Douglas Ribeiro Simões: Professor, músico e contador de história

O professor Douglas Ribeiro Simões, natural da interiorana Pindorama, é hoje um ilustre cidadão piracicabano, um homem com grandes feitos na educação e na cultura. É formado em matemática com graduação e pós-graduação na área de exatas, um dos criadores da banda musical “Falando da Vida” e o criador do personagem Nhô Chico, que conta histórias todas as manhãs, por volta das 6h30, na Rádio Educativa FM, no programa “Café com Viola”, do Bill Jr.

Douglas, você é uma personalidade conhecida em Piracicaba tanto na área da música, como da cultura e educação. Desde pequeno, estas eram as suas maiores motivações para quando crescesse?
Credito essas motivações à influência dos meus pais, não por imposição da parte deles, mas pelo ambiente familiar que possibilitava o acesso à música e à leitura de bons livros. A primeira coisa que minha mãe fazia, ao acordar, era ligar o rádio e, a última, desligá-lo. Assim, escutávamos sempre muita música clássica, popular (brasileira, francesa, italiana, americana), instrumental, grandes orquestras, samba-jazz, bossa nova, música raiz, enfim, todos os estilos. O meu pai tocava bandolim e, por influência dele, escutávamos muitas valsas, muito choro (Luperce Miranda, Jacob do Bandolim). Ele tinha também uma biblioteca substanciosa com os grandes escritores clássicos da literatura nacional e universal.

Falando em infância, quais são as suas principais memórias?
Minha infância e juventude, em Pindorama, minha terra natal, foram muito ricas e marcantes e contribuíram muito positivamente para a formação da minha personalidade, meu caráter. Além dos estudos, muitas brincadeiras nas ruas compartilhadas com a criançada da vizinhança toda, muita música, muitas serenatas, shows e bailes. Só aos 29 anos (1978) é que me mudei para Piracicaba, vindo a receber, em 2013, o Título de Cidadão Piracicabano, tornando-me, assim, um “pindoracicabano”.

Você é o criador do personagem Nhô Chico, que conta histórias todas as manhãs, por volta das 6h30, na Rádio Educativa FM, no programa “Café com Viola”, do Bill Jr. Quem é esse personagem?
Nhô Chico é um personagem que, com uma linguagem simples, conta histórias, causos, e fala textos e mensagens. Sem fazer apologia de qualquer credo religioso ou tendência político-ideológica, procura refletir sobre a família, o trabalho, os filhos, a amizade, a saudade, a solidariedade, o amor, a vida, enfim, utilizando princípios básicos, fundamentais, invariantes, necessários para a preservação de todas relações humanas e sociais, como a liberdade, o respeito, a responsabilidade, a cooperação e a solidariedade.

Suas memórias da infância/juventude o ajudaram a criar esse personagem, essas histórias?
Certamente! Naquela época, cidade e campo eram muito próximos e a gente vivia também pelos sítios e fazendas dos arredores, bebendo e respirando o universo do homem simples, do caipira que, pelo seu contato direto com a natureza, conhece muito bem a teia da vida, seus ciclos, suas estações, seus ritmos de plantação, colheita, chuva e estiagem. É essa memória e sabedoria do homem do campo de ver, de conhecer e de sentir o mundo que procuro sempre manter nas histórias, para falar dos temas e assuntos atuais.

É você quem escreve as histórias, os causos, os textos?
Alguns, sim, são de autoria própria; outros, adaptados da internet, dos livros e outros, ainda, são adaptações de textos de autores consagrados, como Carlos Drummond de Andrade, Érico e Fernando Veríssimo, Cora Coralina, Exupèry, Kahlil Gibran, Catullo da Paixão Cearense, Bráulio Bessa, do piracicabano Cecílio Elias Neto e outros.

Por meio desse personagem, além do estímulo à reflexão, você realiza ainda trabalho solidário, a exemplo da campanha mais recente em prol da Santa Casa. Como surgiu essa ideia e qual foi o resultado?
Para responder a essa pergunta, vou fazer um pequeno histórico. O personagem foi criado em 2010/2011 e, desde aquela época, conto com a companhia, cooperação e valioso trabalho do companheiro Bill Jr., da Rádio Educativa, onde gravamos e divulgamos as histórias. Durante esse tempo, nós gravamos 5 CDs (um por ano), com tiragem de 1000 exemplares cada um, cuja renda total (R$ 50.000,00) foi destinada a 5 Instituições Assistenciais de Piracicaba: Associação de Parkinson, APAE, Lar Betel, Espaço Pipa e Lar dos Velhinhos. Depois, por causa da crise econômica, suspendemos o projeto e agora, com a pandemia do Coronavírus, fizemos uma campanha, em novo formato, em prol da Santa Casa.

E, como foi realizada esta campanha?
Como as mídias de hoje são diferentes, contatamos a Neurônio Adicional (Agência de Marketing) que, prontamente, se solidarizou conosco e viabilizou uma crouwfunding (popular “vaquinha”) com o objetivo de arrecadarmos fundos para a Santa Casa atender às suas necessidades atuais com a compra de materiais e medicamentos como máscara cirúrgica, álcool em gel, aventais impermeáveis, luvas descartáveis e testes rápidos para a covid-19. A campanha encerrou-se no dia 10 deste mês, arrecadando mais de R$ 9.000,00, e todos os que contribuíram (com qualquer quantia) receberam um link para baixar as “100 Histórias Selecionadas do Nhô Chico”.

Você também é cantor e compositor. Como está sua carreira musical e o que, desta trajetória, lhe dá mais alegria?
Não me considero um cantor, apenas um compositor que procura, através das músicas, expressar o amor e o agradecimento às pessoas e à vida. Participei de 8 festivais nacionais de música, conseguindo boas colocações em todos eles. No entanto, dois deles me deram muita alegria.

O primeiro foi em 2003, no I Festival “Viola de Todos os Cantos”, promovido pela Globo-EPTV, com a canção “Riacho da Saudade” e letra do saudoso e querido cururueiro piracicabano Nhô Serra que, dentre as 1800 canções inscritas, de 15 estados, conquistou o 2º lugar na categoria raiz. Essa conquista, realmente, foi muito especial! O outro festival foi em 2014, em Tatuí, com a canção “Cantiga Pra Mariana”, conquistando o 4º lugar, Aclamação Popular e prêmio de Melhor Intérprete para a Julia Simões.

Tem como a gente escutar essas músicas?
Sim, no meu canal do Youtube, estas e outras 18 músicas podem ser ouvidas/vistas bastando, para tanto, acessar lá: Douglas Simões.

A música é um elo importante com seu irmão Newman Simões, não?
O Newman é uma das pessoas mais importantes na minha vida! Além de muito inteligente é bastante sensível e solidário! Ele produziu e dirigiu os shows “Falando da Vida” por 30 anos, todos com renda destinada às mais variadas Instituições Assistenciais de Piracicaba e região, sendo que uma delas possibilitou a reforma total de um quarto do SUS da Santa Casa!

Douglas, há quanto tempo está na Educação? Em quais cargos já esteve neste setor?
Iniciei minha carreira no Magistério Público em 1972, como professor de Matemática. Em 1978, quando me mudei para Piracicaba, além de lecionar Matemática no CLQ (Colégio Luiz de Queiroz), fui Coordenador Pedagógico do Nível 2, até 2010. A partir de então, venho desempenhando a função de Coordenador do Canto do Livre Querer.

O que é o Canto do Livre Querer? Qual é o seu objetivo?
É o departamento que cuida das atividades e trabalhos solidários/voluntários. O nome surgiu da relação com as iniciais do CLQ para ressaltar as palavras “livre” e “querer”, características básicas desse tipo de trabalho. Seu objetivo maior é o de estimular e incluir a sensibilidade solidária na dinâmica do desejo dos alunos tornando a solidariedade um “objeto de desejo”, uma “necessidade vital”, fundamental para o próprio ato de aprender, conhecer, viver e ser. Com isso, o CLQ colabora na formação global, integral dos educandos, auxiliando-os a fazerem frente a um dos maiores desafios vividos na atualidade: encontrar um sentido maior para a vida!

Como se desenvolvem as atividades?
Para estimular a sensibilidade solidária, o “Canto” utiliza várias estratégias: ações de sensibilização, campanhas de arrecadação/doação, trabalhos solidários incorporados aos vários projetos existentes (Projetos Vida, Gincanas, Projeto Átopos, “Maker”, oficinas e outros), bem como trabalhos voluntários em instituições assistenciais, durante uma hora e meia, uma vez por semana por, pelo menos, três meses no Lar Betel, Lar dos Velhinhos, Centro de Reabilitação, Brinquedoteca do Hospital da Unimed, além da Creche SOS (Santa Bárbara), Asilo João Kuhl Filho (Limeira), Associação Santa Rita (Capivari) e, não fosse a pandemia, iniciaríamos o trabalho na Creche São Vicente de Paulo. Para tanto, já estavam inscritos 93 alunos dos 9ºs, 1ºs e 2ºs anos do ensino Médio.

O educar de hoje, claro, é diferente do educar de antes. Por que acha que mudou tanto a relação aluno/escola?
Realmente, a nova relação aluno/escola, a nova forma de educar vai, naturalmente, se modificando para acompanhar as mudanças impactantes da tecnologia, da inclusão das redes sociais, não só na Escola mas na sociedade como um todo. Se a Escola se limitar apenas a aceitar as inovações, a simplesmente passar informações, a Internet faz-lhe grande concorrência. Mas, se ela se preocupar em incluir em seu projeto pedagógico a sensibilidade solidária ancorada na liberdade, responsabilidade, respeito e cooperação; em dar um sentido humano às informações, aos conhecimentos, não conheço alguma instituição que possa substituí-la à altura. Em outras palavras, a Escola será tanto mais rica quando oferecer aos alunos não só os meios para adquirir as habilidades/competências, mas oportunidades para que eles encontrem um “para que” viver, um sentido maior para a vida! Eis a importância maior do Canto do Livre Querer no processo educativo do CLQ.

Nesse sentido, as histórias do Nhô Chico podem, então, ser utilizadas positivamente na educação?
Sem dúvida, porque, como já disse, sem qualquer apologia religiosa ou política, as histórias do Nhô Chico se propõem como reflexões simples em torno de temas universais. Elas possibilitam, assim, que as crianças e os jovens ouvintes, tanto na família como na Escola, entrem em contato com princípios básicos de vida, invariantes, em qualquer sociedade. Recebo muitos comentários de pais, de avós, de professores que usam as histórias para dialogarem a respeito da liberdade, responsabilidade, do respeito, da cooperação, da solidariedade. Eles notam o quanto os jovens se interessam pelas histórias.

Finalmente, Douglas, neste momento único, qual seria a mensagem sua e a do Nhô Chico, para confortar Piracicaba em tempos da Covid-19?
A pandemia está nos mostrando e perguntando muito mais sobre nós do que a doença em si, ou seja: como realmente somos? como estamos vivendo? quais são, realmente, os nossos valores? e, qual o sentido maior que devemos dar à nossa vida? Para encontrarmos respostas a essas perguntas, façamos da verdade, da beleza, da bondade e do amor solidário os ideais a nortearem nossos passos nos caminhos da vida! E, nesse caminhar, tenhamos muita esperança e muita fé de que, se Deus quiser, a humanidade vai sair regenerada, mais empática, mais humana! Por isso, não deixemos nunca nossos sonhos “viuvarem-se de encantos”! Se hoje o caos violenta esses sonhos, vamos responder com mais sonhos! Ou, como escreveu o poeta Thiago de Mello: “Faz escuro mas eu canto!…”

Erick Tedesco