É preciso investir na saúde

Neurologista Theo Perecin coordena na região atendimento do protocolo AVC (Claudinho Coradini/JP)

Aos 55 anos, o médico piracicabano Theo Germano Perecin, defende o atendimento universal, sem distinção entre pacientes e no investimento à saúde para o aprimoramento do atendimento médico. Neurologista da Santa Casa de Piracicaba, ele diz sobre o hospital ser referência no atendimento por meio do Procolo do AVC, habilitado pelo Ministério da Saúde e o que isso mudou em termos de recuperação dos pacientes e do número de vidas salvas. Entre as histórias que ele conta, está o atendimento prestado ao engenheiro da Nasa, que estava passando por Piracicaba e, ao colocar os pés na cidade teve um AVC, sendo salvo e sem dizer uma palavra em português. “Ele recebeu tratamento e foi pra casa andando, isso é investimento, isso é ter hospitais com capacidade de atender emergências e salvar vida”.

Filho caçula do casal Marly Therezinha Germano e Noedy Perecin, ele é irmão de Gil, engenheiro químico. O neurologista é casado com Valéria da Silva Siqueira Perecin e pai de Lucas, Mariana e Marina. Para aliviar a jornada diária de 12 horas de trabalho ele assiste filmes e, quando há tempo, se dedica à marcenaria. Nesta semana, em meio à agenda rotina que envolve atendimento em dois hospitais e seu consultório, ele abriu espaço para atender o JP para essa entrevista no Persona.

Pela sua experiência na neurologia, quais são as doenças mais comuns no sistema neurológico que acometem as pessoas?

As doenças neurológicas procuro dividir em dois temas: as urgências e os casos eletivos. Eu sou neurologista que atende a neurologia geral, não atuo numa subespecialidade, então eu vejo tudo. A maior parte do meu trabalho é em emergência, faço isso desde que me formei e vim para Piracicaba. Trabalho há 27 anos em emergência e o maior volume de atendimento são as doenças cérebro vasculares, seguidos dos casos de distúrbio de consciência, convulsões, infecções como as meningites e encefalites que fazem parte do outro grupo de atendimento de emergência. Já os eletivos, atendo no consultório e o maior volume são os casos de dores de cabeça, que chegam a incomodar o paciente, o fazendo procurar o atendimento médico. Há também os casos de doenças neurodegenerativas, que hoje têm um volume significativo, como as doenças demenciais, a neuro imunologia, desse grupo a esclerose múltipla, doenças neuromusculares. Há um número bem variável de doenças neurológicas que a gente se envolve no dia a dia.

Neste grupo das neurodegenerativas há como se prevenir dessas doenças, seja ao longo da vida ou quando atingir uma certa idade?

Na maioria das doenças elas têm uma determinação genética e aí fica difícil falar num modo de prevenir e de não ser acometido. Mas em boa parte das doenças, existe uma comorbidade, ou seja, alguns atos da vida podem facilitar o aparecimento de algumas doenças, como também você pode ajudar a prevenir a gravidade delas. Nos casos das doenças demenciais, existem vários tipos de demências, mas uma pessoa que tem bons hábitos ao longo da vida, atividade física e intelectual, alimentar, que cuide bem da hipertensão e diabetes, vai ter – com certeza – uma sobrevida com qualidade maior.

A que se deve esse aumento nas doenças neurodegenerativas? Há alguma relação com hábitos, vícios?

O principal é o aumento da expectativa de vida. Então, boa parte dessas doenças está ligada à idade; quanto maior a idade, maior a estatística

Pelo fato de não haver uma faixa etária específica, em que idade os pacientes mais são acometidos por esses males?

Aí depende da doença. Nas demências a idade é o principal fator de risco; maior a idade, maior é a estatística. Um exemplo simples: vamos pensar na doença de Alzheimer que corresponde a 50% das causas demenciais. Numa estatística média da prevalência de Alzheimer entre a faixa etária de 60 a 65 anos, é de 1% ou um pouco menos. Agora se eu pego o mesmo estudo estatístico na faixa etária dos sobreviventes entre 90 aos 95 anos, aí já sobre para 40%. Então, inequivocamente, o fator de risco é a idade, e como na comunidade nós estamos testemunhando o aumento da sobrevida, essas doenças também têm aumentado.

Já outras doenças que não dependem tanto da idade, que são as autoimunes, não é bem compreendido o fator idade e talvez esteja relacionada ao estilo de vida, exposição a alguma substância, infecções. Outro fator é que estamos fazendo mais diagnóstico do que era feito antigamente, por falta de recurso técnico ou, talvez, pela própria, medicina muitas pessoas passaram sem ter um diagnóstico para determinada doença degenerativa, como por exemplo, no caso de esclerose múltipla, de uma neuropatia degenerativa.

Tanto a sociedade em geral está preparada para cuidar e atender esses pacientes, respectivamente?

Em 2006, participei de um curso em São Paulo, promovido por um grupo responsável por transtornos cognitivos, do HC (Hospital das Clínicas). Naquela época fazia-se um alerta para os gestores de saúde e sociais sobre o aumento da população da terceira idade e a necessidade de se preparar e planejar e se estruturar para esse tipo de atendido. Então, para 2020 o número de idosos será muito maior do que há 20 anos pela prevalência da sobrevida dessas pessoas. E em 2040, teremos uma população ainda maior nesta faixa etária.

E o que precisa ser preparado? A parte da Previdência, atendimento médico e hospitalar, ou seja, há uma necessidade de uma estruturação para atender a demanda a que a população da terceira idade vai exigir. Lembro desse debate em 2006, e vejo que hoje pouca coisa desenvolveu de lá para cá. Apesar do alerta que se faz há muito tempo, o desenvolvimento do país não acompanha, e isso é preocupante. É preciso pensar no atendimento que essa camada da população vai precisar.

Caso a estrutura de saúde do estado não suporte ou não ofereça as condições necessárias para o tratamento, quais serão as consequências para o paciente e para o sistema de saúde?

Eu vejo assim, são coisas que a gente vive e que talvez piore, se realmente não for feito um planejamento melhor: falta de vagas, atendimento do idoso, porque muitas famílias não têm como cuidar desse familiar porque hoje não tem mais aquele filho que não trabalha e que pode cuidar, ou uma nora. Nós também não temos um número expressivo de casas de acolhimento. As creches do idoso deveriam ser em número muito maior, ter um atendimento de amparo ao idoso. O grande volume de atendimento médico nosso ainda é o SUS (Sistema Único de saúde) que está numa situação de crise.

Em paralelo a essa demanda de pacientes e estruturação da saúde pública, o que o senhor destaca de avanços tecnológicos na neurologia?

Entre os vários tipos de doenças em muitas delas o tratamento ainda é voltado para melhora da qualidade vida, o que não impede a evolução da doença. Uma parte das doenças degenerativas ainda entra nesse aspecto, mas em geral melhora-se a qualidade naquele período em que o paciente estará junto da família. O avanço tecnológico hoje propicia o diagnóstico e o tratamento diferenciado para cada tipo de patologia e o aumento de sobrevida de todas essas doenças, além da conscientização por ser uma situação bem debatida na sociedade.

Hoje a classe médica participa esse avanço com a população de forma que todos possa participar dessas mudanças em nossa sociedade. Atualmente, temos um número grande de cuidadores que se prontificaram a se especializar nesse trabalho, que não necessariamente seria oriundo de uma classe profissional especializada como enfermagem ou terapia ocupacional, e são pessoas mais preparadas para cuidar dos que apresentam alguma necessidade.

A maioria de seus pacientes é formado por idosos?

Sim, eu sou neurologista clínico, basicamente atendo jovens, adultos e idosos, crianças não, mas a grande maioria é de idosos.

Como o senhor observa a avalia a participação da família no acompanhamento e no cuidado com o idoso?

Eu vejo que ao longo dos anos houve uma evolução das famílias que têm mais compromissos fora de casa. Por outro lado, elas também estão mais informadas. Hoje os familiares são mais intuitivos e mais preparados para entender o que explicamos para tomar a decisão correta. Embora as necessidades do dia a dia distanciam um pouco o familiar, o conhecimento ajuda no atendimento e no cuidado assertivo.

Além dos cuidados médicos e do tratamento dado a esse paciente, o que mais o senhor aponta que possa proporcionar a sobrevida aos pacientes com doenças neurológicas?

A medicina como um todo, embora muitas vezes não consiga curar uma determinada doença, consegue aumentar a qualidade de vida no período dessa doença, podendo proporcionar um melhor equilíbrio metabólico, equilíbrio psíquico na parte das doenças depressivas, além orientação para atividades físicas e alimentação. Os suplementos alimentares evoluíram muito e isso promove uma sobrevida dos pacientes de maneira geral.

Uma vez diagnosticado com uma dessas neurologias e o paciente pode ter outras doenças como depressão ou algo relacionado à imunidade?

Existem doenças que acompanham, por exemplo, a depressão. O fato de a pessoa ter uma doença degenerativa não está imune a outras doenças. Na pessoa com mais idade por exemplo, a doença degenerativa promove maior incidência de hipertensão, diabetes e doenças cardíacas.

O senhor trabalha na emergência médica. Atende casos tanto relacionados a AVC (Acidente Vascular Cerebral) como traumas?

Hoje nós já conseguimos dividir. Já evoluímos bastante aqui em nossa cidade, dividimos a neurologia e a neurocirurgia, que são duas áreas de atuação independentes. O acidente, o trauma ele é delegado exclusivamente para as equipes de neurocirurgia, já as doenças clínicas, pelas equipes de neurologia clínica.

O AVC tem uma faixa etária específica de risco?

Não, pode ser do bebê até o idoso. Pode acontecer na criança pois não é uma doença exclusiva do idoso. O AVC é um tema que a gente mais conseguiu avançar nos últimos anos. Piracicaba acompanhou a evolução do Brasil, na primeira linha. Nós nos orgulharmos de manter em Piracicaba um nível de atendimento privilegiado. O AVC é um atendimento passivo. Até 2003, o paciente tinha um AVC e eu tentava equilibrar clinicamente, as complicações, mas no AVC em si eu não conseguia atuar. Não havia o que fazer, era só tratar prevenções e complicações e esperar passar e trabalhar com as sequelas. Em 1995 foi publicado o primeiro trabalho aceito e aprovado pelos órgãos de saúde europeus. Depois no FBA – órgão americano que equivale a nossa ANS (Agência Nacional de Saúde) aprovou o uso de uma medicação que chamamos de trombolítico, que pode ser ministrado no tipo isquêmico, ou seja, aquele AVC que tem um coágulo entupindo uma artéria. Esse medicamento vai quebrar esse coágulo e o sangue vai voltar a fluir. No Brasil, o consenso brasileiro foi publicado em 2003 e, a partir daí, obrigatoriamente a nos especializamos a cada dia para identificar e diagnosticar o AVC. O diagnóstico tem de ser preciso, o paciente tem que chegar cedo ao hospital, tem de ter toda uma retaguarda adequada com exames de imagem, médico habilitado, enfermagem treinada.

Embora no Brasil é tudo mais lento, a medicação tem de ser aprovada, o SUS (Sistema Único de Saúde) precisa liberar para ser aplicada nos hospitais porque a medicação é cara, e o hospital precisa ser ressarcido. Participamos de todos os treinamentos e encontros no Brasil e, em 2012, montamos o esquema na Santa Casa de Piracicaba, que é pioneira e referência no protocolo de atendimento para o AVC.

Com nossa equipe treinada e especializada fomos atrás da habilitação junto ao Ministério da Saúde e a Santa Casa se tornou Unidade Referência no Protocolo do AVC. Naquela época não havia 50 unidades habilitadas em todo Brasil.

Nós fomos aprovados pelo Ministério da Saúde ao mesmo tempo do HC de São Paulo e antes do HC de Ribeirão Preto porque já estávamos atrás da papelada e o serviço tinha de estar funcionando.

Durante todo esse tempo o hospital investiu mesmo sem o ressarcimento. Houve um trabalho em conjunto entre a Secretaria da Saúde, a Santa Casa e o laboratório. Foi feito um acordo com a prefeitura, que conseguiu passar uma boa parte dessa medicação antes de sermos credenciados. Em setembro de 2013, o Ministério da Saúde habilitou a Santa Casa e a partir daí fomos nos aprimorando.

E como esse atendimento é feito atualmente na Santa Casa?

Atualmente temos um esquema que é exemplar: treinamos os profissionais do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), chamamos a equipe dos Bombeiros, da Polícia Ambiental, da Polícia Civil e Militar e fizemos vários treinamentos na Santa Casa para que esse pessoal estivesse preparado ao ter o primeiro contato com o indivíduo com AVC, sabendo reconhecer que é um Acidente Vascular Cerebral. O objetivo é saber identificar e levar o mais rápido possível para Santa Casa., pois a medicação tem de ser ministrada até quatro horas e meia no protocolo atual. Estatisticamente ele tem uma redução de 30% de sequelas e redução de óbitos quando bem aplicado. Vale a pena investir e a gente vê na prática que mudou muito depois de começarmos a fazer esse tratamento.

O senhor consegue quantificar essa diminuição de sequelas e óbitos com o uso desse tratamento?

Não temos uma estatística precisa porque não temos dados anteriores, só atuais. Atualmente, um terço dos pacientes têm evolução favorável é um número muito alto, um pouco acima da média dos estudos que têm sido publicados. A Santa Casa é a única unidade credenciada no Ministério da Saúde, somos responsáveis por 1,5 milhão de pessoas e pela estatística devemos ter em média de 600 a 700 AVCs ao ano, cerca de dois ao dia.

Neste ano nós vamos fazer treinamento nas UPAs (Unidade de Pronto Atendimento), embora boa parte já esteja bem preparada, mas ainda existe uma certa dificuldade. Temos de aumentar a chance das pessoas de chegar em tempo. A Santa Casa acolhe todo mundo e é muita gente. Mesmo assim, Piracicaba está numa situação privilegiada pela média das outras cidades. No ano passado nós trombolizamos (aplicou u trombolítico) mais do que em Ribeirão Preto e atendemos mais do que Campinas, dentro do SUS. Nesse quesito perdemos apenas para São Paulo em volume. Entendemos que estamos indo para o lado certo e todo esse trabalho vem do investimento no hospital público. Toda comunidade deveria ter hospitais como a Santa Casa, preparados para que a emergência seja completamente atendida.

Acho que o exemplo claro da necessidade dessa preparação foi o que aconteceu com o presidente (Jair Bolsonaro), em Juiz de Fora, uma cidade maior que Piracicaba, mas não muito diferente. Ele precisou de atendimento de emergência e só está vivo porque havia uma estrutura montada. A obrigação de cada cidade é ter isso independentemente de ser saúde suplementar ou particular.

É preciso investir em hospitais com plena capacidade, com atendimento universal para salvar vidas. Isso é recompensador.

Na Santa Casa por exemplo, já atendemos desde o engenheiro da Nasa – que estava passando por Piracicaba e, ao colocar os pés na cidade teve um AVC, ele não falava nem obrigado em português, recebeu tratamento e foi pra casa dele andando- até o andarilho que caiu na rua e que foi atendido e salvo graças a esse protocolo de atendimento.

(Beto Silva)