Com fim do auxílio emergencial, desempregados precisam de doações

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Embora haja pressão para manter o benefício, até o momento, o governo federal não anunciou nova prorrogação. (Foto: Divulgação)

Mãe de cinco filhos, a diarista Edinalva dos Santos Macedo, 39 anos, ainda não sabe como vai sobreviver sem o auxílio emergencial. Ela faz parte do grupo de cerca de 67 milhões de brasileiros que deixaram de receber o benefício a partir de janeiro. Moradora da Comunidade Pantanal, no Jardim das Flores, em Piracicaba, a diarista conta hoje apenas com os R$ 440 recebidos por meio do Bolsa Família. “Trabalhava em uma casa, mas perdi o emprego durante a pandemia. A situação aqui está cada dia mais difícil. Agora sem o auxílio, não sei o que vou fazer. Só de aluguel pago R$ 350”, declara.

O auxílio emergencial foi criado para minimizar os impactos econômicos da pandemia do novo coronavírus. Embora haja pressão para manter o benefício, até o momento, o governo federal não anunciou uma nova prorrogação.

Assim como a diarista, o pedreiro Elton Aparecido Morales, 35 anos, ainda não conseguiu achar uma fonte de renda para substituir o auxílio emergencial. “Tenho procurado serviço, mas está difícil. Ás vezes consigo fazer um bico, mas está ruim demais”, desabafou. Ele mora com a mulher e quatro filhos na Comunidade Frederico, no Bosque dos Lenheiros. “Tenho filho pequeno, gasto com fralda, leite. E só não falta comida porque recebemos uma ajuda mensal com alimentação da Bia [Beatriz Turettra, uma das administradoras do Grupo Libras de Piracicaba e Região]”, afirma.

Criado em 2019 com o intuito de fortalecer a comunidade surda, o Grupo Libras tem distribuído máscaras e cestas básicas para as famílias carentes assistidas por eles. “Todas as doações são muito bem-vindas, especialmente agora que muitos dos atendidos tiveram o auxílio cortado pelo governo”, diz Beatriz.

As primeiras parcelas do benefício foram pagas em abril, mas há pessoas que só conseguiram liberar o auxílio ou fizeram a solicitação posteriormente. Reportagem do Jornal de Piracicaba revelou, em setembro passado, que um em cada quatro moradores do município havia recebido ao menos uma parcela de R$ 600 do auxílio. Eram mais de 100 mil beneficiários, o que corresponde a 27,48% da população de Piracicaba.

Com a suspensão do benefício, a idealizadora do projeto Exército de Formiguinhas, Débora Ferraz, viu os pedidos de cestas básicas e kits de higiene saltarem de seis para 15 diariamente. “Nós atendemos muitas famílias em situação de vulnerabilidade social e estou sentindo na pele o impacto do fim do auxílio. As doações caíram muito e os pedidos [de ajuda] aumentaram demais. É muito triste”, declara. Além de agravar a situação das famílias que até então recebiam o benefício, o fim do auxílio, em um momento em que o país vê crescer o número de casos e mortes por covid-19, pode ser desastroso para a economia, afirma Eliane Rosandiski, professora de Economia da PUC Campinas.

“O auxílio emergencial foi com certeza um programa protetivo da renda muito poderoso e acertado para o enfrentamento da crise econômica provocada pelas medidas de distanciamento social. O benefício de R$ 600 apresenta um efeito multiplicador importante, visto que garante demanda para o comércio. Ou seja, ao garantir um mínimo de vendas, assegura a continuidade de certas atividades econômicas”, explica.

De acordo com a professora, a possibilidade de paralisação desse fluxo seria complicada, uma vez que a economia estava num nível baixo de demanda – suportado parcialmente pelo auxílio. “A retirada do benefício, numa segunda onda, será mais desastrosa ainda. Por isso, o governo federal estuda a retomada do auxílio, porém, num valor mais baixo. Pode até ser um alento, mas perde força para cumprir o papel de assegurar aquele mínimo de demanda. E, consequentemente, sem demanda, menos vendas, menor produção e provavelmente mais desemprego”.

Para o presidente da Acipi (Associação Comercial e Industrial de Piracicaba), Luiz Carlos Furtuoso, o auxílio foi fundamental para movimentar o comércio. “Aqueles que estavam sem renda, conseguiram recursos para se alimentar, para atender as necessidades básicas. E se conseguirmos manter essa ajuda emergencial, sem dúvida nenhuma, aqueceremos a economia”, afirma.

BENEFÍCIO

As primeiras parcelas do auxílio foram de R$ 600 (podendo chegar a R$ 1,2 mil por família). A partir de setembro, houve a extensão do benefício em até quatro parcelas, mas com valor reduzido de R$ 300 (R$ 600 para famílias com direito a duas cotas). O auxílio foi pago a trabalhadores informais, microempreendedores individuais, autônomos e desempregados.

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