Foto: Amanda Vieira/JP

Diego Spigolon tem 37 anos, é filho de Otávio José Spigolon e Antônia Maria Gomes Ferreira Spigolon, mais conhecida como “Tó”, casado com a carateca Natalia Brozulatto Spigolon, e pai do Nikolas Brozulatto Spigolon, de 4 anos de idade e da Betina Brozulatto Spigolon, de dois anos. Além da família, Diego tem outras responsabilidades, entre elas a de coordenador técnico da Seleção Brasileira de Karatê, que se prepara para as Olímpiadas de Tóquio em 2021 (adiadas em razão da pandemia de covid-19), sendo a primeira delegação brasileira na história da modalidade nos jogos olímpicos. Uma responsabilidade grande, na qual Diego, o entrevistado do Persona desta semana, conversou com o Jornal de Piracicaba a respeito.

Como foi o seu começo no karatê? É uma modalidade que você prática desde que era criança?
Pratico karatê desde os 5 anos de idade, então já faz 32 anos que pratico essa modalidade. Fui incentivado principalmente pelo meu pai, já que ele foi meu professor de karatê, portanto aprendi com ele e acompanho karatê desde que me conheço por gente. Desde que era novinho já ia para as competições, acompanhava os treinos, já que meu pai é um dos precursores do karatê em Piracicaba, começando a modalidade há muitos anos. Ele lecionou karatê durante quase 30 anos no Clube de Regatas Palmeiras (Palmeirão) e o acompanhava nas aulas.

Uma outra curiosidade é que tenho um irmão (Danilo), que é três anos mais novo e á praticava karatê quando ele tinha entre 5 a 6 anos e já estava sendo motivado a praticar. Mas ele falou que só começaria se a minha mãe entrasse também e foi nesta ideia que ela começou junto com o meu irmão alguns anos depois. Me tornei faixa de karatê em 1998, quando tinha 15 anos e foi ao lado da minha mãe e pegamos a faixa juntos.

O karatê faz parte da minha vida desde que nasci e se galguei esse caminho pelo esporte, devo tudo isso aos meus pais.

Já chegou a praticar outras modalidades?
Pratiquei jiu-jitsu durante alguns anos na minha própria academia, a Sport Way, já que treinamos a modalidade por vários anos lá, com o professor Felipe Vidal, que foi meu mestre e com o qual cheguei até a faixa roxa. Treinei boxe, com o professor Marcos Ribeiro, o Marquinhos, no qual assim como o Vidal tenho o máximo de carinho e respeito. O Marquinhos também deu aulas na Sport Way e agora está a frente do Centro de Treinamento MR. Treinei muay thai por um período, com o professor Wilson Teodoro, que também deu aulas na Sport Way. Também tive uma experiência com o MMA (Artes Marciais Mistas).

Sempre fui ligado as lutas, na qual sem dúvida alguma me agregaram conhecimento na vida e sou grato a todas essas pessoas que em algum momento me deram essa contribuição. É muito legal começarmos algo novo, já que passar da posição de professor para aluno é sempre algo bacana.

Quando você se tornou técnico da Seleção Brasileira de Karatê e como foi essa experiência?
Desde 2009, 2010, ainda jovem, mas já a frente do karatê na Sport Way, comecei a desenvolver um trabalho em paralelo com as nossas aulas convencionais de karatê aqui, visando o auto rendimento. Foi assim que identificamos algumas potencialidades, atletas que tinha talento, mas vontade de seguir mais a sério a modalidade. Então comecei a fazer um trabalho extra em um horário a parte. E deste grupo começamos a ter um excelente resultado. A princípio a nível estadual, como campeões paulistas e depois a nível nacional. Se não me engano no ano de 2013 tivemos 10 atletas em Piracicaba dirigidos por mim que foram campeões brasileiros e realmente começamos a ter uma relevância muito bacana a nível nacional, colocando atletas na Seleção Brasileira de Karatê. Foi nesse momento que a Natalia (Brozulatto) estava em uma fase muito boa, o Hernaní Veríssimo, um dos atletas mais renomados da cidade. Eles depositaram toda a confiança em mim e, juntos, realmente galgamos um caminho muito bacana.

O professor Gilson Felipe, que é daqui de Piracicaba, também depositou uma grande confiança em mim para treinar seus dois filhos, na qual buscando cada vez mais chegar fortes na competição. Assim eles também participavam desse treinamento. O filho dele, Fred Felipe, o Fredinho, foi campeão pan-americano na época e tudo isso me impulsionou a nível nacional.

Em 2014, durante uma seletiva para a Seleção em Teresópolis-RJ, o diretor técnico da Confederação Brasileira me chamou para uma conversa no começo do ano e me fez esse convite. Falaram que o meu trabalho estava sendo muito bom, razão da Federação para me chamar. Ainda não estava definido se era para a adulta ou a de base, ra dependendo da demanda. Meu primeiro evento foi um Campeonato Sul-Americano no Peru e assim em diante participei de diversos eventos. Em 2017 houve uma mudança da comissão técnica e foi alterada algumas circunstâncias dentro da comissão e nesse ano assumi como coordenador técnico da Seleção Feminina, na qual exerci até a metade de 2020, no momento em que fui chamado para ser estar a frente da Seleção Brasileira Adulta masculina e feminina.

Quais os principais desafios como técnico?
São inúmeros os desafios, a começar pelo desafio de estarmos em constante atualização, seja sob o ponto de visto técnico, tático, sobre o porquê não da preparação física de uma forma geral. Mas um desafio grande é colocar todos os personagens que compõem uma seleção nacional em harmonia como a comissão técnica, que vão desde os treinadores até os preparadores físicos, aos fisioterapeutas. Fazer com que os treinadores dos clubes, que estão no dia a dia com os atletas, se sintam valorizados, já que eles são os grandes responsáveis pela ascensão dos atletas. Então tentamos fazer todas essas engrenagens girando de uma forma harmônica e também os atletas confiantes e motivados, fazendo com que eles, com o passar do tempo, confiem no nosso trabalho. Esses são os principais desafios para levar os atletas ao lugar mais alto do cenário internacional.

Quais os principais desafios como coordenador técnico?
Para mim foi um motivo de uma grande honra e satisfação, por ver toda a minha dedicação e abdicação de algumas coisas, até da família algumas vezes do convívio com os amigos ao longo de toda a minha trajetória. Ver que realmente valeu a pena, ter esse reconhecimento internacional é algo muito bacana. Não é uma satisfação só minha, mas de toda a minha família, que construiu tudo isso comigo.

Também é um senso muito grande de responsabilidade, ijá que sei da importância do cargo, sei que não é algo simples, não é fácil, é realmente um grande desafio, ainda mais se tratando do primeiro ciclo olímpico do Karatê, já que mesmo apesar de ser um esporte milenar entrou para as Olimpíadas após os Jogos do Rio 2016. Sei da responsabilidade e esperança de toda uma nação apaixonada e que depositam muito fé no trabalho que está sendo desenvolvido pela confederação, por mim, por esses atletas, que estão frente de suas categorias. È uma grande responsabilidade como dito antes, mas sei que com um trabalho sério conseguiremos nossos objetivos.

Em razão de sua mulher (Natália) ser uma carateca e representar o Brasil frequentemente, você sente que algumas atletas acham que ela é beneficiada de alguma forma? Como você faz para provar que o relacionamento de vocês como técnico e competidora e diferente em relação ao de marido e esposa?
Hoje, pelo simples fato da Seleção de Karatê em seu regulamento de formação de seleção, não existe critérios de convocação por índice técnico ou por convocação do técnico ou treinador. Basicamente são dois caminhos de entrada na seleção adulta. O primeiro é por meio do ranking nacional, na qual existe uma lista de competições oficiais, nacionais e internacionais, cada um com seu peso, na qual traz classificação de acordo com suas respectivas pontuações e os atletas que conquistarem a maior pontuação no ano, serão os atletas titulares da Seleção no ano seguinte.

O segundo é que no inicio do ano, acontece uma seletiva nacional, na qual os atletas lutam até uma fase em que os melhores fazem um rodízio todos contra todos, na qual o vencedor é o segundo titular da categoria. Portanto a Seleção Brasileira consiste em categorias de peso, tanto no masculino, quanto no feminino, portanto a Natalia não tem influência alguma minha no fato de estar na seleção de karatê.

Desde antes da criação do ranking em 2013, antes mesmo da minha entrada na comissão técnica, ela mantém a liderança da categoria dela, portanto sempre liderando a categoria e, por consequência, na Seleção Brasileira. Isso só mudou de 2018 devido a gestação dela, na qual ela ficou o ano todo sem competir, assim voltou em agosto e, mesmo assim, terminou na vice-liderança, não fechando 2018 na liderança nacional por pouco. Em 2019 ele voltou a competir e voltou a liderança do ranking, portanto em 2020 ela é a primeira titular da Seleção.

Esses critérios protegem qualquer especulação ou apontamento desta minha relação com a Natalia e tudo mais. É uma forma meritocrática que a Confederação idealizou como sendo a mais ideal dos atletas representarem a Seleção Brasileira.

Na sua visão, como o karatê foi prejudicado pela pandemia?
Em relação a pandemia, para os leitores que não conhecem ou não estão atualizados sobre os critérios de classificação para as Olímpiadas, nós tivemos uma bateria de mais de 15 competições desde setembro de 2018 ao início de 2020. Foram uma série de competições como campeonato mundial, continental, etapas da Liga Mundial. Eventos de alto nível. Em março encerramos a etapa da Liga Mundial em Dubai (Emirados Árabes), portanto teríamos mais uma competição válida para a classificação olímpica, que seria em Rabat, em Marrocos, e naquele momento tínhamos um atleta na posição do ranking olímpico no qual, naquele momento, se fechasse o ranking, ele estaria nos Jogos Olímpicos.

Com a pandemia a etapa de Marrocos foi cancelada. Depois de algumas semanas, a Federação Mundial disse que, em razão deste cancelamento, a lista de seleção de atletas seria aquela antes da etapa de Rabat, portanto teríamos um atleta classificado, que é o Vinicius Figueira, na categoria -67kg. Para nós foi algo positivo, já que teríamos garantindo um atleta lá e teríamos mais um evento, que é o torneio classificatório, último oportunidade de classificação para os Jogos, em que os demais atletas buscariam suas vagas. Depois da alteração dos Jogos para 2021, esse comunicado foi suspenso e a etapa de Rabat acontecerá no início do ano que vem, portanto o Vinicius, que estava classificado, terá que passar por esse torneio.

Essa foi a influência da pandemia sobre nós, além do karatê, assim como todas as modalidades esportivas foram paradas, e estamos vendo as associações e confederações com dificuldades financeiras por conta disso. As academias sentiam bastante, os atletas que tiveram que adaptar seus treinamentos. Foi inevitável que houve um destreinamento no período, mas não é algo exclusivo do karatê, já que todas passaram. Espero que isso nunca mais aconteça.

Mauro Adamoli

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