Como fazer a criançada de hoje ler livros?

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Armando Alexandre dos Santos

(*) Doutor na área de Filosofia e Letras, membro do Círculo Monárquico de Piracicaba e do IHGP.

Essa é uma pergunta que se fazem, a todo momento, pais zelosos e professores de Língua Portuguesa empenhados na verdadeira formação dos seus alunos. Respondo que o primeiro passo é fazer o aluno de nossos dias perder o medo do livro…

A literatura infantil de Monteiro Lobato, escrita ainda na primeira metade do século passado, era perfeitamente adequada às mentalidades infantis do seu tempo. Pode, ainda hoje, ser um bom início. As aventuras de Pedrinho, de Narizinho, da boneca Emília, do sapientíssimo Visconde de Sabugosa, da Tia Nastácia com seus bolinhos de carne que seduziram o Minotauro de Creta (até hoje, quando como almôndegas bem feitas, lembro disso…), todas essas coisas fascinaram e, apesar de tanto tempo decorrido, ainda fascinam.

O professor pode, por exemplo, explicar um pouco quem foi Lobato, contar sua vida, seus sonhos utópicos, suas ingenuidades, sua falta de senso prático e de negócios, suas desilusões, e realçar como ele encontrou, na literatura infantil, uma forma de tentar melhorar um mundo que ele julgava errado, mas não conseguia fazer mudar.

A partir daí, fica mais clara a “chave” para entender seus livros. E o professor pode pôr a classe inteira à procura das “mensagens” escondidas, às vezes quase subliminarmente, nos livros de Lobato. Se o professor conseguir fazer os alunos entenderem isso e os colocar como detetives mirins, à caça de “mensagens” e ensinamentos, será muito bem-sucedido na sua tarefa. Terá conseguido inocular nos alunos o vírus benfazejo da leitura…

Numa fase posterior, o professor pode despertar o senso crítico dos alunos. Pode mostrar como o pensamento de Lobato não é verdade absoluta, mas deve ser analisado e criticado, inclusive à luz da experiência adquirida ao longo do tempo decorrido depois de sua morte. Pode mostrar que Lobato falava para o tempo dele, um tempo muito diferente do atual e ainda acreditava em utopias políticas que hoje sabemos serem ilusórias. Os problemas de fundo, é claro, eram os mesmos de hoje, são problemas permanentes, mas naquele tempo se revestiam de formas diferentes de hoje, as perspectivas eram outras, os critérios eram outros.

A partir dessa consideração, se abrem para os alunos dois campos de reflexão muito interessantes e fecundos. Em primeiro lugar, ensinar a eles como é útil, prazeroso e enriquecedor compreender e reviver uma outra época, com outra cultura, outra mentalidade. E, em segundo lugar, fazer com que compreendam como vale a pena habituar-se a trazer o passado para o presente, a atualizar os problemas e repensar as soluções. Em outras palavras: se Lobato vivesse hoje, com os problemas e as preocupações de hoje, como ele escreveria? O que ele modificaria no seu modo de pensar e escrever? Como transportar a mentalidade, por exemplo, de uma Dona Benta, do seu sítio cercado por fazendas de coronéis, para um ambiente urbano de nossos dias? Desafiar os alunos, por exemplo, a se reunirem em grupo e elaborarem um trabalho (que pode ser inicialmente oral, e mais tarde pode até ser por escrito) sobre como Lobato, se vivesse hoje, falaria da poluição das cidades, da violência, dos problemas ambientais. Imagine-se, por exemplo, os netos de Dona Benta fazendo, com o “Pó número dois”, uma viagem no tempo para 2011, e depois retornando ao Sítio do Pica-pau Amarelo e explicando à avó o que é e como funciona, por exemplo, um computador ou um smartphone.

Vê-se, assim, que a partir de uma leitura bem conduzida, pode-se levar uma turma de alunos muito jovens a exercícios que, sem perderem seu caráter lúdico e de entretenimento, podem formar e amadurecer seus espíritos.

Evidentemente, as reações dos alunos serão muito diversificadas. Alguns acompanharão o processo com mais entusiasmo do que outros. Aos que se destacarem mais pelo interesse, cabe ao professor orientar à parte nas suas leituras, de acordo com suas preferências e propensões. Cabe-lhe indicar leituras, sugerir temas etc.

Pode propor, conforme a turma, tarefas específicas criativas e originais. Por exemplo, mandar que procurem conversar, nas suas famílias, com pessoas de mais de 40 anos e perguntem o que leram quando eram estudantes, do que gostavam, quais seus livros e autores preferidos, que leituras mais marcaram suas vidas. E depois pedir que os meninos relatem o que apuraram, comentem em comum etc.

Na fartíssima literatura paradidática, produzida quase industrialmente pelas grandes editoras que disputam o mercado atual, a par de muito lixo (perdão pela franqueza…) e muita mediocridade, sem dúvida também há obras de valor. Cabe ao professor garimpar essas obras e apresentá-las aos alunos.

Não queria omitir um autor que considero excelente para despertar o gosto pela leitura: Malba Tahan. O clássico “O homem que calculava” é livro que atrai quase imediatamente qualquer pessoa, ainda que não tenha o hábito nem o gosto da leitura.

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