Carlos Joussef: Ganhei minha vida novamente ao lado da minha filha, este é o maior presente

Aos 62 anos, o médico ginecologista Carlos Joussef adquiriu, recentemente, mais experiência e conhecimento. Não se trata de um curso nas áreas de medicina ou de administração, funções que ele desempenha à frente da Unimed Piracicaba.

Durante 67 dias, ele deixou a posição de responsável pela saúde e vida de um paciente e ocupou o lugar de quem luta pela vida e deposita suas expectativas, esperanças e medos, nas mãos de um profissional. Joussef, precisou deixar de lado o conhecimento adquirido nos cursos de medicina e ser paciente, ter calma e fé no tratamento e enfrentamento da covid-19, doença que até a última sexta-feira havia matado 222 pessoas e infectado outras 8.836 em Piracicaba.

Neste Persona do Dia dos Pais, ele fala dos sintomas da doença, medo da morte e da possibilidade de deixar de ser pai de Maria Luísa, sua única filha, e por quem ele pediu mais uma chance.

O senhor se recorda da cronologia desde o diagnóstico da covid-19, internação e início de tratamento?

No dia 4 de maio (segunda-feira) eu comecei com uma tosse leve, eu achei que fosse a máscara. Na quarta-feira, no final da tarde eu tive febre e na quinta-feira fiz o exame, que deu positivo.

A partir daí como foi a reação do senhor ao diagnóstico?

Eu estava trabalhando normalmente, com máscara, e achei que a tosse fosse por causa da máscara, aí eu parei. Este foi o último dia que eu trabalhei, tinha três partos marcados para a sexta-feira, que era o dia 8. Eu pedi para outros médicos fazerem os partos e daí me afastei e fiquei em casa. Desde o início dos sintomas até o nono dia eu estava bem em casa. A Adriana (esposa) tem os pais e por isso e eu não podia ficar com ela, por isso, e eu fiquei sozinho em casa. Eu não quis que a minha filha ficasse porque ela tem namorado. Diante do meu quadro decidi me internar. Apos três dias eu piorei muito, fui para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva),fiz tomografia, pois piorou muito. Após o diagnóstico eu fiz outra tomografia no domingo e não tinha nada, estava normal. Mas eu afundei, pois a doença tomou 100% dos pulmões e eu estava com 100% de oxigênio para saturar o sangue e não tinha o que fazer. Tem um indicador que chama PEP, no respirador, o máximo é 20, nesse caso não tem mais o que fazer, e eu já estava em 20. Já tinha tomado medicação, cloroquina, azitromicina quando estava em casa, mas no hospital eu tomei corticóide, antibiótico. Comecei a ter choque séptico. Eu ouvi a Adriana, discutindo com o médico, pois fiquei numa situação que realmente não tinha mais o que se fazer. Resolvemos procurar o Murilo (Santucci Assuncção, intensivista), pois a Adriana estudou com ele. Murilo estava vindo de João Pessoa e resolveu vir dar uma olhada em mim, em Piracicaba. Chegou aqui às 22h, avaliou, fez uma tomografia, não tinha condições de continuar me acompanhando, pois disse que teria de me ver toda hora e não dava para ele vir para cá. Resolveu então transferir. Nós temos aqui um respirador de transporte é muito difícil de encontrar. Eu comprei esse respirador há dois anos, encaixei bem no respirador e não precisou me levar de helicóptero. Em São Paulo (Hospital Albert Einstein), eles fez as manobras que queria fazer, ficou 36 horas comigo.

O senhor participou dessas decisões de transferência, o senhor estava lúcido?

Quando eu estava lúcido eu falei que não queria ser transferido, queriam me transferir e eu não queria. Eu estava com confusão mental, o que é típico da covid-19. Você fica meio alucinando, vê coisas que não existem, fala coisas que não deve.

Em São Paulo, qual era a sua situação quando o senhor deu entrada?

Eu estava entubado, mas eu lembro de muita coisa, alucinei bastante. Fiquei 26 dias entubado, mas me lembro de tudo.

Em que o senhor pensava, chegou a temer pela vida?

Eu achava que não ia conseguir por causa das complicações, pois tive muitas.

O senhor tem comorbidades?

Não tenho, não sou hipertenso, nem tenho diabetes e não tenho obesidade.

E desde a chegada ao hospital até receber alta foram quantos dias?

Sessenta dias em São Paulo, no total foram 67 dias.

E durante esse tempo, qual o foi o momento de maior apreensão, que o senhor teve mais medo?

Quando fui reentubado. Eu estava lúcido e eu não queria que me reentubassem, briguei, discuti muito. Eu tive a boop, uma segunda doença pulmonar. Eu sai da síndrome da doença respiratória aguda, que todos pacientes de covid-19 têm e desenvolvi uma bronquiolite obliterante com pneumonia em organização, o pulmão fica bloqueado, você não consegue expandir.

Qual sua experiência quanto à internação no Albert Einstein e como presidente na Unimed em Piracicaba, é possível implantar essas novas técnicas em Piracicaba?

Nós temos um convênio com o Einstein para o parto adequado, temos a telemedicina da UTI e temos intercâmbio com o Murilo, que cuidou de mim sobre os cuidados com a covid-19, ele nos dá orientação. E ele vai vir trabalhar aqui em Piracicaba também, nós temos essa parceria.

A sua gestão como presidente vai até 2022, o senhor pretende continuar na presidência?

Eu tenho direito a mais um mandato, mas nunca sabemos do futuro, não sei se vou ficar, estou renovando o time. Tem uma hora que a gente precisa desembarcar. Esses anos me consumiram muito. Eu tenho quatro obras pra fazer: o centro administrativo que vamos terminar agora, a outra será o centro comercial que em seis meses estará pronto. Depois tem o hospital novo e o centro de reabilitação. Eu preciso acabar essas obras no meu mandato.

E quando concluídas essas obras que o senhor tem como meta, pensa em se aposentar?

O meu legado que vou deixar é esse, prometi a Piracicaba que eu iria fazer a Unimed de Piracicaba ser referência no interior de São Paulo, equiparada aos melhores hospitais do Estado, com sala híbrida, hemodiálise, oncologia, ambulatório, centro cirúrgico para plástica, tudo isso.

Hoje é o Dia dos Pais, qual presente o senhor gostaria de ganhar?

Eu já ganhei o presente. O presente que ganhei foi a vida, minha vida de volta com a minha filha. Eu sempre sonhei em cuidar da minha filha, educá-la e participar da vida dela até uma certa idade. Eu sempre quis minha filha formada, casada, com filhos, com a família dela, aí eu posso descansar em paz. E eu não estava preparado. Uma das maiores crises minhas lá em São Paulo foi o sábado que passei com minha filha, a sensação de não vê-la mais. Nós dois choramos muito por causa disso, a sensação de eu não poder mais acompanhar a vida dela, de não estar mais fisicamente aqui como pai dela. Eu me programei para companhar minha filha até ela formar a família dela, aí eu posso ir embora. Eu não estava preparado psicologicamente para morrer. E o meu motivo principal não era eu, meu motivo principal é a ligação com a minha filha. Eu não estava preparado para morrer porque ela é única, sempre viveu comigo desde pequena, sempre morou comigo, desde os quatro anos, ela está hoje com 23 anos e eu não queria deixá-la sozinha. Então, o maior presente que eu tive foi poder voltar a conviver com a minha filha.

Por tudo que o senhor passou, o que esse episódio, essa doença mudou na sua vida, mudou algo nesse pós-covid?

Eu já tinha mudado muita coisa na minha vida. Já fui mais pesado poque a situação aqui (na Unimed) era complicada. Eu já estava mais leve, agora fiquei mais leve porque você passa por uma série de complicações, primeiro fisicamente, eu estou ‘baleado’ ainda, bem consumido, tenho dificuldades, eu trabalho ando. Eu vim para Piracicaba para ser independente, vim para ficar sem oxigênio e sem cuidador, porque lá eles achavam que eu não ia conseguir ficar sem. Eu fiquei com um cuidador em São Paulo, não fiquei sozinho. Eu coloquei metas na minha, que ia andar rapidamente, fazer exercício, hoje eu tremo um pouco, mas estou bem, eu não tinha forças nas mãos. Perdi 16 quilos, já recuperei uma parte, a cabeça está boa.

Durante todo esse tempo o senhor se manteve lúcido?

Só na época da alucinação que não. Você fica com confusão mental. Eu fui sequestrado, abriram meu peito e tiraram uma borboleta do meu pulmão, por isso que eu estava com infecção, tudo isso eu tive de alucinações.

Como o senhor analisa a situação da covid-19 em Piracicaba e com a mudança de fase?

Na tenda da Unimed houve uma queda nos números de atendimento. O indicador de óbitos da Unimed é baixo, é 1,1%. A Unimed está espetacular com resultado maravilhoso. Morre realmente idosos com 90, 94 anos, jovem é difícil. Eu fui uma raridade, com 62 anos de idade, sou do grupo de risco acima dos 60, eu fui um caso especial, trabalho muito, resistência baixa. Mas em gestão de saúde não é fácil, não adianta criticar secretário, prefeito. Se fosse fácil o mundo já teria descoberto a cura. Veja quantos países tem no mundo, alguém achou a fórmula? É isso que precisa ser visto. Isolamento total é difícil, um mês você consegue. Alguns países conseguiram por um tempo e quando abriram, apareceram os casos. Então gestão em saúde é difícil em pandemia. Tem de ter vacina, máscara, higiene. No hospital, de 20% a 25% vão pegar e não tem jeito, médicos e funcionários irão morrer. Eu não critico poque é muito difícil fazer gestão, eu sei como é aqui na Unimed. Agora, imagine na saúde pública que tem classes desiguais que precisam de cuidados iguais?

O que o senhor tem a dizer aos pais neste dia dedicado a eles?

A coisa mais gostosa do mundo é ser pai, é criar um filho, é plantar, semear e ver os frutos depois. Hoje eu vejo minha filha frutificando, começando. Então, eu sempre falo para as pessoas que não têm filhos, para tê-los. Na minha área de ginecologia, o que me motiva é isso, eu trato muitas pacientes para engravidar. Tenham seus filhos, porque a satisfação de criar um filho, impulsionado pela emoção, pela responsabilidade, pela dádiva de Deus dar saúde a ele, para vê-lo crescer, se desenvolver, e ver ele cumprir sua missão aqui, isso é uma satisfação incomparável. Quado vejo pais que abandonam filhos ou que não assumem, isso me deixa muito deprimido, revoltado. Para mim, o dia dos pais é todo dia, todo dia converso com minha filha, mando mensagens, discuto medicina com ela, que escolheu fazer medicina, mas eu nunca obriguei, gosta de animais como eu. Minha filha e eu temos afinidades de pensamento, cresceu comigo, envolveu-se comigo, sofreu comigo, nessa época do meu problema, participou e sofreu muito comigo, então o conselho que eu dou aos pais é que o maior presente da vida é seu filho perto de você. Tenho uma série de coisas importantes na minha vida, a Adriana é importante na minha vida, me ajudou bastante, mas a relação pai e filha, é um amor diferente. Vejo o que os meus pais faziam e sentiam por nós. Não tem a música ‘Como os Nossos Pais’? Eu me lembro do meu pai com a dedicação, preocupação pela educação, a responsabilidade de ter os filhos, cuidar. Se eu pudesse viveria 200 anos para acompanhar a minha filha.

Beto Silva

Foto: Amanda Vieira/JP