Brasileiro retrata quarentena em que vive na Itália

Para sair de casa, Gaiotto precisa de autorização especial. (Arquivo Pessoal)

O brasileiro Adriano Gaioto, tradutor, que mora na Itália, saiu de casa pela primeira vez ontem após a decisão do governo do país colocar toda a população em quarentena na semana passada até, pelo menos 3 de abril, pela pandemia do novo coronavírus.


Até ontem, segundo o Repositório Oficial do Departamento de Proteção Civil Italiano, desde 24 de fevereiro foram confirmados 27.980 casos de Covid-19 e 2.158 mortes pelo vírus no país. O sentimento é de medo. “O medo está maior do que até o contágio”, reflete Gaioto.


A primeira saída de casa de Gaioto foi para ir ao supermercado. Assim como todos que estão no país, precisou de uma autodeclaração de que não está em quarentena por motivo de saúde e explicando a razão da saída. Ao chegar no estabelecimento, esperou por meia hora na fila – pois existe um número máximo de pessoas que podem ficar dentro de cada supermercado, desinfetou as mãos com álcool em gel na hora de entrar, colocou luvas, usou máscara e óculos escuros. Por regra, também ficou a pelo menos um metro de distância de outras pessoas, inclusive do funcionário do caixa. Os mercados da cidade estão abastecidos. “Saí de casa aterrorizado […] você não sabe onde está o vírus”, conta.


Gaioto mora na cidade de Áquila, na região de Abruzos, no centro da Itália – distante 640Km da Lombardia, região mais atingida. Conta que na região em que mora tem cerca de 200 casos de pessoas com Covid-19 confirmados, enquanto que na região de Milão, milhares.

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Ele está na Itália há pouco mais de um ano. Na nova realidade em que vive, toda vez que sair de casa Gaioto precisará apresentar sua autodeclaração caso a polícia o pare. Pessoas que saírem de casa sem “um motivo justo dentre o roll que o ministério pede” e, assim, descumprirem a lei de quarentena podem “ser multados e podem inclusive ser presos [o preço da multa é] 250 euros”, conta.


A primeira mudança que a quarentena deu à sua rotina foi o trabalho 100% dentro de casa. Antes, passava a maior parte do tempo na rua, em órgãos públicos. “Hoje eu não posso ir a um tribunal, a um juiz de paz, eu não posso ir numa prefeitura, […] está tudo fechado, o atendimento ao público está fechado”. Ele conta ainda que apenas serviços de emergência, como certidão de nascimento, de óbito ou o RG, são presenciais. Os demais são on-line.


A noção de tempo também mudou. “Estou super perdido. Pra mim, sábado, domingo, segunda, terça [é] tudo a mesma coisa”. As correspondências também não estão chegando e como precaução Gaioto comprou um termômetro para medir a temperatura.


Já o impacto da quarentena na vida de um amigo seu foi mudar de casa. O amigo pediu para morar no apartamento de Gaioto, pois trabalha em um centro de refugiados, os pais são idosos e o pai tratando um tumor no cérebro.


A região onde mora é turística, com neve no topo das montanhas, mas a cidade está vazia. “Virou uma cidade-fantasma, um país fantasma”. As pessoas saem apenas para ir ao supermercado e farmácia. A recomendação é não ir ao hospital e, se precisar, deve ligar antes. Os médicos chegaram ao ponto de precisar escolher entre os pacientes quem terá acesso a recursos como respirador, a chamada ‘escolha de Sofia’.


Além da saúde, a preocupação também é com a escassez de trabalhos e renda em um futuro próximo. Para Gaioto, as decisões do Brasil com antecedência foram certeiras.

Andressa Mota

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