‘É como um combustível para continuar as minhas atividades’

Formado em odontologia, Ricardo Della Coletta chamou bastante a atenção dos profissionais da área após ser o primeiro brasileiro a receber o título de Doutor Honoris Causa, concedido pela Faculdade de Medicina, da Universidade de Helsinque, na Finlândia. A cerimônia de entrega, realizada no dia 10 junho, ocorreu no the Great Hall of the University Collegium. Dentre os dez doutores que também receberam o título, Colleta foi o único representante da América Latina. Nascido em 22 de maio de 1972, em Limeira, Ricardo sempre teve o sonho de se tornar um dentista. Após ser aprovado no vestibular da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) se mudou para Piracicaba em 1991.

Como a grande maioria dos estudantes de odontologia, o profissional tinha o foco em desenvolver as atividades clássicas de atendimento aos pacientes, mas este sonho mudou após ser apresentado à disciplina de Patologia. Foi então que se apaixonou pela área de estudo das doenças de boca, entre elas, o câncer. Nesse período, a vontade se tornar professor universitário apenas ganhou mais forças após iniciar seus projetos de Iniciação Científica com o professor Sérgio Line, que também foi seu orientador na pós-graduação.

Ricardo Colleta considera a FOP (Faculdade de Odontologia de Piracicaba) como a sua casa, onde atua como professor titular do Departamento de Diagnóstico Oral desde 2017, no qual desenvolve atividades nos cursos de graduação e ministra aulas de patologia e genética – área no qual teve oportunidade de se especializar ao longo dos cursos de pós-graduação.

Como e quando começou a se interessar pela odontologia?

A odontologia sempre foi um sonho de infância. Lembro do meu dentista ser uma pessoa muito agradável, que tinha o habito de conversar muito e explicar cada passo do tratamento. Em uma das oportunidades, ainda sem muita convicção, mencionei a ele que gostaria de ser um dentista e sempre que eu lá retornava, ele me contava casos e me apresentava diferentes instrumentais odontológicos e isso foi alimentando o desejo de me tornar um dentista. No momento de escolher o meu curso superior, não tive dúvidas, me inscrevi no vestibular das três universidades paulistas para cursar odontologia, tendo o sucesso de ser aprovado em todos, em primeira chamada, mas escolhendo a FOP, por tudo que ela representa, e sempre representou no cenário nacional e internacional, para desenvolver minha graduação. Eu tinha o desejo de me tornar um ortodontista (a especialidade da odontologia que trata da oclusão-posição dos dentes), mas tudo mudou com o real conhecimento das diferentes atividades e oportunidades que a odontologia pode proporciona.

Há quanto tempo atua na FOP (Faculdade de Odontologia de Piracicaba)? Realiza projetos em parcerias com outras universidades?

Em um cenário bastante diferente do atual, fui contratado pela FOP em outubro de 1995. Ao longo destes quase 27 anos, tudo que conquistei na minha carreira é fruto das oportunidades que a FOP me proporcionou e uma coisa que descobri rapidamente na minha carreira é que a pesquisa, pelo menos a de alta qualidade, não se consegue fazer sozinho – as parcerias são essenciais. Tenho mantido colaborações científicas com pesquisadores nacionais e internacionais. Apenas como exemplos internacionais, meus colaboradores mais frequentes estão em países como a Finlândia, Inglaterra e Canadá. Também desenvolvo outra linha de pesquisa voltada aos estudos genéticos das fissuras orofaciais (aquelas áreas de não fusão do lábio-lábio leporino e do palato-goela de lobo) e temos uma rede nacional de colaboração com centros distribuídos em todo o Brasil, como em Salvador, Boa Vista, Cascavel, Bauru, Alfenas e Cuibá.

Como se sente em ser o primeiro professor brasileiro honrado a receber o título da Universidade de Helsinque? O quanto o título representa para você?

Não poderia estar mais feliz e isso funciona como um combustível (injeção de ânimo) para continuar as minhas atividades científicas. Para aqueles que conhecem a Universidade de Helsinque e a sua reputação de excelência e sabem da seriedade e do valor que é dado à ciência e a essa premiação, entendem que isso é um reconhecimento difícil de ser explicado. O título de Doutor Honoris Causa, representando a excelência e o reconhecimento de uma contribuição ímpar a uma determinada área do conhecimento, no meu caso o câncer oral, é alguma coisa por si extraordinária, mas pensando em ser o primeiro brasileiro, isso se torna ainda mais gratificante para mim. Historicamente apenas dois dentistas (um inglês e outro americano), antes de mim, haviam sido contemplados com tamanha honraria. É importante destacar que a honraria é oferecida pela Faculdade de Medicina, de uma das principais universidades no mundo, e a grande maioria dos homenageados desenvolve suas atividades em áreas mais abrangentes da saúde humana e em países desenvolvidos.

A escolha da entrega do título foi devido à sua colaboração com pesquisadores finlandeses e o desenvolvimento de projetos, certo?

O histórico de colaborações com pesquisadores finlandeses, particularmente com o grupo liderado pela Professora Tuula Salo, originalmente iniciada em 2010, foi fundamental, sem dúvidas. O sucesso da nossa colaboração, que espero se mantenha por muitos mais anos, depende de vários fatores, incluindo interesses comuns de pesquisa, atividades de trabalho que contam com diálogo constante, resiliência e capacidade de persistir diante dos desafios e, claro, amizade, respeito e admiração. O principal fator motivador é o prazer de entender algo novo e o desejo de mudar este cenário desfavorável que os pacientes afetados por câncer oral enfrentam.

Chegou a ver casos de pacientes que te chocou?

Somando o fato de ser um câncer bastante agressivo e de, infelizmente, a maioria dos pacientes com câncer oral no Brasil serem diagnosticados em estágios avançados, além de impressionar no momento do diagnóstico, a doença pode resultar, após o tratamento, em muitas sequelas funcionais e estéticas ao paciente, que também é chocante e muito indesejável. Este cenário não é simples de ser mudado, mas é possível e para isso tem que haver uma participação efetiva de todos os profissionais da saúde, desde o dentista que é importante no diagnóstico da doença, o médico que é responsável pelo tratamento, até os pesquisadores com a descoberta de novos marcadores capazes de separar tumores mais agressivos dos menos agressivos, havendo desta forma a possibilidade de oferecer o tratamento “ideal” ao paciente. Também precisamos de tratamentos novos e eficazes (medicamentos direcionados a alvos específicos- isso atualmente é chamado de targeted drugs e imunoterapia) com resultados mais previsíveis, de preferência em um contexto de tratamento personalizado (isso é o sonho para qualquer câncer). A cirurgia continua a ser o tratamento preferido para os cânceres orais, mas precisamos de menos operações mutilantes e mais terapias de preservação de tecidos.

Como podemos identificar os sintomas do câncer oral e preveni-lo? E quais são os tratamentos?

O câncer oral, na sua apresentação mais clássica, se manifesta como uma ulceração (ferida na boca) que não se cicatriza. Ainda neste contexto clássico, o perfil é de homens na faixa etária de 50 a 70 anos com longa história de tabagismo e consumo de bebidas alcoólicas. Estima-se que a combinação de tabagismo (no Brasil, cigarros) e consumo de bebidas alcoólicas (no Brasil, grandes quantidades e em alta frequência de cachaça) contribui para pelo menos 90% dos casos de câncer bucal. É papel importante de todos os dentistas e também de qualquer profissional de saúde informar os pacientes sobre os malefícios do tabaco e do consumo exagerado de bebidas alcoólicas na saúde como um todo, mas principalmente sobre o risco de desenvolver câncer bucal. Isso com certeza é importante para reduzir a incidência (prevenção primária) do tumor. No Brasil, as campanhas antitabagismo, iniciadas na década de 90, têm demonstrado resultados satisfatórios, resultando em uma redução na incidência de câncer oral entre homens e mulheres. Mas eu gostaria de chamar a atenção para os cigarros eletrônicos, que voltou a ser discutido nesta semana, com a confirmação pelos órgãos oficiais da proibição de comercialização no território nacional (embora seja encontrado facilmente no mercado local).

O tabagismo tradicional vem sendo substituído, em muitos casos, pelos cigarros eletrônicos (talvez contribua para a cessação do hábito de muitos fumantes), mas o que preocupa é muitos adolescentes e jovens vem fazendo uso (adquirindo esse vício) e ainda não entendemos completamente as consequências para a saúde desses novos dispositivos (ainda é muito novo).

Obviamente, as empresas responsáveis pela produção e comercialização afirmam que os cigarros eletrônicos não causam câncer, mas eles contêm vários produtos químicos causadores de câncer, incluindo compostos orgânicos, produtos químicos aromatizantes e formaldeído, entre muitos outros agentes perigosos. A verdade é que os efeitos a longo prazo desses dispositivos sobre o câncer ainda não são claros e, apenas com vários estudos e com o tempo, teremos um cenário assertivo. A afirmação que não são dispositivos cancerígenos deve ser tomada com muita cautela, e os pacientes devem estar cientes das possíveis consequências.

Fernanda Rizzi
[email protected]

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