Cercadinho

Soube, recentemente, que o significado da expressão “puxa-saco” vem da ala militar. É que em operações fora do quartel, os soldados rasos tinham como obrigação levar seus próprios suprimentos, mas também eram obrigados a carregar os sacos contendo itens de sobrevivência de seus coronéis e capitães.

Inspirado nessa cena, nasceu “puxa-saco”, expressão que hoje significa aquele que, aconteça o que for, vai apoiar, adular, reverenciar e dizer amém a um ser humano que ele considera um superior hierárquico.

Assim acontece com aluno e professor, empregado e patrão, e, em alguns casos, entre cidadão e político. E para provar o significado da expressão, basta viajar até o centro do Brasil e encontrar, todos os dias, meia dúzia de três ou quatro deles no tal “cercadinho” do presidente Jair Bolsonaro.

Chama-se assim, “cercadinho”, porque é ali que, em um espaço minúsculo delimitado por grades, todos os dias, alguns puxa-sacos do presidente ficam de plantão, esperando que ele passe para enaltecê-lo.

Não importa o que o messias dessa turma fale, haverá salva de palmas, falas apaixonadas, urros de vitória e, o mais clássico, gritos de “mito”. Até por isso que ele os mantém ali, tipo uma área VIP de um show! E como em um stand-up comedy (que está mais para horror), o presidente solta várias de suas diárias falas polêmicas.

O “cercadinho”, na verdade, é uma ideia genial! Ali, Bolsonaro está seguro. Ninguém vai exigir que ele explique os escândalos e investigações contra sua família ou questioná-lo sobre irregularidades de seu governo.

Nenhum deles irá criticar sua postura à frente da pandemia ou da compra de vacinas. Não importa o absurdo que Bolsonaro disser, não haverá vaias ou olhares de reprovação! É um povo muito bem selecionado!

Na última vez, sob os olhares apaixonados de seu séquito, Bolsonaro mais uma vez fez o que mais sabe fazer: falou muita besteira.

“Tem que todo mundo comprar fuzil. Povo armado não será escravizado. Tem um idiota lá ‘tem que comprar é feijão’. Cara, se não quer comprar fuzil, não enche o saco de quem quer comprar”, esbravejou, com perdigotos acertando em cheio aqueles mais coladinhos à grade.

É como se todo o resto não importasse! Afinal, o presidente até admite a alta dos alimentos, do combustível, do gás de cozinha e da energia elétrica, mas se isenta de culpa de tudo isso. O inferno são os outros!

E quem teria culpa seria a imprensa, a esquerda, os governadores, os prefeitos, os ministros do STF, aqueles que ficaram em casa para evitar a contaminação pela Covid-19, o Foro de São Paulo, os artistas, os comunistas, Lula, FHC, Jânio Quadros, a Mula Sem Cabeça, o Saci-Pererê, o João e o Pé de Feijão, os dinossauros, os homens das cavernas… e lista que segue.

Mas o governo dele? Intacto! Vítima das circunstâncias. Um pobre coitado, atacado por ser inocente. Por isso, o que vale mesmo é exigir compra de fuzil, voto impresso, tomar cloroquina e colocar tanques nas ruas. Assuntos dos mais irrelevantes surgem para que o aplauso dos incautos silencie o que realmente importa.

Bolsonaro faz bem ao se acovardar e não confrontar jornalistas questionadores. Afinal, no “cercadinho”, o seu público também faz as vezes de repórteres, gravando e distribuindo vídeos dos discursos do presidente em guetos de internet.

Assim, grupos de apoio fazem um recorte distópico da realidade e uma lavagem cerebral muito bem articulada. A tática é essa e pode dar certo.

Quando os soldados de Bolsonaro sentirem que carregar o saco de seu superior está ficando cada vez mais caro, pesado e insustentável, talvez eles parem de aplaudir e comecem a escutar o que está acontecendo de verdade.

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