. Inicialmente estão sendo produzidos materiais com a temática da pandemia, esperamos que futuramente as demais matérias também possam estar acessíveis em Libras.

No mesmo período, entramos em contato com diversos jornais da cidade solicitando que as matérias começassem a ser divulgadas em Libras. […] Confesso que embora o Jornal de Piracicaba tenha demonstrado interesse em providenciar algumas mudanças relacionadas a acessibilidade do jornal, eu não tinha muitas esperanças, especialmente quando nos foi perguntando sobre a utilização de programas e avatares para a tradução. Mas as conversas com Alex Rodrigues e Fernanda Moares foram muito produtivas. O Jornal de Piracicaba iniciou o trabalho de acessibilidade da melhor forma possível: contratando profissionais tradutores e intérpretes de Libras/Língua Portuguesa.

Somos muito gratos aos idealizadores e coordenadores dessa campanha (Magno Prates, Mariana Campos e Allinny U. Nogueira) por nos indicarem os caminhos a seguir na busca pela melhoria da acessibilidade em Libras na cidade.

Atualmente, vocês promovem campanha de arrecadação de alimentos e distribuição de máscaras para a comunidade surda. Como perceberam essa necessidade?
Nesse período de pandemia, a luta por acessibilidade precisou se intensificar devido ao perigo que as pessoas surdas estavam correndo por falta de acesso às informações em Libras. A campanha das máscaras surgiu a partir de uma conversa com um senhorzinho surdo que me disse que tinha saído de casa para fazer várias coisas na rua e que não tinha usado máscaras porque não precisava, ele se dizia forte e acreditava que somente os médicos precisavam usar.

No caso desse senhor, não faltava apenas a informação, mas também o acesso a pessoas que estivessem vendendo máscaras. Parece difícil imaginar, mas os surdos que não conseguem escrever em Língua Portuguesa comprariam de que forma pela internet ou pelo Whatsapp sendo que a maioria das costureiras da cidade não conhece Libras.

Depois fiquei sabendo que minha amiga [costureira] tinha doado as máscaras para ele e então surgiu a ideia de tentar ver com as costureiras da cidade a possibilidade de fazerem doações para essa comunidade.

Conseguimos muitas doações, iniciamos entre os mais idosos, passamos pelas famílias mais numerosas e em situações de maior vulnerabilidade e depois conseguimos atender a todos os pedidos que fomos recebendo. Com o tempo fomos percebendo que além de fornecer máscaras para as famílias, o mais importante estava sendo contribuir com a conscientização da importância do uso das máscaras e das melhores formas de utilizá-las. Distribuímos mais de 700 máscaras para cerca de 100 famílias. Somos muito gratos a todas as pessoas que doaram um pouquinho do seu tempo, dos seus recursos e do seu trabalho para essa comunidade.

A doação de máscaras nos colocou em contato mais próximo com a situação das famílias. Pouco a pouco ficamos sabendo que o número de pessoas desempregadas e que se encontravam em situação de vulnerabilidade era muito maior do que imaginávamos. Nos pareceu contraditório continuar lutando apenas por acessibilidade em Libras sabendo que algumas dessas famílias podiam estar passando fome.

Então decidimos que também deveríamos lutar por alimento na mesa e produtos de higiene para que essas famílias tenham a alimentação e a proteção necessária nesses tempos tão complicados e/ou enquanto durar a situação do desemprego.

A campanha das cestas básicas já tem algumas parcerias importantes e certamente conseguirá atender muitas famílias. Assim como a campanha das máscaras, estamos formando uma rede de voluntários para a retirada e entrega das cestas. É muita gente envolvida! Tem muito amor envolvido! E onde existe amor, tem tudo para dar certo!

Imaginando o mundo pós pandemia, qual é sua esperança?
Eu sonho com um mundo em que as pessoas tenham aprendido a ser mais solidárias, que valorizem mais as relações interpessoais, que tenham aprendido que não precisamos de muito para sermos felizes, que sejam menos consumistas e mais humanas. É claro que não tenho a ingenuidade que será exatamente desta forma, enfrentaremos outros tipos de dificuldades. Só tenho a certeza que, no que depender de mim, o grupo Libras Piracicaba e Região vai continuar unido para enfrentar todos os desafios, afinal: Juntos somos mais fortes.

Tenho esperança que um dia possamos viver numa sociedade com menos injustiças e desigualdades sociais. Espero estar contribuindo para deixar um mundo melhor para as futuras gerações. Se cada pessoa fizer o que está ao seu alcance para melhorar a sua realidade local, certamente deixaremos um mundo melhor para nossos filhos.

Andressa Mota

Crédito da foto: Amanda Vieira/JP