Christian Felix é o idealizador da banda sensação na internet, Formiga Balão | Foto: Renata Leme

A banda piracicabana de música infantil Formiga Balão é um fenômeno na internet, com sua linguagem lúdica e engraçada. A fórmula é uma ideia bem pensada por Christian Felix, que traz uma enorme bagagem de educação com crianças. O educador e músico tem muito o que contar nesta entrevista.

Christian, o Formiga Balão, como disse, foi uma catarse de longos anos de trabalho. Consegue contar como isso se tornou realidade?
Em 2018 gravei um DVD de Brincadeiras Musicais totalmente autoral através de um financiamento coletivo e da ajuda e carinho de muitas pessoas. Como eu já tinha o sonho de formar um grupo de música infantil, dei ao DVD o mesmo nome “Formiga Balão”, já tendo em mente que esse material poderia ser usado e trabalhado com o grupo assim que ele viesse a nascer. Para o DVD, convidei três amigos queridos, artistas e educadores musicais, para que pudessem engrandecer os arranjos e brincadeiras. A sinergia de nós quatro juntos foi tão linda que o grupo nasceu alí mesmo: no dia da gravação.

Hoje, quem é quem no Formiga Balão?
No Formiga Balão nos chamamos de “baloeiros.” Junto comigo nos vocais temos a querida baloeira Cristiele Araújo. A brincadeira fica completa com os outros dois baloeiros: Luana Paula (bateria e percussão) e Thiago Felix (violão, contra-baixo e inúmeros outros instrumentos rs). Faço questão de dizer que além do elenco de palco temos uma equipe técnica linda que trabalha e se dedica para que tudo flua profissionalmente: Carlos Spadotto, Alan Aliberti e Sergio Carvalho.

Novos personagens podem surgir?
Quanto ao surgimento de novos integrantes é sempre uma incógnita. Há pouco tempo, a Luana precisou ficar alguns meses na África e em seu lugar contamos com o querido e exímio baterista Jo Totti. Assim como a vida, o Formiga Balão sempre estará aberto ao que o universo do brincar nos proporcionar e provocar.

O Formiga Balão é hoje, sem dúvida, um fenômeno no Youtube, como analisam a popularidade e repercussão do grupo?
Quais são as grandes conquistas do Formiga Balão?
Estamos muito felizes com o crescimento do grupo e eu sinto que para além do amor e verdade que colocamos em nosso trabalho, há uma escassez do brincar livre e corporal nos dias de hoje. A gente percebe a alegria de cada criança (e também dos pais) quando são estimulados a fazer gestos, ritmos com o corpo, dançar, cantar, abraçar… Quando brincam, é como se cada um dissesse: nossa, era disso que eu precisava e nem havia percebido! Entre tantas brincadeiras e canções, a música “O Tatu” se tornou nosso maior hit. Atingiu recentemente a marca de 40 mil visualizações e cresce a cada dia. Nossas canções também são muito utilizadas em sala de aula por educadores da primeira infância, pois proporcionam muita interatividade, estimulam a criatividade e a imaginação. Hoje temos uma estrutura e equipe profissional para shows e gravações, e estamos em todas as plataformas digitais com conteúdos educativos e musicais.

O grupo já foi requisitado para se apresentar em diversos locais. Pode citar alguns e falar como é a dinâmica de cada proposta de show?
O lançamento do DVD foi realizado na livraria Nobel e o show teve sua primeira exibição no Teatro do Engenho. Ano passado fizemos um show para 1.500 pessoas no Sesc Piracicaba e foi maravilhosamente incrível. Também nos apresentamos em outras cidades vizinhas e na capital de São Paulo. Queremos muito levar o Formiga Balão para muitas outras cidades e estados desse nosso Brasil.
Apesar da concepção original do nosso show que contempla os teatros, temos vários outros formatos que variam de acordo com a demanda do local: Pocket Show, para eventos menores, espaços fechados, confraternizações, inaugurações e escolas; Show Intervenção, para eventos de médio porte em espaços abertos ou fechados; Show Grande, para ginásios, festas, grandes estruturas. Agora em meio a essa pandemia criamos o Show Online, onde as pessoas podem assistir, interagir e brincar com o Formiga Balão em casa através de uma transmissão ao vivo.

Diversas lives foram realizadas durante o período da pandemia da covid-19. Como foi adaptar o show de vocês para uma live? A dinâmica abriu perspectivas e novas ideias ao grupo?
Sim. Nós sabemos que toda barreira que surge é um sinal para que possamos aprender uma nova forma de olhar, ser e estar. Ao invés de esperarmos a barreira abrir, podemos aprender a escalá-la ou dar a volta e passear e brincar por outros espaços. Foi difícil adaptar o show para o formato online, principalmente no quesito de transmissão e detalhes técnicos, mas nos trouxe um grande aprendizado e novo jeito de trabalhar. Inclusive, faremos um Show Online no dia 20/06 às 16h. Para assistir, é necessário comprar um ingresso com valor de contribuição simbólica; a partir de 10 reais é possível assistir ao show no conforto da casa. O link para compra está na BIO do nosso Instagram e também no post fixado na nossa página inicial do Facebook.

Você, em paralelo, é educador e trabalha em escolas de educação infantil na cidade. O dia a dia com as crianças e o ofício de ensinar são termômetros e, ao mesmo tempo, máquina de ideias para as criações do Formiga Balão?
Com toda certeza! Muito do que aprendi e criei no Formiga Balão nasceu do convívio com os pequenos, de observar como brincam, se relacionam, interagem entre si. E as aulas, que são uma escola onde consigo perceber quais atividades são mais adequadas para determinada idade me mostram quais trazem maiores benefícios para as crianças.

Por certo, é difícil generalizar ou padronizar, mas conseguiria dizer como as crianças de tempos atuais se envolvem com o lúdico em meio ao bombardeio de tecnologia, como celular, tablet?
A tecnologia é uma realidade há algum tempo e não há como pensarmos o mundo sem ela. É incrível podermos interagir com pessoas que estão tão distantes de nós e podermos aprender sobre tantos assuntos, mas quando o foco são as crianças, principalmente as da primeira infância, é importante que os pais e educadores proporcionem momentos de brincadeiras com o corpo, onde elas poderão desenvolver habilidades motoras, sensoriais, cognitivas, rítmicas e emocionais. Tudo isso é vivenciado e experienciado no livre brincar e nas dinâmicas e brincadeiras corporais. Me lembro uma vez, em que numa de minhas aulas para alunos entre 8 e 10 anos resolvi resgatar uma brincadeira que a princípio não era musical mas queria que meus alunos pudessem vivencia-la. E foi na brincadeira chamada “queimada” que observei que as crianças que eu sabia que brincavam mais na rua e tinham menos contato com celular, tinham uma corporeidade mais elaborada, repleta de ferramentas e artifícios; tinham um entendimento maior de seu corpo, do espaço e tempo em que a bola se deslocava e a energia e malabarismo necessário para se esquivar ou pegar a bola de meia. Essas elaborações e vivências nós fazemos o tempo todo mas com toda certeza tudo que vivemos na primeira infância carregamos para sempre em nossas vidas.

E do que se trata e como acontece o projeto de brincadeiras musicais em aniversários infantis, cursos e oficinas para educadores?
A ideia surgiu antes do Formiga Balão, justamente com o intuito de proporcionar brincadeiras musicais com o corpo entre crianças e adultos. Para os educadores, a vivência oferece ferramentas brincantes e musicais para cada participante se reconectar com sua criança interior e consequentemente levar esses conteúdos para seus alunos.

Você também fez parte do grupo de estudos do Barbatuques. Como foi essa experiência e qual a relevância em seu trabalho com as crianças?
O Barbatuques mudou a minha vida. Em meados de 2013 conheci o querido mestre e amigo Fernando Barba, fundador do grupo que existe há mais de 20 anos e é referência internacional em música corporal. Fui convidado por ele para fazer parte do grupo de estudos do Barbatuques. Nunca fiz parte do elenco de palco, mas posteriormente o Barba criou a Orquestra do Corpo e com ela pude me apresentar no Auditório Ibirapuera, em alguns Sescs, junto com o Barbatuques e artistas como o cantor e rapper Emicida. Viver a experiência de estar entre 40 pessoas fazendo música unicamente com o corpo é de uma dimensão quase que etérea.
Tanto o Barbatuques e o Barba, quanto a Orquestra e todos meus queridos amigos participantes, me ensinaram a enxergar a música e a vida de uma forma mais colaborativa, sensível e profunda, onde percebemos a necessidade de estarmos “afinados” com todos ao nosso redor e a gente mesmo, para um convívio mais saudável, prazeroso e bonito.
Além de toda essa perspectiva, a música corporal está intimamente ligada ao universo lúdico. As crianças amam essa forma de brincar utilizando o instrumento que carregam para todo canto: o próprio corpo.

Existe uma mensagem de positividade muito forte no trabalho do Formiga Balão, que também mostra a importância da felicidade, do rir e brincar. Acredita que este momento atípico, diante de um vírus letal, reforça o papel do grupo junto à sociedade?
Com toda certeza. O entretenimento em si vem sendo um bálsamo nesses tempos de confinamento. É através da arte, da leitura, filmes, canções, brincadeiras, que conseguimos manter nossa saúde mental. E o Formiga Balão tem como objetivo aflorar a criança que habita em todo ser para que possamos viver num mundo onde todos entendam a necessidade e importância de cada ser, que cada voz tem sua cor e que juntas elas pintam um cenário mais respeitoso e amoroso, alegre e divertido, uma sociedade mais lúcida, consciente e feliz.

Você é natural de Piracicaba? O que, na adolescência, te levou a viver nesta trilha da educação infantil?
Sim, sou piracicabano. Eu costumo dizer que fui salvo pela brincadeira rs! Brinquei muito em minha infância e adolescência… e olha só: continuo brincando rs. Mas brincar é coisa séria sabia? Maria Amélia Pereira, uma pedagoga das mais incríveis disse: “Brincar é usar o fio inteiro de cada ser. Quando você está usando seu fio de vida, inteiro, você está brincando.” Acho que eu gostei dessa busca por vivermos na efemeridade dos momentos, no sagrado e profundo aqui e agora, no riso que brota da alma. É difícil, a gente sempre perde esse fio, mas eu sinto que a brincadeira é um caminho que sempre nos conduz a ele, ao encontro de nós mesmos.

Erick Tedesco ([email protected])

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