Brisa Verde, Verdejar

Outono. Parece? Não. Estamos em meio ao outono embora não pareça. Para quem já viveu a mesma estação em outro hemisfério, estar entre buganvílias floridas, encantando muros, portões, gradis, jardins, sugerindo vida, parece inacreditável saber que primavera e verão já terminaram. Nenhuma folhagem ressequida indica outono, a estação. Tudo viceja. As noites, somente as noites, trazem de longe o frescor do tempo provando movimento na terra capaz de provar que a estação é outra.

Por que digo isto? Para explicar-me ao longo da conversa de que não é bem da estação que desejo escrever, mas da vida em tempo de pandemia. A danada da Covid19 ceifa mais que o vento da estação, quando há, em árvore já velha. Com vantagem: elas renascem, cobrem-se de folhas novas sobre o velho tronco e, ao renascer, surgem como se tudo fosse novo outra vez.

Os amanheceres, nestes dias anteriores, iluminados, sugerem os cânticos de David nos salmos, ensinando a louvar e cantar ao Senhor, a amar. Ao primeiro raio deixar que o Espírito de Deus se mova para, evocando David, restaurar o mundo do que o assaca. Se o vírus é mal, muitos dos homens se assemelham a ele, mesmo que rodopiem em altares fingindo mover-se sob o Espírito de Deus. Isaías profetizara a todos e a cada um de que seria assim, ao afirmar: “Ele, só Ele, o primeiro e o último. Não há outro fora Dele. Só Ele pode cingir, porque é Justo e Salvador”. No Apocalipse, Ele mesmo certifica a profecia: “Sou o primeiro e o último, o que vive. Estive morto, mas Sou o que estarei vivo por toda a eternidade!”

Tantos se perguntam se, passada a pandemia, o mundo será outro. Difícil crer. Estes amanheceres de maio são luz para revelar a razão do mal sobre o homem. Hannah Arendt ensina que Santo Agostinho considera o amor lei existencial. Sentimento real, zelar pelo ser amado. Dedicar-se a quem se ama.

Todo homem sabe e entende isso. Muitos não cumprem. Ao enviar o Filho e tecer manhãs iluminando o mundo, esperançou Deus que o homem entendesse, a partir dele, o novo conceito de Amar, diferente do concebido por pensadores gregos. O ser humano pode ter entendido, mas não soube entregar-se como gostaria. Santo Agostinho, o mesmo citado por Arendt à beleza tão antiga e tão nova, confessa “que tarde vos amei!” Não só ele. A diferença é que soube reconhecer a demora por manifestar-lhe amor. “Estáveis comigo”, diz o Santo. “Eu não estava convosco!” E nós, os demais? E quem diz segui-lo, vocifera, ignora mortos pelo vírus mortal, gesticula e grita, ignora o que a ciência determina.

Deus, só na expectativa. Fácil encontra-lo. Olhar o campo florido em pleno outono, os rios, os lados, o sol, as estrelas. Senti-lo. Voltar-se para dentro de si mesmo e alumbrar-se ao sentir o seu pulsar.

Em tempos como este que nos aflige e amedronta, ver no outro, em especial, naquele que se angustia diante do inimigo invisível, e entregar-se para ajuda-lo a superar a dor ou repousar no Espírito, amenizando o sofrimento, como tem feito a grande maioria dos profissionais da saúde para que sintam a brisa que sopra de coração para coração.

Estes senhores e seus auxiliares são os que espantam para longe o desejo, a raiva, a vaguidão implacável do coração selvagem. São brisa, brisa verde, esparramando esperança. Verdejam. Sopram, ao coração do outro, sem deixar-se notar e sem esmorecer, amor.

Amar sempre, sem cessar, na ação e no gesto, estes profissionais, em especial enfermeiros, médicos, todos os que, sendo imprescindíveis se revelam essenciais. Abrir, então, os olhos, mostrar o riso. Calar-se e parar de chorar. Entreouvir o canto dos pássaros, perceber, respirar, sentir o frescor das avencas, o colorido do céu, ao entardecer em cada dia de maio, o brilho da primeira estrela e Deus fulgurando em tudo o que é possível ver, tocar, sentir.

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