Vivi experiência que me trouxe, de volta, espaço já conhecido. Dando cursos para professores, aqui e lá, voltei a Saltinho. Comigo, o mais novo de meus netos, José Antonio, pleno de juventude e vigor. Tempo bom, aquele. Trabalhava em diferentes escolas como exige de nós, professores, a sobrevivência, e passava madrugadas preparando aulas, lendo e relendo textos. Não sentia, no entanto, cansaço como o de hoje. O sol, no ocaso, perde o brilho, mas esparrama cor a seu redor. Ao sol, o tempo não lhe causa mal algum.

Ao sairmos em busca de experiência que se junta a tantas outras, mas tem sabor de nova ao repetir-se, o garoto manifestou seu entusiasmo com a vida ao vislumbrar a madrugada entrecoberta. Seguimos. Fazia muito frio e havia névoa. O sol acenava com a timidez própria dele nestes tempos.

Conversa ágil, contava-me dos diferentes cursos que faz procurando aprimorar talento e dons. Uma frase e outra, deixava entrever, na fala, o bem que lhe emprestava a natureza. E me fazia orgulhoso dele ao vê-lo traçar a vida com correção e entusiasmo.

Neste horário há sempre um galo e outro ajeitando os fios de sol que põem fim à madrugada. A neblina densa embaçava o olhar, sugerindo, na intensa beleza, uma ideia vaga do mistério. Que lindo isso! proclamou sua alma carregada de emoção.

A manhã despertava nos trajeto do rio de Piracicaba. Cenário deslumbrante. Como soube João Cabral tecer amanhã no poema. Comentei, para garantir-lhe que um galo só não tece a manhã. Vai-se entretendo com outros galos até que a manhã se erga em tecido, apresentando o dia.

Contei-lhe, então, que na minha distante juventude, era este o caminho que fazia diariamente para ensinar os alunos que se aventuravam, em Saltinho, na escola estadual. Trocávamos saberes. Como? Eu lhes revelava a beleza da língua, o encantamento e a verdade da literatura e eles, a vida. Jamais imaginei voltar aí para contar a professores, experiências de ensinar.
Na rota de Tietê, já próximos de Saltinho, entre palmeiras esguias, ipês floridos e árvores adultas, os lagos que dão vida à paisagem onde, na noite anterior, por certo, brilhou a lua inteira porque alta vive”, sopravam a neblina abrindo espaço para o sol.

Não supunha como se desenharia a manhã ao atender convite do diretor de Educação da cidade, para trazer comigo informações recolhidas de leituras, de estudos e anos e anos de prática pedagógica.

Um grupo grande de educadores me recebeu em elegante silêncio. Ao final, feliz, pude observar, na reação deles, o que teria deixado e o quanto recebera de cada um.
A palavra adequada do prefeito evidenciou, em mim, tudo o que fiz e sei sobre política. Assim mesmo, com iniciais maiúsculas. Não esta que nos chama para uma conversa, sem acenar, jamais, com resposta, como se o assunto fosse qualquer, sem direito a nada.

No caminho de volta, o que leva consigo meu nome dando-me especial alegria por isso, fez as observações que desejava ouvir, ao confessar-me que ficara tão emocionado quanto os professores, com o que ouvira e aprendera. Que se impressionara com o acertado pronunciamento de Carlos Lisi, o prefeito, ao abrir os trabalhos, e imaginava minha alegria ao encontrar entre tantos, ex-alunos meus.

De repente, no correr dos dias, Deus cria motivos para perceber que é pouca a gratidão demonstrada em relação à vida e lembra ser possível acreditar no sol, no ocaso e no amanhecer, com igual entusiasmo.

 

(David Chagas)

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