Dimensões do perdão

O perdão é tão importante na vida de todos que, além da dimensão psicológica, alcança os preceitos religiosos de todos os tempos. Perdoar faz parte da convivência, pois, em nossa atual condição humana, o convívio pode levar a situações de conflitos, as quais, para serem resolvidas, requerem o perdão.
O exercício do perdão decorre do reconhecimento da falibilidade humana, além do que, mesmo sem a intenção de fazê-lo, muitas vezes se pode ofender ou prejudicar outrem.
As instruções religiosas recomendam perdoar sempre e incondicionalmente, e o indivíduo que perdoa automaticamente se liberta de ligações com aspectos mais densos e desequilibrados de outros seres e dos relacionamentos. Ao perdoar, desvincula-se de quaisquer energias de teor negativo, prosseguindo livre na jornada existencial.
Quando não perdoamos, revelamos uma mente intransigente e intolerante, um coração endurecido, uma sensibilidade embrutecida e uma personalidade egocêntrica e orgulhosa – justamente as características que devem ser superadas para o crescimento espiritual rumo à plenitude e felicidade; ao mesmo tempo, tornamo-nos escravos de mágoas, ressentimentos e rancores, que intoxicam a vida.
Quando se compreende que perdoar é a mais sábia, proveitosa e econômica opção, evitando desgastes e sofrimentos desnecessários, elege-se essa conduta salutar. No mesmo sentido, o perdoar a si mesmo é tão necessário quanto o perdão aos demais, quando nos permitimos o direito de errar e de corrigir eventuais equívocos.
Nossa necessidade de perdoar é proporcional ao quanto nos sentimos ofendidos, o que, por sua parte, depende do tamanho do nosso orgulho. Se fôssemos mais humildes, amorosos e desapegados, não nos sentiríamos tão afetados como nos ocorre habitualmente. À medida que se progride no autoconhecimento, na purificação do caráter e no despertar espiritual, diminui a necessidade do perdão. Quando o ego – a parte mais superficial e material do ser, incluindo emoções e pensamentos – limita-se apenas ao necessário a uma saudável vida de relações, reduz-se a vulnerabilidade às atitudes alheias. Quem se encontra consciente da própria realidade espiritual e nela vive, dá pouca importância às opiniões alheias, ofensas e julgamentos desfavoráveis provindos dos outros, pois obedece aos ditames da própria consciência e vive na paz que não depende de fatores externos. Claro que ainda estamos distantes de tal estado de harmonia e estabilidade, motivo pelo qual necessitamos exercitar o perdão diariamente, como ferramenta terapêutica para nós mesmos e os demais. Quando não conseguimos experimentar o perdão, podemos recorrer à ajuda terapêutica de profissionais habilitados, os quais, pela capacitação técnica, experiência e olhar desapegado, podem nos auxiliar a desvencilharmo-nos das amarras do ressentimento, mágoa, inconformação ou rebeldia em que possamos estar aprisionados.
Perdoar pode ser concebido como o libertar-se de qualquer desejo de vingança, da necessidade de reparação ou de desculpa por parte do suposto agressor, bem como um atestado de fé na vida, de certeza de que tudo obedece a desígnios superiores que visam ao aperfeiçoamento de todos mediante as experiências do convívio. Quem perdoa sincera e incondicionalmente, além de amor e grandeza de alma, demonstra possuir sabedoria, ao se poupar a desgastes inúteis, à perpetuação de conflitos e a expectativas de receber o que o outro, por enquanto, não está apto a oferecer. Perdoar é, pois, libertar e libertar-se.

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