Durval Dourado dirige a Esalq sob dois olhares: tradição e inovação

Foto: Alessandro Maschio/JP

Durval Dourado Neto está na direção de uma das unidades mais importantes da USP (Universidade de São Paulo). Ele dirige a Esalq (Escola Superior de Agricultura) após a gestão de Luiz Gustavo Nussio. Com um pé na tradição e outro na inovação, Dourado fala sobre a sensação de estar à frente de uma instituição secular e quanto às principais preocupações no setor do agronegócio no cenário econômico brasileiro. Dentre as novidades, o destaque do diretor é o A5 Alliance, grupo das cinco melhores universidades do mundo na área de ciências agrárias do qual a escola me Piracicaba faz parte.

O diretor da Esalq se formou em Engenharia Agronômica na Universidade Federal de Viçosa, é mestre em Agronomia (Irrigação e Drenagem) e doutor em Agronomia (Solos e Nutrição de Plantas) pela Esalq/USP. Também coleciona outros títulos como pós-doutorado em física do solo e modelagem em agricultura na Universidade da Califórnia. Foi coordenador do Programa de Pós-Graduação em Fitotecnia e Chefe do Departamento de Produção Vegetal. Também é professor titular do Departamento de Produção Vegetal.

1) Quando assumiu, em janeiro de 2019, qual era sua expectativa quanto a sua gestão? Mudou algo agora?
A expectativa era a de atender da melhor forma às demandas da comunidade que nos elegeram, tentando manter o nível de excelência dos ex-diretores que nos precederam. Naquele momento, eu e meu vice-diretor, o professor João Roberto Spotti Lopes, idealizamos investir em uma modernização do Plano Acadêmico, avaliar a criação de um Planejamento Estratégico para a próxima década para potencializar a excelência almejada para melhor adequação do perfil do Profissional do Futuro. Além dos aspectos estratégicos acadêmicos, tivemos a percepção da necessidade de realizar obras no campus Luiz de Queiroz para solucionar problemas básicos de infraestrutura, como a rede lógica (internet), rede de água e rede de esgoto. Também dar continuidade e fortalecer as ações já existentes, como é o caso da Cátedra Luiz de Queiroz de Sistemas Agropecuários Integrados, que tem a finalidade de promover reflexões e atividades interdisciplinares, regional e globalmente, atendendo alguns objetivos previamente definidos pelos seus titulares, e a consolidação do A5 Alliance, que criou a aliança com as cinco melhores instituições de ensino de Ciências Agrárias do mundo: China Agricultural University, Wageningen University and Research, Cornell University e University of California-Davis. O Plano de Comunicação e Marketing da Esalq foi renovado com a criação e consolidação de uma nova marca, atualizada, mas, sem a perda de seus valores históricos originais, para atender novos conceitos gerados pelas mídias digitais. A Esalq tem de ser sempre um misto de tradição e inovação. Todo esse processo foi amplamente realizado de forma democrática com a consulta das diferentes comunidades que transitam em nosso campus, além da comunidade externa. Dentro dessa visão, pudemos atrelar o fortalecimento do projeto Parceiros da Esalq, fonte de recursos que apoiam expressivamente ações em nosso campus, buscando na iniciativa privada o suporte complementar para melhorias e crescimento de nossa Escola, a exemplo de rotinas adotadas por Universidades de excelência. Dentro da extensão, promovemos a reformulação do EsalqShow, fórum cujo objetivo estratégico é a aproximação com a sociedade, fomentando troca de conhecimento, reflexões e parcerias para atividades de pesquisa, inovação, empreendedorismo, extensão e desenvolvimento de políticas públicas. O segmento da cadeia produtiva com empresas e órgãos públicos e privados, expõem e divulgam as contribuições da Esalq/USP e seus projetos com parceiros externos nacionais e internacionais. O evento passará a ser bianual e com uma reformulação completa.

2) Em 2020, tudo mudou no Brasil com a pandemia. Como foi preparar a escola para um novo modelo de ensino e uso dos espaços?
Tivemos que nos readequar ao momento em que estamos passando com a pandemia do covid-19, as prioridades tiveram que ser revistas, pois, o principal foco passou a ser o de proporcionar aos nossos alunos ferramentas para que eles pudessem continuar a participar das aulas de forma remota, com o mínimo de prejuízo ao desempenho acadêmico. Assim, o corpo docente teve que se readaptar ao novo cenário. Consideramos que os eventos de pesquisa e extensão não foram tão prejudicados, porque conseguimos nos adaptar ao esquema de lives, que puderam dar andamento aos outros assuntos que são debatidos e estudados em nosso campus. Todos nossos eventos tradicionais foram mantidos de forma virtual.

3) Qual é a sensação de estar à frente de uma instituição com 120 anos e reconhecida mundialmente como exemplo nos estudos em ciências agrárias?
Preocupação de consolidar liderança nacional e internacional na área de ciências agrárias, bem como manter e criar novos processos e produtos, e preparar nossos acadêmicos no intuito de melhor atender as demandas da sociedade. Não devemos nos esquecer, entretanto, que nossa escola é uma referência em Ciências Agrárias, Ambientais, Biológicas e Sociais Aplicadas em sete Cursos de Graduação com perfis diferentes, além de mais dois cursos de Licenciatura. Temos também dezessete Programas de Pós-Graduação nos mais variados segmentos. Toda essa estrutura tem de estar coesa e priorizada para o sucesso uniforme da instituição.

4) Na sua análise, quais são os próximos desafios para a Esalq?
Um dos desafios é manter a Esalq/USP entre as melhores faculdades de Ciências Agrárias do mundo, trazendo à nossa instituição o compromisso de gerar reflexões e ações dentro dos temas relacionados ao desenvolvimento da sustentabilidade e suas aplicações com o ambiente e a sociedade. O contexto volátil dos tempos atuais demanda ações rápidas para correções nos perfis dos profissionais que pretendemos entregar ao mercado, sem deixar de priorizar um profissional de alto nível de competência, valores humanos, que ajudem a ampliar o universo da ciência e da tecnologia.

6) Quais são as parcerias de destaque firmadas pela Esalq na sua gestão? Cite, também, programas já implementados ou em planejamento para Piracicaba.
Nessa década, a Esalq/USP vem empreendendo esforços para contribuir com Políticas Públicas voltadas ao agronegócio, seja relacionado à agricultura familiar, médio produtor ou grande produtor rural. O êxito da atuação da Esalq na comunidade foi confirmado a partir do programa USP Municípios, que coordena o DESAFIO USP – Cidades Sustentáveis. Nessa ação, três projetos envolvendo nossos docentes foram contemplados para serem desenvolvidos no segundo semestre de 2021. Eles abrangem temas como gestão da arborização, a relação entre agricultores e consumidores e uso adequado da vegetação. Destaco também a criação de uma plataforma digital (aplicativo), personalizada, que atenda a mulher no momento da agressão, como uma forma de acolhimento, além de oferecer cursos de formação e divulgar vagas de trabalho e iniciativas empreendedoras. Esse é o objetivo maior do projeto DigNas, ação coordenada pela professora Heliani Berlato, do departamento de Economia, Administração e Sociologia da Esalq. Já em 2020, foi anunciada a criação de um importante Centro de Pesquisa na Esalq/USP, o SPARCBio (São Paulo Advanced Research Center for Biological Control). A iniciativa é uma parceria entre a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), e a Koppert Biological Systems e a Esalq. Estão previstos investimentos de R$ 40 milhões nos próximos anos, que terão como foco o desenvolvimento de um novo modelo de manejo, mais sustentável, de controle de pragas e doenças para a agricultura brasileira. Outro destaque é a instalação, neste ano, do Centro de Inovação para Agricultura China-Brasil, que apresenta as pesquisas bilaterais em agricultura tropical. Além disso, em 2022, os professores participarão de cursos com dupla diplomação para mestrado (Fitotecnia e Administração), em Beijing, China, oferecidos a alunos africanos, brasileiros e asiáticos.

7) Em relação ao agronegócio quais são suas principais preocupações atuais diante do cenário econômico brasileiro?
Ao completar 120 anos em 2021, a Esalq/USP figura entre as melhores escolas de ciências agrárias do mundo. O século 21 impõe ao mundo um grande desafio: como alimentar 10 bilhões de pessoas em 2050 e a universidade protagoniza, diante disso, papel fundamental no desenvolvimento de tecnologias que possam garantir a segurança alimentar do Brasil e do mundo. Valores de cidadania e sustentabilidade dão base para profissionais aptos a solucionarem demandas da sociedade de maneira a preservar nossos recursos e promover ganhos de produtividade. Assim, acreditamos que estamos contribuindo para alimentar uma população crescente com o emprego de tecnologias e conhecimento em prol de uma sociedade justa.

Cristiane Bonin
[email protected]

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