Da Esalq para o Governo Federal

Diretor da Fealq, Sérgio De Zen, assume cargo de assessor direto da ministra Tereza Cristina, no Mapa. (Foto: Claudinho Coradini/JP)

Nascido em Tatuí (SP), mas piracicabano de coração, Sérgio De Zen, 53, veio a Piracicaba aos 21 anos para estudar engenharia agronômica, na Esalq/USP. Aqui, logo no início de sua formação, desenvolveu carreira profissional e de bolsista acadêmico. No ano passado, chegou ao cargo de diretor-presidente da Fealq (Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz), função que ocupa desde o início de 2019.

Agora, seu novo desafio será no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). A convite da própria ministra Tereza Cristina, De Zen assume, a partir de janeiro do ano que vem, o cargo de assessor direto da executiva no governo federal.

Criado na fazenda, em sua trajetória, De Zen já tem contribuído com melhorias na produtividade do campo brasileiro. Ele herdou essa dedicação do avô, imigrante italiano que sempre levou para as terras da família inovações desenvolvidas, inclusive, pela própria Esalq. Foi por isso também que escolheu a universidade como sua segunda casa.

Pela descendência italiana, De Zen sempre teve uma forte convivência em família, que para ele é a peça essencial na construção de uma vida bem-sucedida e equilibrada. É católico, mas os dogmas estão para ele apenas na religião. Em outros campos, como na vida acadêmica e na política, prevalessem o conhecimento técnico e, acima de tudo, a ética.

Especialista em gestão financeira de propriedades agropecuárias e nos mercados de proteína animal (boi, suína, frango, leite e ovos), uma das suas principais contribuições foi a criação do Indicador do Boi, em parceria com a Bolsa Brasileira (atual B3), para o balizamento das operações financeiras do mercado de boi gordo.

Na seção Persona de hoje, você conhece mais sobre Sérgio De Zen.

Pode nos contar um pouco da sua história de vida, seus pais, sua família?

Meu pai é o Ugo De Zen, nascido no norte da Itália, minha mãe é Brígida lúcia Gallina De Zen, nascida em Tatuí. Meu pai é falecido e minha mãe tem 81 anos e mora comigo. Estou no segundo relacionamento, minha esposa é Vanessa Prezotto, piracicabana, e tenho um filho, o nome dele é Maicon De Zen, de 21 anos.

Qual é sua cidade natal e quando veio morar em Piracicaba?

Sou nascido e criado em Tatuí (SP). Meu pai é italiano, veio para o Brasil em 1951, e o pai da minha mãe também era italiano. É Camargo Barros a família da minha avó, creio que bastante conhecida.

Eu vivi dentro da fazenda praticamente até os 20 anos, quando passei na Esalq e vim para Piracicaba. Acho que isso me moldou dentro da agricultura, sei o que é produzir. Eu tinha muito uma visão do meu avô, que era o patriarca da família. Ele sempre teve uma noção de controle das contas, do sistema produtivo, sempre foi inovador e procurava levar coisas da Esalq [para a fazenda]. Por isso que eu acabei enveredando por esse caminho.

Eu mudei para Piracicaba quando passei no vestibular em fevereiro de 1987. Morei o primeiro semestre na “casa do estudante”. No segundo, morei numa pensão, até que eu fui para uma república no terceiro ano.

Quais foram os bairros que o senhor morou aqui?

Na própria Escola de Agronomia, depois no centro – no final da Rua Governador Pedro de Toledo, depois no Bairro Alto. Quando me formei, eu fui morar na Vila Monteiro e, então, no São Dimas.

Qual é a importância da família para o senhor?

Olha, eu venho de uma família de italianos. Para o italiano, a família é tudo. Eu acho que a gente tem necessidade de ter família, de um convívio familiar. Eu gosto, valorizo.

Infelizmente, o meu primeiro casamento não deu certo – acho que não é culpa nem minha nem dela, é dos dois, e isso realmente marca a gente com uma sensação de fracasso. Mas, depois disso, eu vivi outras experiências e, atualmente, estou bastante feliz com a Vanessa e acredito que a constituição de uma família é essencial para a gente ter estabilidade.

Para que que a gente vai trabalhar, aprender, se você não tem uma família para compartilhar? Você ter vontade de voltar para sua casa é fundamental para todo mundo.

Eu sempre vivi muito em família. Meu avó sempre fez questão de ter todos os netos por perto. Eu fui muito afortunado de conviver com meu avô, com a minha avó, tios, primos, somos uma família que foi muito unida nesse sentido. Lógico, hoje um está aqui, outro está lá. Mas são afastamentos por questões da vida.

Como foi sua trajetória acadêmica e profissional?

No último ano [da graduação], eu tive a chance de fazer estágio em uma corretora. Era como um “e.t.” lá, porque era um agrônomo dentro de uma corretora de valores. Foi um período legal, que eu aprendi e, como naquele momento era a fusão da Bolsa de Mercadorias de São Paulo e a Bolsa Mercantil Futuros, que deu origem à Bolsa de Mercadorias de São Paulo, tive a chance de participar de todo desenho dessa parte agrícola como estagiário.

Eles me deram a tarefa de voltar para a universidade para trazer indicadores que liquidassem os mercados. E o primeiro deles foi o mercado futuro de boi. Eu participei ativamente desses processos de construção desses indicadores.

Foram 27 anos que fiquei à frente do indicador do boi. E ele talvez seja um dos produtos da universidade que mais influenciaram a vida dos agricultores.

Foi nessa trilha que eu conheci a ministra [Tereza Cristina] e que conheci outras muitas pessoas do agro.

Além do indicador do boi, eu participei de muitos indicadores. Hoje, eu tenho especialidade nos mercados de leite, de suínos, de aves, ovos. Não estou mais na liderança do indicador do boi, mas isso me deu a oportunidade de conhecer o Brasil e o mundo.

Participei de projetos na FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), no Banco Mundial, na Amazônia, Tailândia, Vietnã, Filipinas, África do Sul.

Em 2010, o departamento de Estado me deu uma bolsa para conhecer o sistema de pesquisa dos Estados Unidos. Foi uma oportunidade única de visitar várias universidades e centros de pesquisas. Morei durante quatro meses em Washington, no projeto da FAO, e fiquei no IFCN Dairy Research Center.

Foram muitas experiências que acumulei ao longo da vida. Fui muitas vezes ao ZEF,, que é um centro de pesquisa que fica em Barsinghausen, na Alemanha, que coordena o sistema de comparação entre produtividade das fazendas do mundo todo. Até hoje sou membro.

Há um mês, participei de uma reunião do International Meeting Secretary (IMS), que reúne pesquisadores e formadores de opinião do mercado de proteína animal no mundo.

Eu sou muito grato às oportunidades que Deus me deu de conhecer o Brasil, o mundo, pessoas. Isso é muito interessante. Por isso, eu encaro essa oportunidade no ministério como se fosse uma pós-graduação, uma espécie “pós-doc”.

Quais são os seus valores como cidadão e como profissional?

A primeira coisa é ética. Por exemplo, na Fealq, eu mexo com muitos recursos, mas isso não me pertence. Pertence aos colegas docentes, à universidade, é público. Então, quando a gente lida com o dinheiro público é mais difícil do que lidar com o próprio, porque toda decisão sua pode implicar em perdas para a sociedade, não para você apenas. Então a ética, para mim, é uma coisa fundamental.

As pessoas têm que ser humanas. A gente tem que saber que do outro lado tem um ser humano, em qualquer um dos níveis, ter tratamento igual. Seja a pessoa menos poderosa ou a mais poderosa, todos têm que ter igual respeito.

Quais valores levará da Esalq para o Ministério da Agricultura?

Eu sou filho de produtores, vivi até meus 20 anos dentro de uma propriedade rural, vim estudar na Esalq, fui aluno da rede pública de ensino, morei na casa do estudante, dependi da universidade em muitos pontos, iniciei os estágios na Esalq no segundo ano, comecei muito cedo dentro da Fealq.

Então, para mim, é muito interessante, porque eu passei toda a minha vida trabalhando dentro da Esalq, dentro da Fealq, e hoje me tornei presidente. Por isso, abandonar a Fealq nesse momento doeu muito do ponto de vista de que cheguei lá para fazer uma série de mudanças dentro da instituição… eu tenho uma paixão natural.

Ao longo dos anos, me envolvi muito com a instituição. A Esalq muda os conceitos de vida das pessoas, de ser e de agir. É uma escola completa em muitos aspectos. Ninguém sai da Esalq sem ter mudado nada. Todo mundo muda.

E o que o senhor leva da permanência aqui na Esalq?

O maior ensinamento que levo da Esalq é a abertura para o mundo. Volto a repetir, conceitos de ética, correção, o apego pelo técnico em detrimento pelo ideológico.

Embora eu seja uma pessoa religiosa, acho que na religião eu aceito dogmas, mas no restante da vida, não. Eu me julgo uma pessoa católica. Mas o que eu aproveito do catolicismo? O lado humano. Acho que isso é fundamental para a gente levar para a vida.

Eu busquei, dentro da Fealq, humanizar, criar um ambiente em que as pessoas tenham vontade de estar lá, porque a gente fica mais tempo no trabalho do que na casa, não é?

O senhor também se apaixonou por Piracicaba?

Eu me apaixonei bastante. Acho Piracicaba uma cidade fantástica. Gostaria de envelhecer aqui, viver até o fim dos meus dias. Tatuí teve uma parte importante? Teve, mas Piracicaba é uma cidade atrativa. É muito pujante, cheia de oportunidades.

Ela tem uma série de vantagens das grandes cidades e poucas desvantagens. Eu acho ainda que o que me seduz bastante é que não é uma cidade muito povoada por grandes favelas. É uma cidade que tem bastante classe média. As pessoas, na média, vivem melhor do que em outras cidades do mesmo porte. E você ter o equilíbrio entre receita, cultura e oportunidades é fundamental.

Quando não está trabalhando, o que gosta de fazer?

Eu gosto de cinema, de praticar esportes, uma conversa com amigos, de cozinhar, gosto de coisas desse tipo.

Qual é o seu filme favorito?

Vou falar aquilo que vem à mente, de bate-pronto. “A vida é bela”. Acho que isso é fundamental, a gente dá tudo para os filhos, inclusive a vida.

O seu lugar favorito em Piracicaba?

Ah, eu ia dizer a Esalq, né? (risos) Embora eu acho que Piracicaba é uma cidade que é profícua em lugares bons, como a Rua do Porto, a Esalq, são tantos lugares! Monte Alegre! – super lugar bucólico e legal. Acho que é muito interessante.

Em relação a cozinhar, o que te leva a criar na cozinha?

Ah! Todo italiano é moldado na cozinha. Numa casa de italiano, o lugar onde mais se para é na cozinha. Então, o gosto de combinar os sabores, paladares, a vida é muito legal. Não que eu seja profissional. Jamais! Mas eu faço coisas que eu via minha mãe, minhas tias… Procuro reproduzir e dar um toque. Meu pai também fazia, meu avô…

Lembro dos domingo, que íamos à missa de manhã e meu avô ficava na casa da minha avó fazendo o almoço. Quando ela voltava para terminar o almoço, ele pegava os netos e levava nadar no clube, saía fazer alguma atividade com a gente.

Então eu via que o ato de cozinhar não é um ato feminino. É um ato que pode ser prazeroso. E, para mim, é uma delícia abrir uma garrafa de vinho, começar a cozinhar e ficar conversando com a minha esposa.

Para cuidar da saúde, o que faz?

Hoje eu também tomei muito gosto pela atividade física, não para moldar o corpo, mas para moldar a alma. Para você ter longevidade e equilíbrio.

E quais são as suas expectativas para o futuro?

Bom, o futuro é aprender. Conseguir aprender, não frustrar a confiança da ministra, nesse caso. Porque é uma confiança enorme, é uma relação de mais de 20 anos e é poder devolver ao país alguma coisa de bom. Eu acho que é assim: o meu sonho é poder ir, aprender coisas e voltar para dar uma aula com mais conhecimento de causa. Isso seria uma das coisas mais legais.

Como o senhor avalia, a partir de agora, o cenário político do país?

Eu acho que toda mudança é bem-vinda. A gente tem que experimentar. A beleza da democracia é justamente isso. É a gente ter a oportunidade de ver várias coisas acontecendo de várias formas. Toda vez que você tenta se perpetuar no poder está errado. Então acho que é interessante… o presidente [Jair Bolsonaro] é um cara que fala simples e fala o que vem na cabeça. Pode ser… mas é interessante ter essa possibilidade. A gente já teve um presidente ultraintelectual, um presidente metalúrgico, uma presidente, um outro que era um artífice político. Agora, temos um presidente que fala o que pensa. Cada um tem a sua beleza.

Temos que analisar que o Brasil, como instituição, está cada dia mais forte. Temos as instituições mais arraigadas. Essa questão da Lava-Jato e tudo mais fez com que as pessoas acreditassem nas instituições.

A gente pode criticar o supremo, o Congresso, mas eles representam a sociedade. Os defeitos que encontramos na sociedade, nas pequenas coisas, estão reproduzidos nas grandes. A gente tem que melhorar como sociedade para o país melhorar, não há milagre.

O senhor já participou de pareceres em comissões técnicas no Congresso e no Senado. Com isso, considera ter boas relações com esses órgãos?

Eu não sou político, sou técnico. Já tive a oportunidade de representar tecnicamente em comissões, expor aquilo que eu sei, como a minha especialidade é a comercialização da proteína animal. Minha vida foi feita em cima disso, desses indicadores. Então, já fui ao Congresso por conta disso. A última foi representando a Esalq no Senado com relação à questão da ciência e tecnologia na agricultura. Foi uma oportunidade muito interessante de mostrar o que temos de pesquisa na Esalq para os senhores senadores, que vão definir o destino do país, mas não tenho vivência política nenhuma, vou lá para aprender, literalmente.

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