Da gripe espanhola ao coronavírus: Piracicaba chega aos 253 anos

Ao longo de seus mais de dois séculos e meio, seu povo enfrentou e venceu várias crises na área da Saúde.

Piracicaba chega hoje aos 253 anos em meio a uma pandemia que tem prejudicado atividades econômicas, submetido boa parte da população a medidas de isolamento e pressionado os sistemas público e privado de saúde. Escolas foram fechadas, eventos culturais cancelados e todos os setores, de alguma forma, tiveram de se adaptar a uma nova realidade. Embora os números atuais de mortos e de pessoas infectadas pelo novo coronavírus sejam alarmantes, essa não é a primeira vez que a cidade sofre os efeitos de síndromes respiratórias que se espalharam pelo mundo.

Há 102 anos, quando Piracicaba contava com uma população de 55 mil habitantes, a gripe espanhola atingiu 4.178 pessoas, conforme informações disponíveis no arquivo da câmara de vereadores. Entre 22 de outubro e 26 de dezembro de 1918, o obituário no Registro Civil acusou 88 mortes pela doença. Já no século 21, a cidade novamente foi atingida por uma pandemia causada pelo vírus influenza. Então conhecida como gripe suína, a Influenza A (H1N1), primeiramente identificada no México, em março de 2009, causou a morte de três piracicabanos até setembro daquele mesmo ano, quando haviam sido confirmados 32 casos no município. Apesar da descoberta da vacina, a H1N1 continuou fazendo vítimas em Piracicaba, provocando mais 20 mortes desde 2015, conforme dados da Secretaria Municipal de Saúde.

Embora a gripe suína tenha sido considerada uma pandemia pela OMS (Organização Mundial de Saúde), a taxa de mortalidade foi de apenas 0,026%. Já para a covid-19, essa taxa ainda não é certa, mas estudos apontam para algo entre 0,5% e 1%. Na melhor das hipóteses, portanto, o novo coronavírus é 20 vezes mais letal que a gripe suína.

“As epidemias acompanham a história da humanidade. Pestes e grandes crises sanitárias foram descritas desde a antiguidade, com grande impacto na organização da vida em cada época e na sobrevivência das comunidades”, afirma Maria Rita Donalisio Cordeiro, médica epidemiologista da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). No século 20, a maior delas, segundo a epidemiologista, foi a gripe espanhola, disseminando-se a partir das trincheiras da primeira Guerra Mundial. “Sem medicamentos e sem vacina, como nos dias atuais contra o coronavírus, as principais medidas contra a doença foram o distanciamento social, o uso de máscaras, a proibição de eventos públicos e teatros”, compara.

Para o infectologista Arnaldo Gouveia Junior, responsável pelo Comitê Covid-19 do HFC (Hospital dos Fornecedores de Cana) de Piracicaba, a gravidade da pandemia pelo novo coronavírus se situa entre a da “gripe suína”, que foi problemática para os sistemas de saúde, mas não causou colapso, e o da gripe espanhola, que teve dimensões catastróficas.

Coronavírus – Os coronavírus são conhecidos desde 1960, com circulação em animais, sendo que alguns tipos são capazes de saltar a barreira entre espécies e provocar doenças em humanos, como ocorreu com a Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave) e a Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio). “A Mers ocorreu na Península Arábica, região com densidade populacional muito menor que a Ásia. No caso da Sars, que também começou na China, esse início se deu em cidades bem menores, diferente da covid-19, que teve os primeiros casos em Wuhan, uma província de 11 milhões de habitantes”, explica o infectologista Ivan França, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. Além disso, de acordo com o médico, a covid-19 encontrou um mundo ainda mais globalizado, o que facilita a rápida transmissão para outros continentes.

E é justamente por conta das altas taxas de transmissão e letalidade da doença que as medidas de isolamento social, o uso de máscaras e a prática de higiene das mãos são necessárias. Nas páginas a seguir, moradores e instituições de Piracicaba contam como têm se reinventado diante da pandemia e o que esperam para o futuro.

Ana Carolina Leal

Especial para o JP