E o chicote revela a pessoa

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Não adianta. Por mais se tente evitar, o fato é que, para onde for, cada um de nós carregará a sua própria história. Há uma lição – parece-me que da sabedoria árabe – ilustrativa: “se queres conhecer um homem, dê-lhe o chicote”. Ou seja: observe como ele exerce o poder. O homem bom, digno, não precisará usar o chicote. Será aceito, obedecido e, até mesmo, amado por seu comportamento justo, afável, simplesmente humano. Aquele que tiver graves problemas em sua história pessoal usará o chicote para agredir, para vingar-se, para externar ressentimentos contra ele próprio, contra o outro, contra a vida. Cada chicotada é manifestação de seus ódios pessoais. Esse é, então, o homem a quem não se pode dar o chicote, a quem se deve negar o poder.
O mundo está em trabalho de parto. É a geração de uma nova humanidade ainda desconhecida, mas com algumas previsibilidades. Muito do que tem sido deixará de ser. Ao mesmo tempo, muito do que foi poderá voltar a ser. A humanidade vive de ciclos. O final de um prenuncia o início de outro. E, quase sempre, trata-se de retorno, que deve ser entendido como renascimento. Na pessoa humana, espiritualmente, retornar é renascer, retomando princípios esquecidos ou perdidos. Nas sociedades dos homens, isso se repete. É o que Nietzche chamou de “eterno retorno”. O bom retorna sempre.
O Brasil está à deriva, desgovernado. E a causa e o resultado desse nosso naufrágio estão na democracia esfarrapada que, aos trambolhões, vimos construindo. Não nos enganemos, pois será trágico continuarmos mentindo para nós mesmos, confundindo o votar com o torcer no futebol. Junto às urnas, temos sido torcedores que assistem à disputa entre, por exemplo, Corinthians e Palmeiras. Que tudo se dane, que o mundo exploda – desde que o Corinthians vença o detestado adversário. Ou vice-versa. Odeio, detesto o PT, sem mesmo saber o porquê. Só sei que é PT. Portanto, votarei em qualquer um. Bolsonaro, quem é? Não importa. Odeio o PT e isso é tudo.
Lula? Aquele que o Obama disse ser “o cara”? Tá maluco, ô, meu? Lula é corrupto. Pois é. Nunca houve político corrupto num país de gente tão honesta, tão cristã. Por aqui, ninguém engana ninguém. Ninguém rouba nos preços, ninguém rouba no peso e nem no metro. Ninguém sonega impostos, ninguém tenta subornar o guarda de trânsito, ninguém “fura fila”. Ora, esta é a Terra da Santa Cruz, da Vera Cruz, o país do futuro, o celeiro do mundo, “minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá.”
Um prefeito insiste em se manter, indefinidamente, no cargo? Vote-se, pois, em qualquer um. E o desconhecido, quem é? Não interessa, o importante é derrotar o prefeito egoísta. E que a cidade se dane! Votar é como torcer no futebol. Antes de vencer, quero derrotar o adversário. Afinal de contas, estamos numa democracia e político “é tudo igual”. Que cada um cuide de sua vida e que tudo o mais vá às favas! Comunidade, o que é isso? Há pobreza, miséria? Não tem emprego, quem falou?
Piracicaba está, também, em trabalho de parto. O momento de caos é o de desespero por alguma perda e de perplexidade pelo que virá. É nessa grave hora que se pode perceber quem são os portadores do chicote, os homens do poder. Tudo mudou. Não há mais lugar para feitores. Governar uma cidade é, antes de mais nada, assistir um povo, servi-lo. Até hoje, dois prefeitos permanecem no coração de nossa gente: Samuel Neves e Salgot Castillon. O chicote deles eram o respeito, a compaixão, o amor. E a cidade era, sim, “cheia de flores, cheia de encantos”.

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