‘Bom menino’ que luta por avanços nos serviços de acolhimento

Foto: Claudinho Coradini/JP

Nascido na vizinha Rio Claro, Guilherme Monaco de Mello, 61, se formou em direito na Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba) em 1982. Deixou de lado a vida de empresário e passou a se dedicar exclusivamente à advocacia a partir de 2002 em Piracicaba. Cidadão piracicabano titulado pela Câmara Municipal de Piracicaba em 2014 por iniciativa do então vereador Luis Roberto Lordello Beltrame, hoje se diz feliz por dividir profissão e escritório com seu filho Guilherme Gorga Mello. Envolvido com o trabalho de acolhimento institucional na Casa do Bom Menino desde 2010, Mello fala sobre advocacia e a instituição.

Por que optou pela advocacia como carreira e o que mudou desde a sua escolha até os tempos atuais?
A minha escolha, quando ainda muito jovem, se deu em razão da perspectiva da possibilidade da contribuição social que essa profissão nos proporciona e por saber que o Direito é o meio através do qual os conflitos, seja de que natureza forem, podem ser resolvidos. Admirava a instituição da qual passei a fazer parte, a Ordem dos Advogados do Brasil, pela sua participação histórica nos rumos do nosso país. Desejava fazer parte dela! Sob o aspecto da legislação, as mudanças havidas desde que ingressei na faculdade nos idos de 1979 foram enormes e também importantíssimas, mudanças essas que causaram profundo impacto social a exemplo da nova Constituição Federal promulgada no ano de 1988, a reforma do Código Civil Brasileiro no ano de 2002, a reforma do Código de Processo Civil em 2015, além das inúmeras leis esparsas, como a Lei de Falência no ano de 2005, que agora sofreu nova modificação. Agora sob o aspecto prático, a maior transformação foi quando os processos que passaram a ser eletrônicos. Tivemos que nos adaptar ao processo digital e com as novas ferramentas que possibilitam a nossa atuação, e tais mudanças continuaram a ocorrer de maneira acelerada, a exemplo da realização das audiências, que agora ocorrem de maneira virtual em razão da pandemia. Resta ainda considerar a velocidade das informações e o modo que as buscávamos e o fazemos agora. Era motivo de orgulho a biblioteca do nosso escritório, a qual contava com aproximadamente 2.800 livros físicos, manuseados de maneira constante, inclusive para pesquisas. Hoje, temos uma biblioteca digital de aproximadamente 7.000 livros e a velocidade da busca de informações foi em muito reduzida. A adaptação a tantas mudanças exige ainda, ao menos de minha parte, esforço enorme.

Como aconteceu sua aproximação com a Casa do Bom Menino? Desde quando preside a entidade e até quando pretende prestar seus serviços lá?
Na oportunidade em que se desmembrava uma vara cumulativa que respondia também pelas ações relativas ao tribunal do júri e execuções criminais da nossa comarca de Piracicaba, e a consequente instalação de uma vara especializada para cuidar dos processos da criança e do adolescente, Vara da Infância e Juventude, o Poder Judiciário decidiu pôr fim à intervenção judicial que perdurava por onze anos na Casa do Bom Menino, ou seja, do ano de 1998 até 2009. Nesta oportunidade, no ano de 2009, o promotor de justiça Paulo Kishi passou a se esforçar em busca de pessoas que se dispusessem a compor, de maneira voluntária, uma nova diretoria para a instituição. Me recordo do seu cuidado com relação à escolha, privilegiando o perfil de cada um para que pudessem ocupar uma função correlata à sua formação. É o exemplo da pessoa que assumiu a direção técnica da entidade, Cristina Racca, a qual verdadeiramente revolucionou o atendimento aos acolhidos mediante a imposição de políticas humanizadas, atendimentos individualizados, políticas essas calcadas no respeito e não agressão física entre os próprios acolhidos. O serviço foi profissionalizado! Assumi o encargo de figurar como presidente nessa nova fase da instituição e confesso que o fiz com insegurança, pois, além de não conhecer sobre o acolhimento institucional, estaria presidindo uma diretoria composta por pessoas de elevado nível moral, intelectual e com reconhecido sucesso profissional. Certamente, não era eu a melhor opção dentre eles, mas, mesmo assim, aceitei assumir o encargo por contar com a efetiva participação de todos. Presidi a instituição nos biênios de 2010 e 2012, tendo sido reeleito para o próximo biênio 2013 e 2014. No ano de 2014, Alexandre David, que até então ocupava a função de tesoureiro na instituição, assumiu a presidência para o biênio 2014 e 2015, no qual figurei como vice-presidente. Em 14 de abril de 2016 tomou posse como presidente o Marco Guidotti que também foi reeleito e dirigiu a entidade até abril de 2020. Nesse período, também figurei como vice-presidente. Em abril de 2020, fui reconduzido novamente ao cargo de presidente, Marco Guidotti aceitou participar da diretoria como vice. Quanto à pretensão de continuar prestando serviços à instituição, o farei, primeiramente, enquanto meus pares de diretoria assim permitirem e desejarem e, consequentemente, pelo tempo em que conseguirei ser útil à Casa do Bom Menino. Tenho ainda, caso possa, o desejo de realizar alguns projetos. A exemplo do que ocorre no Japão, Itália e Canadá, intenciono estar presente na criação de um abrigo que acolha crianças e idosos num mesmo espaço físico. Simpatizaram-se com esse projeto os meus amigos Palmiro Romani e Juliano Dorizotto, o qual está se empenhando em trazer informações do Piacenza, que é um centro intergeracional que reúne 40 crianças e 80 idosos localizado na Itália. Conforme matéria que trata desse assunto: “estudos realizados já mostraram que idosos se tornam muito mais ativos quando seguem esse padrão de acolhimento, se compararmos com os moldes tradicionais de lares para a terceira idade. Já as crianças desenvolvem mais alguns sentidos, como a paciência e a relação mais afetuosa com outras gerações”. Por enquanto, trata-se de um sonho!

No transcorrer do tempo à frente da entidade, o que estruturalmente mudou no atendimento social prestado?
As mudanças estruturais foram muito significativas. Inicialmente, acolhíamos crianças e adolescentes em três unidades distintas, mas que se localizavam numa mesma área, ou seja, onde se localiza nossa sede, no bairro Nova América. Lá tínhamos o Centro Educacional Infantil, ainda em atividade, no qual acolhemos 20 crianças desde o seu nascimento e até que completem 12 anos de idade, de ambos os sexos; a Casa do Bom Menino em cujo prédio acolhíamos meninos de idade compreendida entre 12 a 18 anos; e a Casa Raquel, na qual acolhíamos meninas de 12 a 18 anos de idade. Em cada uma dessas casas, o número máximo era de 20 pessoas, conforme determinações do Conanda (Conselho Nacional da Criança e Adolescente). Tínhamos então, sob os nossos cuidados, 60 crianças e adolescentes. No ano de 2013, assumimos o abrigo que era gerido pela prefeitura e que em duas casas, Núcleo I e Núcleo II, eram acolhidos 40 crianças e adolescentes, além da Casa de Passagem, que se destina ao acolhimento emergencial com seis vagas. Pois bem, essa modalidade de acolhimento, já ultrapassada, é uma das modalidades previstas no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). No ano de 2015, passamos a gerir uma nova modalidade de acolhimento, também com previsão no ECA, e que se denomina Casa Lar, cujo serviço é realizado em unidades residenciais em imóveis localizados em bairros próximos ao Centro de Piracicaba. O acolhimento nessas Casas Lares representou enorme avanço no serviço de acolhimento, uma vez que residem somente dez pessoas em cada casa, além do que, as residências não guardam nenhuma relação com os prédios dos abrigos institucionais convencionais. Hoje gerimos oito Casas Lares, mais Centro Educacional infantil e a Casa de Passagem. Temos sob os nossos cuidados 106 crianças e adolescentes. Para esse trabalho, contamos com um quadro de 120 funcionários diretos.

Quem é atendido pela Casa do Bom Menino e como a sociedade pode ajudar?
Acolhemos crianças e adolescentes de idades que variam entre zero (nascimento) a dezoito anos de idade e que se encontram em situação de vulnerabilidade social, ou seja, em situação de abandono, exploração, violência física e psicológica, dentre outros motivos. Todo acolhimento se dá por determinação do Poder Judiciário. Desenvolvemos um trabalho no sentido de tentar conscientizar a sociedade que a Casa do Bom Menino não é um local que se destina à internação de menores infratores. Quem tem essa missão é a Fundação Casa. Há ainda quem confunda esses trabalhos. Há inúmeras maneiras da sociedade contribuir com a nossa instituição, quer seja através de doações pecuniárias, gêneros alimentícios, fraldas, dentre outros. Importante também é a adesão aos nossos projetos que poderão ser conhecidos no nosso sítio eletrônico (www.cdbm.or.br).

Cristiane Bonin
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