Cecílio Elias Netto e JP: uma vida nas páginas de um jornal

Aos 80 anos, Cecílio faz parte dessa história como e leitor e colaborador (Foto: Amanda Vieira/JP)

As manhãs na casa do menino Cecílio Elias Netto eram especiais. Aos cinco anos de idade já aprendera a ler – antes de iniciar sua educação formal – e sentava-se no colo do pai para praticar essa habilidade com a leitura diária dos jornais. Por esse momento em família é que, em sua memória de infância, Cecílio carrega o que considera ser um marco importante para cidade – que participou e escreveu a história do município: o Jornal de Piracicaba.

Aos 80 anos, Cecílio faz parte dessa história como leitor e também colaborador assíduo que foi. Seus primeiros contos foram publicados nas páginas do JP quando tinha 14 para 15 anos. “Meus professores percebiam que eu tinha algum talento. Uma composição que eu me lembro chamava sobre o Dia das Mães. Eu fiz a composição para a escola e os professores mandaram para o Jornal de Piracicaba. Aquilo foi uma alegria para mim”, lembra.

O talento era real, tanto é que aos 16 já estava na redação e exercia atividade de assistente de revisão. “Antigamente tinha revisor. Eu me lembro, por exemplo, das grandes personalidades que se reuniam na redação do Jornal de Piracicaba. A redação era um encontro intelectual-cultural”, conta Cecílio e é possível quase ouvir os toques dos repórteres nas máquinas de escrever.

O jovem talentoso cresceu, exerceu o ofício em outros jornais da cidade, foi dono do Diário de Piracicaba, mas nunca abandonou o tradicional JP. Cecílio manteve a coluna “Bom dia, leitor” nas páginas deste diário por 50 anos, de 1964 a 2014. E, nos anos 2000, também foi membro do Conselho Editorial, sempre focado em manter a tradição, as raízes da cidade, na tinta do Jornal de Piracicaba. “É um patrimônio, é uma história. Pergunte quantas cidades do mundo têm um jornal de 120 anos. É um tesouro”, analisa.

BOM DIA, LEITOR’

Assim como hoje em dia o mundo roga por boas notícias, quando Cecílio começou sua coluna diária “Bom dia, leitor” no JP, em 1964, ele também buscava formas de entregar esperança em “tempos de chumbo”. O período da Ditadura Militar (1964-1985) não foi fácil para o jovem que aspirava liberdade e democracia.

Assim, com a coluna, levou durante 50 anos a poesia do cotidiano para os leitores. Sua sensibilidade encantou e, por isso, criou vínculo com quem acordava de manhã para ler as notícias do dia.

“Essa coluna virou refúgio para mim. Eu sobrevivi psicologicamente, espiritualmente, escrevendo aquilo todos os dias. Era um tipo de confessionário, um muro de lamentações e pegou. A coluna foi muito lida, graças a Deus”, relata.

Quem não se encanta pela boa literatura do cotidiano que as crônicas expressam? Do pássara bonito na janela à ‘estrelinha azul’ no céu, os leitores do JP tiveram a dádiva de ler e acompanhar o desenvolvimento do estilo de Cecílio. E, claro, também participavam da coluna. “Atendi [uma leitora] e ela: ‘ai, Cecílio… a jabuticabeira está dando flor’”, Cecílio atendeu ao telefonema em meio a uma reunião importante. “Ela me telefonou, me interrompeu para falar isso. ‘Eu gostaria que você visse’. Aquilo me comoveu tanto. Ela viu a jabuticabeira e lembrou de mim. Eram coisas assim”, conta com gosto de memória boa do que foram os 50 anos de uma coluna diária.

JP E PIRACICABA

“O Jornal foi o eco da cidade, virou uma fonte de informação, de orientação. Muitos acontecimentos políticos de Piracicaba aconteceram a partir da redação do Jornal”, Cecílio lembra do trabalho do JP no século XX.

O desenvolvimento da cidade está intimamente ligado à consolidação da história do Jornal de Piracicaba. Cecílio lembra, em especial, do período em que o Fortunato Losso Netto dirigiu o diário, de 1939 a 1985. “O Losso Neto não era um jornalista, era um estilista, editorialista, um pensador. Ele não era homem do campo, mas a opinião do Losso era muito importante”, analisa.

Opinião e ações que culminaram na candidatura de um dos prefeitos mais importantes na história da cidade: Comendador Luciano Guidotti. Cecílio lembra que o ex-prefeito não era muito afeito à política, mas que sua candidatura em 1956 foi sugerida a Losso Netto por Sebastião Rodrigues Pinto, um dos líderes do partido UDN (União Democrática Nacional) na época. “Então o Losso reúne o pessoal do Rotary Club, de todos, e lança. E o Luciano transforma a cidade”, conta Cecílio.

“Havia o tripé muito forte, que era o Jornal de Piracicaba, Rotary Club e Agronomia (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), era uma aliança muito forte que tomava decisão em Piracicaba. Todos se reuniam no JP”, lembra Cecílio.

O FUTURO

A discussão travada hoje sobre a forma do jornalismo é equivocada, conforme Cecílio avalia, uma vez que o foco – para ele – deve ser no conteúdo. Acredita, sim, que o futuro é digital e cheio de novidades que deverão ser acatadas, mas Cecílio lembra que não se pode esquecer das pessoas, que buscam análise, investigação e, como sempre, querem ver os problemas da cidade sendo resolvidos com a ajuda do jornalismo. Afinal, mesmo com a globalização, as pessoas vivem nas cidades.

“O Jornal de Piracicaba precisaria manter, no meu entender, essa posição dele, uma posição firme, conservadora, no sentido das tradições de Piracicaba. Levantar o que eu chamo de caipiracicabanismo”, avalia Cecílio. “É Jornal “de” Piracicaba, então ele tem que lutar, como tem feito ao longo dessa história, pelas nossas raízes, porque se não houver raiz não haverá futuro. Piracicaba tem que mudar, sempre muda, é claro, mas trazendo a nossa história junto”, conclui.

Andressa Mota