Dois grandes arquitetos. Uma grande obra

Sempre gostei de dizer seu nome. Sugere notas musicais. É como se ainda pudesse dedilhar ao piano acordes que me revelassem a sensação de luz que seu nome revela.Veja se não: repetir por vezes este nome, com música, vira toada; recitando, é poema breve: Bardi. Nome./ O bardo, nele, entende sua história./ Lina./ Poema e canção./ Bo Bardi/ Criação./Construção.

Quando estive com ela, olhava admirado e sentia que se agigantava diante de mim, tanto talento. Já trazia comigo esta impressão ao assistir, no teatro, a Ubu Rei. Maravilhado com o cenário, pude conhecer Polochon, porquinho rosa de duas cabeças, icônico personagem criado por ela, em papel machê, deslizando no palco entre os demais personagens.

Que privilégio aquele. Ver apresentação pública da peça mais comentada do momento, mergulhar num texto difícil e hermético e melhor compreender graças ao cenário concebido por esta genial arquiteta. Ali, tocado por isso, senti quão privilegiada sua inteligência, seu talento incomum, sua capacidade em fazer a correta leitura do texto de Alfred Jarry, oferecendo aos espectadores a oportunidade de entender de forma mais abrangente as leituras que fez.

“Abrangente e interdisciplinar, Lina Bo Bardi extrapola os campos da arquitetura e do urbanismo. Estrangeira, compreende a cultura brasileira pelo olhar antropológico, particularmente atento para a convergência entre vanguarda estética e tradição popular.”

Em tudo seu, o rastro da combinação do racionalismo estético convidando a refletir sobre a dimensão “nacional-popular” da cultura, em especial da cultura brasileira, onde reconhece haver excessiva abundância desta matéria prima.

Professor de Literatura, não houve um só ano de meu magistério que deixei de oferecer aos alunos a oportunidade de estar na capital vivendo a vida cultural da cidade para descobrirem gênios como ela, quer estando com eles, quer conhecendo suas obras. Esta era a concepção de Educação que me norteava,num momento em que as escolas respiravam ardorosamente os resquícios da ditadura e se voltavam inteiramente para as ciências exatas, fazendo delas princípio e fim da vida escolar, roubando do estudante o seu melhor, o livre pensar.

Passados anos deste trabalho, revisito o passado e sinto quanto mais se poderia ter feito, mas sou feliz por ter, ao menos, despertado naqueles jovens a necessidade de alimentar o espírito com arte nas mais diferentes manifestações do espírito humano.

Se lhes conto quanta coisa me chega de  ex-alunos, em especial daqueles que se interessavam por esta visão humanista de Educação, pode parecer utópico. Nesta semana, por exemplo, em meio a manifestações destas, Zeuler Rocha Lima, de ilustre família piracicabana, que, com relativa insistência me presenteia com seus feitos, permitindo ver arte até mesmo na gota de chuva sobre as folhas nos jardins de St. Louis, cidade onde vive nos Estados Unidos, me conta que lança, em maio, livro sobre Lina Bo Bardi, com o selo da Companhia das Letras, privilégio de poucos.

Já havia acompanhado à distância exposição sobre a vida e a arte da arquiteta feita em diferentes sítios, também por ele. Aprendi ainda mais desta extraordinária, corajosa e perspicaz mulher brasileira.

Agora, Zeuler, sensível, brilhante, mergulhou fundo na vida e na obra de Lina Bo Bardi para trazer, em quase quinhentas páginas, o resultado de mais de vinte anos de pesquisa dando a todos conhecer a vida e a personalidade fascinante de quem, ao chegar, entendeu estar num país onde tudo era possível.

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