Chile decide em plebiscito se muda a Constituição

Praça da Dignidade foi palco de protestos pela mudança | Foto: Felipe Egaña Villagra

Chile, o país mais estável da América do Sul, foi sacudido em outubro do ano passado com manifestações contra o atual presidente Sebastián Piñera e seu apático governo. Os protestos começaram em 2019 com um cenário semelhante àquele do Brasil em 2013: chilenos foram às ruas protestar contra o aumento dos bilhetes do metrô na capital Santiago e, em seguida, a pauta foi encorpada com críticas ao sistema de saúde, educação, truculência dos carabineros (polícia militar do país andino), entre outros temas ardilosos ao bem-estar social.

Em um ano, o Chile literalmente ardeu em chamas e o palco principal dos protestos são na Praça Itália, que ganhou o ‘nome de guerra’ Praça da Dignidade, e no seu entorno, ali do lado da estação de metrô Baquedano, do bairro boêmio Bellavista (onde também estão diversas universidades) e do turístico Cerro San Cristóbal. Houve um período, entre os últimos meses de 2019, e novamente, neste mês de outubro, que os atos eram – e são – diários, que quase sempre terminam em confrontos com os policiais, pejorativamente chamados de ‘pacos’, em suas armaduras e caminhões.

A revolta dos chilenos não foi em vão. Em dezembro passado, um trêmulo Piñera anunciou um plebiscito para determinar se os chilenos querem alterar a atual Constituição do país, que está vigente desde a ditadura sanguinária de Augusto Pinochet. A reforma da Carta Magna chilena é outra crucial reivindicação dos manifestantes. Aconteceria em abril, mas a pandemia obrigou o Congresso a mudar para este domingo, 25 de outubro.

A campanha eleitoral, divida em ‘Apruebo’ (quer mudar) e ‘Rechazo’ (mantê-la intacta), terminou na sexta-feira (23). Domingo os chilenos voltam às ruas para ir às urnas, e talvez retornar mais à noite à Praça da Dignidade, a depender do resultado.

O Jornal de Piracicaba conversou com o chileno, morador de Santiago, Felipe Egaña Villagra, que participou de diversas manifestações, inclusive da de domingo passado, quando uma igreja foi incendiada em meio aos protestes pacíficos. Ele viu, de longe, conta. “De repente ficou, a situação saiu do controle. Lamentavelmente, naquele dia, torcidas de dois mais populares clubes de futebol do Chile se enfrentaram em meio às manifestações, e foi um evento isolado, porque a grande maioria das pessoas protestavam pacificamente”.

No entanto, Villagra conta que nada de fato concreto se sabe sobre a queima da igreja (administrada pelos policiais), como quando começou e pessoas supostamente envolvidas. “Mas um detido no local era um funcionário do exército chileno”, conta. Ele é também crítico à atuação policial desde outubro de 2019. “É brutal. A violência na forma como reprimem já deixou matou 33 pessoas e quase 500 com trauma ocular”.

Sobre o plebiscito, Villagra opina que o Chile precisa de uma constituição feita dentro de uma democracia. “A atual não nos representa e corrompe a todos os poderes do país. Evidente, mudar não é a solução para todos os problemas, mas pode ser, sim, um grande passo”.

O chileno fala ainda de um mal-estar coletivo no país, que é sombra do ditador Pinochet. “Deixou uma ferida muito grande. Foi uma ditadura que cometeu muitos atrocidades e violações de direitos humanos. Muitas pessoas que foram torturadas estão vivas para contar sobre o terror. Além disso, dividiu a população chilena, violou a constituição e assumiu por meio de um golpe, derrubando um governo eleito democraticamente”, comenta Villagra ao se referir à deposição do presidente Salvador Allende no fatídico 11 de setembro de 1973.

Naquele dia, o Palácio da Moeda (sede do governo chileno) foi bombardeado e o seu entorno cercado por tanques de guerra, num cenário de guerra, mesmo.

Mudar a constituição, como muitos pedem neste domingo, tem a ver com virar mais uma página deste episódio obscuro na história do Chile. “A constituição de 1980, feita pra privilegiar o governo militar da época e sua classe política, potencializou a desigualdade social. É uma das coisas que queremos mudar com o plebiscito”, finaliza Villagra.

Erick Tedesco ([email protected])

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