Chorar, o remédio

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Tudo isso tão angustiante é que penso não haver saída, senão buscar alguma perspectiva. Pois a indefinição atormenta. Não há como suportar esse sair, não sair; nem ir, nem vir. A encruzilhada – sempre me lembro disso – simboliza o desafio para escolher o caminho. Ir em frente, recuar; a trilha à esquerda, à direita? Indefinir-se é mais dramático do que errar na escolha.

Ora, apenas os tolos não se dão conta do início de suas próprias cerimônias de adeus. Mesmo não querendo ir-se, vai-se. O grande momento, então, poderá ser o de entender que valeu a pena. Será um privilégio o encontro da humildade na descoberta, enfim, de cada um ser parte do todo. O mistério permanece, adensa-se. Mas lá se vai embora a ânsia de tentar descobri-lo. Resta, então, a alegria de render graças.

Realmente, cada dia é um novo dia. E pode, também, ser o último. No grande naufrágio, nem sempre há como socorrer alguém, mesmo o mais próximo. Sobreviver ou afundar junto, eis a dolorosa escolha, tal qual a “de Sofia”. Mas escolher é preciso. E a escolha é intransferível, cada qual com suas forças e limites. De minha parte, lá me vou eu, pois, em busca de sobreviver a essa hecatombe material, moral e espiritual. Refugio-me em Schubert e em Schumann, os, para mim, mais próximos da imensa solidão. E reler Dom Quixote em sua loucura santa, a personagem mítica na qual cada um de nós consegue espelhar-se. Ou, então, recolher, na alma, o Cântico do Cânticos, relembrando o inesgotável do amor.

Confesso a tentação de ser politeísta, de crer em muitos deuses. Em todos eles. Pois, na encruzilhada, complico-me com o Deus único. Como entender o “seja feita a Sua Vontade”? Como admitir seja vontade de um deus o luto de tantas famílias, a orfandade prematura, a fome, o desemprego, a semeadura e colheita de tantos ódios? Não, não há pai que assim o deseje. Essa miséria é humana. Mas e as forças para enfrentá-la, para encontrar alguma solução? “Dar pão a quem tem fome”… Mas como, a quantos?

Mas sou católico. E posso viver o mistério de um Deus Uno e Trino, o Pai, o Filho, o Espírito. E uma multidão de anjos e santos. O problema está no meu espanto. Pois, nesse caos, a loucura e a tolice humanas revelam-se insolúveis. Enquanto a solidariedade, a compartilha, o socorro mútuo agregam pessoas; enquanto a dor, as lágrimas nos humanizam diante do entendimento de nossos limites; enquanto a vida clama por espiritualidade – há os que desafiam o próprio milagre da vida. O presidente e seus filhos – mesmo num quarto de hospital – insistiram em destilar fel até mesmo à sombra da morte. Como entender tanto ódio quando o mundo grita por compaixão?

Aqui mesmo em nossa cidade, o prefeito gasta energias, tempo e responsabilidade, como criança fazendo do Engenho Central seu brinquedo. Isso é hora, enquanto a fome chega a tantos desempregados? Por que distrair a população com projetos por enquanto inexequíveis? Já nos foi revelado: ter olhos de ver, ouvidos de ouvir. Há homens públicos que parecem incapazes de enxergar rostos de uma população angustiada. E que não conseguem ouvir o clamor de tantas famílias desesperadas. Fazem lembrar pequeninos Neros divertindo-se com o sofrimento dos que estão na arena lutando contra tantas ameaças. É uma insensibilidade que anuncia legítimas indignações. O Engenho Central – e isso já lhes foi lembrado – é o túmulo de políticos despreparados.

Às vezes, rir é o melhor remédio. Mas, nesta hora agônica, o necessário é chorar. Pelo sofrimento coletivo. E por cada um de nós.

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