Classe artística busca sustento em novas plataformas

Pandemia permitiu também novas formas de fazer arte. (Foto: Claudinho Coradini/JP)

A pandemia da covid-19 mudou a dinâmica do trabalho de grande parcela da sociedade. Com o isolamento social imposto pela necessária quarentena, no intuito de conter ao máximo a proliferação em massa do vírus, os profissionais das artes se viram numa situação inusitada e indesejada: longe do contato com o público, sem o ‘olho no olho’. Afinal, como sobreviver de cultura sem as apresentações in loco?

O ineditismo, então, obrigou muitos destes profissionais orientarem suas respectivas produções ao universo online, apesar de ser uma situação longe do ideal e, principalmente, menos rentável.

A disseminação do novo coronavírus lançou ao próprio artista e à sociedade que consome cultura, questões extremas: como ser músico longe dos palcos? Como atuar no universo das artes plásticas sem exposições em galerias e salões, para entender que tipo de brilho desperta do espectador diante da obra? Como fica o brio do ator de teatro, de cinema, sem a adrenalina do momento de fazer/gravar a cena? E a dançarina, para quem e onde vai dançar?

Diversos artistas piracicabanos estão em busca de alternativas para garantir o sustento diário do seu ofício e, para muitos, isso significa ainda lutar para comer, pagar contas e cuidar da família. Apesar das incertezas do futuro, no entanto, eles têm plena consciência e compartilham – é unânime – que a vida sem a cultura seria um erro, e apesar da letal crise de saúde pública pelo qual passa o mundo, as pessoas continuam a consumir arte.

O sambista Juca Ferreira, nome tradicional da música piracicabana, entende que a situação é “extremamente delicada”. Ele se apoia na internet para compartilhar seu ofício. “Por meio do advento das lives, estamos nos certificando que, diferente de outros segmentos, a música se faz presente neste momento: ela salva, alivia a dor da solidão, e da reclusão”.

Continuar a produzir e divulgar sua arte, destaca Juca, é o que mantém motivado por dias melhores. “Nós, artistas, em suma maioria, elevamos a nossa arte para um patamar elevado em nossas vidas, num elevado grau de importância e sensibilidade, e acabamos por não nos estruturarmos nas formalidades mundanas, e nas questões de seguridade social, com muitas exceções é claro”.

Também do universo musical os irmãos Felipe e Bebé Salvego afirmam que às vezes custam a se adaptarem ao momento, e buscam recursos tecnológicos e a internet para continuar na ativa. Mas, lembram que o setor sempre foi difícil. “Economicamente sempre foi difícil para o artista, ainda mais em um país onde não se valoriza arte, se valoriza famosos”, constatam.

A cantora Ju Pat, que é artista independente, como quase todos de Piracicaba, vê com preocupação a situação da cultura no país, “ainda com um governo anticultura, que ataca e desvaloriza os artistas”. Ela revela que, em isolamento social, ocupa o tempo compondo e refletindo sobre o futuro. “Vamos nos virando, sempre se adaptando aos novos tempos, como sempre fizemos. E tenho certeza que quando passar essa fase vamos ter uma chuva de lançamentos das crias da quarentena, novas músicas, novos shows, novas produções”.

No ramo do teatro, o coordenador das oficinas do Programa Movimentação Cultural, Washington Poppi, acredita que a pandemia afeta muito a arte. “Nunca pensei que pudesse presenciar algo neste sentido. Alguns artistas buscam reconexões com o seu público. As lives é uma boa saída. Precisei me adaptar, com aulas de teatro online, mas não é a mesma coisa sem o contato e o olho no olho”.

Outro agente das artes cênicas, Romualdo Sarcedo, fala que o trabalho, da forma que existia, ficou comprometido. “Impossível pensar em reunir pessoas. Felizmente vivemos a possibilidade da internet, o que torna a pandemia menos sofrível do que as demais na história da humanidade. Estamos nos comunicando!”. Consciente da distância, Roma, como é conhecido, conseguiu inclusive levar uma peça teatral, de forma virtual, a Portugal, por meio de uma plataforma de ajuda à classe artística. “Estamos todos juntos neste drama”, completa.

INSPIRAÇÃO
Um contraponto da pandemia no setor cultural é colocado pela escritora e poetisa Ivana de Negri. “Para quem cultiva a arte da escrita, a pandemia está sendo benéfica, pois há tempo de sobra para ler livros, refletir e escrever. Com a correria diária e os muitos compromissos, escritores mal tinham tempo de rabiscar algumas linhas. A inspiração até chegava, mas o texto ficava para ser escrito depois e acabava sendo abortado”. Agora, no isolamento forçado por conta da quarentena, sobra tempo para escrever contos, crônicas e poesias, ela fala sobre o próprio processo criativo.

Erick Tedesco

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