Combate ao abuso e exploração sexual (parte 1/4)

O dia 18 de maio já passou, mas a questão do abuso sexual é complexa e costuma atravessar meses, anos, gerações. Hoje trago aos leitores desta minha coluna um assunto antigo, banal para alguns, mas infelizmente, muitíssimo atual: o abuso sexual. Gosto e me preocupo em trazer informações corretas e baseadas em informações científicas, principalmente no que tange à sexualidade humana, que é uma das minhas especialidades como psicoterapeuta sexual e de casais. Para discorrer sobre o tema de hoje fui beber numa reflexão da psicóloga Patrícia Leekninh Paione Grinfeld, só para citar algumas dentre tantas qualificações, é pós-graduada em psicoterapia de casal e família e em psicanálise na perinatalidade e parentalidade, sócia-fundadora da Ninguém Cresce Sozinho, plataforma de cuidados em saúde mental que ajuda famílias e empresas nos desafios relacionados à parentalidade e à primeira infância. Selecionei alguns trechos da maravilhosa e séria reflexão que ela fez. Acompanhem:

“Quando li Infância de retalhos, no blog Padecendo no Paraíso, encantei-me com a franqueza com que a mulher que o escreveu relata sua história pessoal de abuso sexual sofrido e silenciado por tantos anos – quase a metade de sua infância! Em cada linha, seu rico testemunho apresenta os meandros de uma trama comum e recorrente em diversas famílias, inclusive nas tradicionais, ‘perfeitinhas’ e abastadas, mas que é mantida em segredo, às vezes, por anos a fio.

Como naquele texto, refiro-me aqui aos repetidos abusos sexuais intrafamiliar. Neles, o segredo é mantido porque é muito difícil para uma criança entender algo que é da ordem da angústia, do medo, da incompreensão, do desconforto e, ao mesmo tempo, do prazer – ainda mais quando esses sentimentos envolvem uma pessoa que assume diferentes papéis, como tio querido e abusador. Não importa se criança ou adulto, a manipulação genital, por mais que seja agressiva ou aversiva, é também prazerosa. Além disso, pelo menos num primeiro momento, a fantasia de ser escolhido e, por consequência, ter um lugar preferencial na vida de alguém, contribui para dificultar a denúncia logo que os abusos se iniciam: ‘Será que vale à pena interromper estes carinhos, brincadeiras ou atenção?’. A dúvida paralisa.

No meio desse paradoxo, algumas crianças tentam contar o que vivenciam, muito mais porque não conseguem compreender o que acontece com elas e seus sentimentos (especialmente as crianças menores), do que por uma questão moral (que surge conforme as crianças crescem e os sentimentos de culpa e vergonha ganham forma). Nebuloso como muitos sonhos, o abuso sexual parece sem sentido, ruim e bom, da ordem do consciente e do inconsciente. Não é por acaso que um bom tanto de crianças tenta relatar aos adultos o abuso sofrido como se tivessem tido um pesadelo.

Denunciar explicitamente um abuso implica em ter que vencer o temor da repreensão. Como muitas crianças têm a fantasia de terem provocado a situação de abuso, preferem o sofrimento do silêncio ao sofrimento de uma suposta retaliação (isso se agrava nas famílias com histórico de pouco diálogo e/ou muita violência).

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