E agora, José?

Foto: Pexels

Ao fim, há que se aceitar ser, a vida, um jogo. Divertidíssimo para o inventor dele. Mas complicado aos jogadores. Quando se compreendem as regras, quando começam, elas, a ser entendidas, eis que o jogo acaba. Então, da arquibancada, um jogador aposentado pode falar aos frustrados jogadores mais jovens: “Eu não falei?”

Na realidade, estou, apenas, tentando refletir sobre o que tenho denominado de “a quase inútil experiência alheia”. Sabedoria e humildade são essenciais para aprendermos com a experiência dos outros. Mas estas costumam surgir apenas depois de coisas acontecidas. Sabedoria e humildade não estão no farto e variado cardápio dos jovens. Nem, também, nas pessoas em pleno vigor da vida. É como o canto das sereias, irresistível. Viver é aventura a ser vivida pessoalmente. Aprender dos e com os outros não faz parte do clamor dos hormônios, do fogo das paixões.

Lembro de meus pais, da casa paterna. Cada vez mais acredito termos sido não uma família, mas uma tribo. E a casa paterna não era uma taba, mas uma oca. Seis filhos, quatro genros, duas noras, nem sei contar quantos netos – a tribo tinha que se reunir todos os domingos, ao almoço. Era o caos, tal a diversidade de pensamentos, de opiniões entre aqueles queridos indígenas. Uma lembrança que me fica, a musical. Meus pais amavam a valsa, o tango; irmãs mais velhas, defendiam o bolero, o samba-canção; eu e o irmão, defensores da bossa nova; e os mais jovens, o ié, ié de Roberto Carlos. Impossível, pois, a conciliação.

Com o passar dos anos, meu pai – que sempre tinha um parecer próprio – começou a ficar em silêncio. Não participava, apenas ouvia. Perguntei-lhe, então, um dia, o motivo de ele não falar, de não participar. O nosso já idoso querido me olhou – ah! seus imensos olhos azuis – leve sorriso nos lábios, o furinho no queixo, falou: “Falar, para quê? Vocês sabem tudo.” Que suave ironia, que doce lição!

Para aprender com a experiência alheia é preciso haver sabedoria. E esta apenas desponta através da humildade. Deveríamos lembrar – penso eu, em especial nessa situação agônica – nos povos orientais. O porquê de serem mais pacientes, mais cautelosos e, portanto, mais sábios. Oriente é onde nasce a luz. Oriente de orientação, de orientar. Os antigos diziam ser, o leste, o caminho dos mortos, onde a terra – para eles, plana – terminava. Cair no abismo, ser absorvido pela noite. Assustadoramente, não seria nesse abismo, nessa noite tormentosa que mergulhamos, para onde fomos levados?

Estamos diante da morte anunciada. Os mais antigos, que conheciam o homem, já haviam alertado. Não porque adivinhassem. Mas por serem velhos. E, como se sabe, o próprio diabo entende de coisas não por ser diabo, mas por ser velho. A tragédia brasileira – agora revelada como criminosa pela CPI – não pode ser debitada apenas e tão somente ao homem colérico levado ao Planalto. Essa tragédia tem coautores, cúmplices, parceiros. São os que o elegeram. Os que o conheciam – com seu passado de conturbações – quiseram e querem o que ele espalha. São coerentes na apologia da crueldade. Os que votaram sem conhecer, ignorando em quem confiavam – esses são responsáveis por omissão e indiferença. Ora, quem entrega um filho aos cuidados de um desconhecido? Por que, então, entregar a um estranho um país, uma nação, um povo?

A CPI desmascara a grande farsa. O Brasil está em estado agônico. Recorro ao angustiado poema de Drummond:

“E agora, José” / A festa acabou, / A luz apagou, / O povo sumiu, / A noite esfriou, / E agora, José?”

José, José… Por que você não ouviu a morte anunciada?

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