Catástrofe educacional

O governo do estado de São Paulo acaba de estimar 11 anos para recuperar a aprendizagem perdida em Matemática pelos alunos do ensino fundamental durante a pandemia. Segundo pesquisa baseada em avaliações amostrais semelhantes às do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), um estudante de 10 anos hoje tem desempenho pior do que quando tinha 8 anos.

Isso significa que as habilidades dos alunos não ficaram apenas estacionadas durante a pandemia, mas houve perda real do conhecimento que já havia sido adquirido anteriormente. É como se nossas crianças tivessem andado para trás, ou seja, ocorreu regressão nas habilidades escolares. O secretário estadual da educação classificou a situação como uma “catástrofe na educação”. 

Tal perda de conhecimento discente é consequência direta do número de dias em que as escolas estaduais de São Paulo ficaram fechadas, desde março do ano passado, contabilizando nada menos que 267 dias de fechamento até janeiro de 2021. Em pesquisa realizada pelo Vozes da Educação foi constatado que o Brasil teve escolas fechadas por mais tempo que todos os outros países em desenvolvimento, só perdendo para a Bolívia.

Mas não parou por aí. As aulas presenciais recomeçaram em fevereiro deste ano, mas foram novamente interrompidas com as alegações de recrudescimento da pandemia. O novo retorno ocorreu somente no último dia 14 de abril ainda com resistência de professores e notadamente de entidades sindicais da categoria.

Nesse contexto, é necessário frisar que, mesmo com países europeus enfrentando taxas de mortalidade por covid-19 muito superiores às brasileiras durante o ano de 2020, e ainda sem avanço relevante na vacinação, a média de dias de escolas fechadas nas nações europeias ficou em 58 dias, segundo pesquisa do Banco Mundial, o que evidencia o absurdo dos 267 dias de paralisação no Brasil em 2020.

O fechamento das escolas brasileiras foi inclusive muito superior à média dos países da América Latina (158 dias), à dos países do sul da Ásia (146 dias), e à dos países do leste e sul da África (101 dias), segundo a mesma pesquisa.  Quanto mais se analisam as métricas disponíveis, mas se conclui sobre o descabimento da política de fechamento adotada pelo governo paulista. 

Cerca de 4,2 milhões de crianças brasileiras não puderam participar de atividades escolares remotas em 2020 porque suas famílias não tinham condições para prover acesso contínuo à internet. Mais uma vez, são as crianças mais pobres que sofrerão as piores consequências do apagão educacional.

É absolutamente urgente que se adotem novas abordagens de aprendizagem corretiva, com a implementação de um plano de resgate educacional que vise a repor os prejuízos ocorridos. A situação exige revisão dos planos pedagógicos, com a criação de plano estadual de ensino corretivo, a exemplo de práticas adotadas no exterior. Tal plano pode exigir o reagrupamento de alunos segundo suas habilidades escolares para um programa de reforço escolar, com esforço dos professores na busca essencial de requalificação, para que estejam aptos a lidar com uma realidade que não se imaginava nem no pior dos pesadelos.

É fundamental o comprometimento de toda a sociedade para que os sonhos de milhões de crianças de progredir na vida não sejam para sempre ceifados.

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