Conversando sobre depressão

Hoje conversamos com a querida Dra. Ana Lúcia Stipp Paterniani, médica psiquiatra, sobre depressão. Segundo ela “esse transtorno ainda é cercado de muitos mitos e tabus. A depressão consiste em uma patologia que afeta todas as idades, classes sociais e ainda se estuda as causas que desencadeiam os sintomas. Acreditam, as correntes mais modernas, que se deva a uma somatória de diversas causas (genéticas, eventos adversos na infância, estresse na vida adulta) que desencadeiam a doença e o surgimento dos sintomas. Observamos que a incidência da depressão vem aumentando porque a doença está mais conhecida e/ou pelo estresse da vida moderna. Ainda não existem exames laboratoriais e o diagnóstico é clínico, feito através de uma boa consulta com o especialista. Sabemos que existem alterações dos neurotransmissores e os antidepressivos corrigem esses desequilíbrios melhorando os sintomas. Reconhecer e tratar adequadamente essa doença é de suma importância por ser uma doença altamente incapacitante e com altas taxas de morbidade e mortalidade.

Estamos acostumados a associar depressão com ‘tristeza’ e este pode ser um sintoma importante. Mas não uma tristeza comum, e sim, uma tristeza imensa e prolongada e por vezes sem motivo aparente. O humor pode estar alterado para o lado da irritabilidade também. E por vezes a depressão aparece com outras queixas que não as alterações do humor. Podem aparecer queixas físicas, somáticas, orgânicas, como alterações do sono e apetite e dores que não se explicam por outras causas. Outro sintoma muito comum é o desânimo, a falta de energia/alegria que o paciente sente até para realizar as atividades normalmente prazerosas. A disfunção cognitiva (alteração de atenção, concentração, lapsos de memória, esquecimentos) também aparece como sintoma incapacitante e impede o paciente de exercer suas atividades profissionais, portanto, a depressão é uma das causas mais frequentes de afastamento do trabalho. Além de tudo isso, o paciente depressivo costuma apresentar co-morbidades devido ao seu perfil e estilo de vida (fumo, abuso de álcool e/ou drogas, sedentarismo, alimentação inadequada).

O suicídio se encontra como o sintoma mais grave, quase sempre se apresenta precedido de tentativa contra a própria vida ou sinais e avisos, que devem sempre ser valorizados e entendidos como um pedido de ajuda e de socorro do paciente. A medicina tem avançado muito e cabe ao especialista fazer uma avaliação cuidadosa e propor um tratamento individualizado às necessidades e especificidades de cada pessoa. O tratamento pode incluir medicação, psicoterapia, técnicas de neuromodulação ou uma combinação de outras técnicas e terapias, conforme cada caso em questão. Sonho com o dia em que as pessoas se habituem a ir ao psiquiatra para fazer o seu ‘checkup’ anual preventivo de saúde mental!

Finalizo com um pequeno texto do meu querido Rubem Alves: ‘A ostra, para fazer uma pérola, precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer. Ostras felizes não fazem pérolas. Pessoas felizes não sentem a necessidade de criar. O ato criador, seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída. Por vezes a dor aparece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade’.

Cabe a nós, profissionais da área da saúde mental, ajudar os nossos pacientes a fazer a transformação de suas dores em pérolas… e através desse processo criativo restabelecer a sua cura interior”.

 

 

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