Coluna – Cordel paralímpico

Coluna – Cordel paralímpico
Fonte: Agência Brasil

Em um Brasil de culturas tão variadas do Oiapoque ao Chuí, poucas manifestações são tão identificadas com uma região quanto o cordel com o Nordeste. A poesia popular leva adiante histórias e tradições de um povo que emana orgulho das raízes, de forma declamada ou cantada. O nome remete à maneira como os versos eram apresentados, em folhetos expostos em varais de cordas ou barbantes.

Unir a paixão pela cultura de onde nasceu com o esporte pelo qual se apaixonou aguçou a criatividade de Jônatas Castro. Natural de Paulista, uma cidade paraibana de cerca de 12 mil habitantes, que fica a 410 quilômetros da capital João Pessoa, ele é auxiliar técnico da seleção brasileira feminina de goalball, única modalidade paralímpica que não é adaptada, sendo praticada por atletas com deficiência visual, total ou parcial.

“Quando estou na roda de amigos, gosto de recitar alguns poemas, muitos deles de poetas consagrados do Nordeste. A professora Carla da Matta [coordenadora nacional de arbitragem e representante das Américas na federação internacional da modalidade], que é uma grande amiga, recebeu uma mensagem com o cordel do handebol e me provocou a fazer um do goalball”, conta Jônatas à Agência Brasil.

Ele precisou de uma só noite para criar o Cordel do Goalball, divulgado pelas redes sociais da Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais (CBDV). Segundo o autor, professor de Educação Física e técnico da Associação Paraibana de Cegos (Apace), a ideia era se colocar no lugar de alguém que está conhecendo a modalidade. A poesia começa:

“Um dia eu fui convidado

Pra assistir um esporte

De um cabra danado de forte,

Mas eu achei engraçado

Quando fui logo avisado

Que ele não enxergava nada

Como fazia a jogada?

Por onde ele era guiado?

Chega fui desanimado

Pra ver aquela empreitada”

Os versos seguintes descrevem regras do goalball, como o uso de óculos escuros (para igualar atletas de baixa visão e os que nada enxergam), o número de jogadores (três) de cada lado, o inglês como idioma universal, a necessidade da bola arremessada quicar no chão (para os atletas escutarem o guizo e se orientarem em quadra) e a importância do silêncio entre torcedores. Também demonstram o espanto, comum a quem vê ao esporte pela primeira vez, com a força e as variações nos arremessos da bola e a agilidade nas defesas. E continua:

“E assim seguiu o jogo

Cada bola uma pancada

De rasteira à quicada

Gol de um lado, gol do outro

Jogo ali pegando fogo

E eu só observando

Cada gol tava gritando

Mais ou menos entendia

E quanto mais eu assistia

Mais ficava admirando”

Segundo Jônatas, além de apresentar a modalidade de uma forma lúdica, o objetivo do cordel foi mostrar que o paradesporto é ilimitado. “Serve para o goalball e para todo o movimento paralímpico. Quero incentivar que as pessoas conheçam os esportes, os atletas, e que possamos quebrar alguns tabus e preconceitos socialmente construídos pelos anos e enxergar primeiro o desportista, o atleta”, diz, reforçando a mensagem da última estrofe do poema:

“No final da experiência

Eu via apenas atletas

Com suas vidas repletas

Além da deficiência

Pois quem tem a consciência

Não depende da visão

Não lhe falta inspiração

Que ao esporte é permanente

Que é incondicionalmente

Dada pelo coração”

Nada melhor que um recado em cordel para encerrar o texto, correto? Este, o próprio Jônatas enviou à Agência Brasil:

“Quem quer melhor conhecer

E desfrutar o Paradesporto

Pode ir com muito gosto

Procurar o CPB

Lá vocês poderão ver

Os atletas em destaques

Em muitas modalidades

Com extrema competência

Vencendo as deficiências

Com as demais capacidades”

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