Casal decide adotar três irmãos para não crescerem separados

Perfil restrito ainda é um fator de demora na adoção (Foto: Arquivo pessoal)

O significado de uma família vai muito além do que os laços sanguíneos e biológicos são capazes de promover. Está no afeto, no cuidado, no companheirismo, na história compartilhada e, acima de tudo, no amor nutrido pelas partes. Sendo assim, todos esses processos são possíveis também com a adoção, seja de uma criança ainda pequena ou de um adolescente. De acordo com dados da Vara da Infância e da Juventude da Comarca de Piracicaba, 17 menores estão aptos para adoção – ou seja, as famílias biológicas foram destituídas da guarda pela Justiça, e 67 famílias cadastradas estão aptas para adotar. Mas a conta não fecha (por que ainda tantos casais?) segundo a psicóloga Deise Beissman, da Vara da Infância e da Juventude, Família e Sucessão, pela restrição no perfil.

“Mais de 50% dos pretendentes querem uma criança com até 3 anos de idade, alguns chegam a especificar com até 6 meses de idade, um ano. Isso vai fora da realidade nossa, porque esses 17 têm acima de 10, 12 anos, e são muito poucos os casais que se propõem a adotar adolescentes ou crianças acima de 5 ou 6 anos. É por isso que essa conta não fecha”, explica.

Aí entra o trabalho de conscientização, reflexão e, claro, de preparo desses possíveis pais adotivos. Isso é essencial para quebrar diversos tabus ainda envoltos na adoção. Mas é claro, não significa que devam adotar uma criança ou adolescente sem estarem até psicologicamente preparados para o perfil.

“Existe a ideia de que uma criança pequena você vai modelar do jeito que você quer, que ela tem mais facilidade para se vincular. Quando, na realidade, qualquer criança ou mesmo um adolescente que teve uma família disfuncional e foi acolhido também tem esse interesse, essa capacidade de se vincular a uma nova família que o aceite, o acolha. Ninguém deveria viver em um abrigo”, continua Deise.

Foi exatamente ao aceitar um perfil diferente daquele colocado no cadastro que o casal Júlia, 32, e Pedro, 35, (*nomes fictícios, pois preferiram não se identificar), há 3 anos e 7 meses têm uma família repleta de amor e de histórias para contar. São pais de dois meninos e uma menina.

“O meu perfil era de até duas crianças de 0 a 5 anos, porque a gente sempre fica com medo de pegar criança maior pela rebeldia, e esperamos. […] Na próxima vez [a psicóloga] ligou falando que tinham duas crianças: a menina de 5 anos na época e o menino estava com 8, já fora do nosso perfil”, recorda Júlia.

Mas não desistiram: “Meu marido falou ‘vamos conhecer’. A gente conversando, ela falava muito do outro, do pequeno. Aí que ela contou que eram três, só que o menor ia para outra família porque eles não achavam que a gente ia querer ficar com os três. Meu marido não quis separar”, lembra com alegria.

Para Júlia, os casais não devem mudar o perfil apenas para que adotem mais rápido, mas podem, sim, refletir sobre ampliar a preferência. “Para mim foi uma experiência diferente, eu não mudei o perfil, Deus quis que fosse assim. Não mudar o perfil para chamar mais rápido, mas se abrir. Eu não mudei o perfil, mas também não me arrependo da escolha que eu fiz. Acho que a gente tem que estar preparado para o novo, sim”.

PERFIL
Deise observa que os casais que pretendem adotar estão se abrindo mais na questão do perfil, porém ainda vê uma restrição grande quanto à cor negra. “Eles chegam até parda, embora eu vou falar para você tem poucas crianças negras mesmo, a grande maioria é parda, por conta da mistura do nosso povo. Dificilmente tem crianças negras, mas às vezes obviamente acontece e aí fica difícil encaixá-la mesmo que às vezes seja criança pequena”, explica.

Outra preferência diz respeito ao sexo da criança. Deise afirma que existe uma preferência por meninas. “Há na nossa cultura ideia de que as meninas são mais amáveis, caseiras, companheiras, dóceis do que o menino. Às vezes há um certo temor de se adotar um menino e aí ele ficar rebelde, existe essa questão. Quando, na realidade, nem sempre isso ocorre. Existem meninas que são mais ativas, mais rebeldes, e meninos que são mais amáveis, dóceis. Mas existe essa ideia de que o homem é mais rebelde, é mais difícil de ser ligado”, lembra.

Uma forma do casal entender se aquele perfil mais restrito é mesmo necessário para a felicidade da família é tentar se aproximar do cotidiano das crianças mais velhas e adolescentes nos abrigos. O fórum, segundo Deise, tem estimulado as visitas. “Normalmente essa visita traz uma mudança para estender essa idade, o que é muito bom”, comenta.

APADRINHAMENTO
Outra forma de ter contato com as crianças e adolescentes que estão acolhidos em abrigos e conhecê-los melhor (lembrando que o objetivo não precisa ser necessariamente a adoção, uma vez que nem todos acolhidos tiveram a guarda destituída pela Justiça) é o apadrinhamento afetivo, conforme explica a coordenadora do Lar Franciscano de Menores Piracicaba, Thaís Rosante Chorilli.


O principal trabalho do Lar é cuidar da saúde, educação e bem-estar dos menores acolhidos, mas também trabalha para reaproximá-los da família biológica e, em parceria com o Lar do Bom Menino, participa do projeto Apadrinhamento Afetivo. “Às vezes existe a possibilidade dela retornar para a família, mas vai ter que ficar aqui por muito tempo, e aí tendo essa referência é importante, porque são pessoas que têm muito a oferecer, conselho, carinho”, comenta Thaís.

Para participar do projeto como padrinho, a inscrição deve ser feita pelo site http://www.cdbm.org.br/apadrinhamento-afetivo/.

Andressa Mota