É preciso encarar financiamento em pesquisa, como investimento

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Foto: Claudinho Coradini/JP

Em abril, a Agência Reuters publicou uma lista com os maiores cientistas do clima do mundo. No ranking estavam cinco brasileiros e, entre eles, dois docentes da USP (Universidade de São Paulo), Carlos Clemente Cerri, do Cena (Centro de Energia Nuclear na Agricultura) – morto em 2017 – e seu filho, o piracicabano Carlos Eduardo Pellegrino Cerri, do departamento de Ciência do Solo da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz).

Para identificar os mil cientistas mais influentes, a Reuters criou uma Hot List, que congrega os resultados de três classificações. Segundo a agência, essas classificações se baseiam em quantos artigos de pesquisa os cientistas publicaram sobre tópicos relacionados às mudanças climáticas; com que frequência esses artigos são citados por outros cientistas em áreas de estudo semelhantes, como biologia, química ou física; e com que frequência esses jornais são referenciados na imprensa leiga, mídia social, documentos de política e outros meios de comunicação.

Na ocasião, o professor Carlos Eduardo falou da satisfação em ter seu nome, ao lado do pai, entre os únicos cinco brasileiros da lista. Ele classificou como um orgulho duplo, pelo legado do pai e pelo reconhecimento das pesquisas realizadas nas últimas décadas.

Cerri classifica a contribuição ao tema das mudanças climáticas como mais voltada para ações de mitigação na agricultura, pecuária e silvicultura. Segundo ele, o enfoque é relacionado às práticas sustentáveis que de um lado aumentem o sequestro de carbono no solo e de outro lado reduzam as emissões de gases do efeito estufa para a atmosfera.

Engenheiro agrônomo formado pela Esalq em 1996, Cerri tem mestrado e doutorado pela USP e pós-doutorado nos   Estados Unidos e Inglaterra. Atualmente, ele é professor no departamento de Ciência e Solo da Esalq.

Filho de Ana Maria Vianna Pellegrino e Carlos Clemente Cerri , o engenheiro é casado com a professora de Educação Física e sócia-proprietária do CLAP (Centro de Longevidade e Atualização de Piracicaba), Alessandra de Souza Cerri e pai das adolescentes Gabriela (17) e Daniela (14). Nas horas vagas, ele prefere  ficar com a família e cuidar de animais e plantas.

Nesta entrevista ao Persona, Cerri fala de projetos e estudos em desenvolvimento, contribuição das universidades com as questões climáticas e do investimento em pesquisa no Brasil.

Neste ano a agência Reuters publicou uma lista contendo os maiores cientistas do clima do mundo. No ranking estão cinco brasileiros e, entre eles, dois docentes da USP (Universidade de São Paulo), que são o seu pai  Carlos Clemente Cerri, do Cena (Centro de Energia Nuclear na Agricultura) e o senhor, pelo departamento de Ciência do Solo da Esalq. Como foi para o senhor ter essas duas referências e no que elas contribuem e influenciam em seu trabalho?

Foi com grande satisfação que fiquei sabendo dos nomes do meu pai e meu nessa prestigiada lista da Reuters. É um orgulho poder dividir tal lista com pessoas que tanto admiro. Penso que serve como um grande estímulo e motivação para continuar a fazer aquilo que adoro no âmbito profissional.

A decisão em  seguir a carreira de docente e pesquisador teve influência do seu pai?

Sim, claro. Não por parte dele, diretamente, afinal ele nunca cogitou ou sugeriu isso, mas pela elevada admiração que eu sempre tive por ele e pelo seu trabalho. Acaba contagiando tanto aqueles que estão ao redor, que muitos de seus estudantes também se maravilharam e acabaram seguindo a carreira. Difícil mesmo é manter o mesmo nível intelectual e científico.

Como o senhor avalia a atuação e a contribuição das universidades e centros de pesquisas para amenizar os impactos das mudanças climáticas globais nas questões agrárias?

As instituições de ensino e pesquisa tem papel fundamental, pois por meio da formação de recursos humanos de alta qualidade e de relevantes pesquisas científicas geram resultados robustos que servem de subsídios para a implementação de ações práticas que possibilitam a mitigação do aquecimento global e consequentemente das mudanças climáticas.

Como a Esalq tem acompanhando a questão do efeito estufa, há projetos de pesquisas voltados a esse tema, como a recuperação de áreas de florestas?

Entendo que a Esalq é uma das líderes nacionais e internacionais na temática. Há um conjunto variado de projetos associados a recuperação de terras degradadas para conversão em áreas de preservação ambiental (que fornecem uma vasta gama de serviços do ecossistema, que possibilitam e/ou melhoram as condições para a vida humana) e de produção sustentável nos setores de agricultura, pecuária e silvicultura (produção de itens básicos tais como alimentos, fibra, energia).

Quais são os principais projetos desenvolvidos hoje nessa área?

Os principais projetos atualmente desenvolvidos no âmbito da temática aquecimento global/mudanças climáticas estão relacionados ao entendimento e proposição de técnicas que propiciem a redução de emissão de gases do efeito estufa para atmosfera e aumento do sequestro/fixação de carbono na vegetação e no solo. O grande desafio é conciliar as ações dos setores de produção com os aspectos ambientais, econômicos e sociais para a tão almejada sustentabilidade global. Isso é possível. O Brasil tem vários belos exemplos na agricultura/pecuária /silvicultura que devem ser compartilhados com outros países do mundo.

O senhor coordena um grupo de pesquisa na Esalq no desenvolvimento da prática sustentável que retira o carbono (CO2) do solo ao mesmo tempo em que reduz a emissão de gases do efeito estuda na atmosfera. Qual o impacto desse projeto  para a sociedade?

Sim, temos um grupo bastante atuante, com relevantes contribuições no âmbito nacional e internacional, formados por vários professores, estudantes de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutores. Nossos projetos versam sobre práticas de manejo que possibilitem produção sustentável de alimentos, fibras e energia que melhorem as condições de qualidade do solo, privilegiem o melhor desenvolvimento das plantas e que tragam maior produtividade/rentabilidade para os produtores. Tudo isso, sem deixar de considerar os aspectos ambientais, sobretudo no que se refere a menor emissão de gases do efeito estufa, aumento do sequestro de carbono, biodiversidade e serviços do ecossistema. Sim, é possível conciliar!

Qual sua avaliação sobre o financiamento – pelos setores privado e público – de projetos de pesquisas? De onde vem a maior parte dos recursos para desenvolvimento de pesquisas atualmente? Neste ano, o Governo Federal cortou 68,9% da cota de importação de equipamentos e insumos para pesquisas científicas, essa decisão impactou o desenvolvimento de projetos em sua área? 

O Brasil tem um histórico de pouco financiamento em pesquisa científica. Isso, ao meu ver, é um grande equívoco e prejudica diretamente nosso desenvolvimento enquanto nação. Há de se encarar o financiamento em pesquisa como investimento. Países da Europa e América do Norte aportam significativas porcentagens de seus PIBs em ciência, pois entendem se tratar de um investimento que trás elevados retornos para a população. Infelizmente, estamos na contramão. Instituições como CAPES, CNPq e a própria FAPESP vivem momentos de grande restrições e cortes orçamentários sucessivos. Portanto, penso que hoje temos um certo equilíbrio no financiamento oriundo dos setores públicos em relação aos privados. Todavia, estamos com grandes restrições, tanto de projetos como de bolsas de estudo para graduação e pós-graduação. Certamente esse baixo investimento trará prejuízos competitivos para o Brasil frente a acirrada concorrência global.

Beto Silva
[email protected]

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