“A consequência máxima para a personalidade culposa é a de que a mesma não possui a menor noção de seus ‘direitos’ afetivos, pessoais e sociais. Sua vida é uma tortuosa espera da autorização do outro para minimizar sua angústia. Embora pareça o contrário, a raiz da culpa visa evitar a dor no sentido profundo, pois o suposto sofrimento que a contenção coloca é uma espécie de anteparo a uma posterior sensação de catástrofe pessoal. O ser culpado, em síntese, teme o erro como uma espécie de reprovação completa de sua existência. Sendo assim, a culpa é um mecanismo de defesa para afastar a dor citada. A psicoterapia passa a ser fundamental no intuito de fazer com que a pessoa sinta e descubra seus temores mais secretos.

A culpa talvez seja o sentimento que mais ressalta um dos maiores valores históricos e filosóficos cultivados pela raça humana: a liberdade – no verdadeiro sentido da palavra, que infelizmente para a personalidade culposa depende sempre da autorização do outro.

Talvez a parte mais nefasta da culpa seja quando esta nos liga a determinada pessoa, sendo que se sabe que o amor de um determinado relacionamento já não existe há muito tempo, restando apenas o sentimento de dívida (débito de gratidão).

Se refletirmos historicamente, no passado o prazer era uma fonte proibida de se tocar; já em nossos tempos podemos experimentar de tudo, mas parece que a proibição ainda permanece, seja no vazio de nossa vida diária, ou o tédio a que somos constantemente submetidos. A culpa se insere neste contexto, principalmente quando devemos algo. A questão central é o fato de que em nenhuma outra era da história da humanidade, a probabilidade de sermos infelizes atingiu seu ápice como em nossos tempos. E paralelo a este processo, a necessidade da anestesia via drogas ou qualquer mecanismo de fuga também atingiu o pico.

Nosso cotidiano é dominado essencialmente pelo medo: da pobreza, exclusão em todos os níveis, fraco desempenho, e principalmente comparação com outras pessoas. Todos estamos mais do que mergulhados neste processo. Um dos sentimentos que mais se acentua é o desamparo perante nossa autoimagem. A culpa se torna sob esta ótica uma espécie de solidariedade com a exclusão do íntimo e potencial pessoal.

O mecanismo da culpa está totalmente interligado à reprodução de um modelo pretérito familiar, sendo que em determinado momento da vida de uma pessoa, há uma espécie de disparo de algo automático que faz com que o indivíduo se obrigue a viver a mesma história ou conflitos de seus familiares. Tal compreensão é fundamental para a descoberta da gênese da culpa, pois se descobrirá que o poder do inconsciente não está a favor de uma mudança, mas tão somente da necessidade de copiar literalmente determinado modelo. A obrigação de ser igual é uma tarefa essencial da culpa.

O sentido da vida é construído diariamente: para o culpado é o adiamento diário da arte de viver.

O culpado necessita (na terapia) trabalhar a fundo e descobrir como está vivendo numa espécie de lugar errado, pois a limitação cria um tipo de estranhamento psíquico (inconsciente), tolhendo por completo o campo de visão da pessoa. A culpa tem como função básica a manutenção eterna de determinada problemática causando constantemente sofrimento.

A culpa passa a ser um tipo de guia turístico que leva o indivíduo ao mais profundo inferno da mente humana, fazendo com que jamais abra mão daquilo que realmente lhe traz dor e sofrimento”.

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