“É um crime contra a vida”, diz pastor evangélico; feminista defende o direito das mulheres em decidir

Foto: Arquivo Pessoal

Código Penal brasileiro prevê pena de detenção de um a três anos para quem pratica o crime de aborto

O Jornal de Piracicaba ouviu dois posicionamentos diferentes sobre o aborto. Márcio Miazaki, teólogo, psicólogo e pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular, diz que é um “crime contra a vida”. “É uma questão de fé, mas é muito mais do que isso, é uma questão de ética e de preservação da vida, pautada pela ciência também, o embrião ou feto já é uma vida, independentemente da forma como foi concebido. Se não conseguirmos proteger e priorizar a vida em seu nascedouro, estaremos banalizando-a”, defende.

E se a mulher engravidar após um estupro? “Não se corrige um erro cometendo outro. O fardo de uma mulher carregar o peso de uma gravidez indesejada é muito grande, e não há lugar de fala para os homens nisso, mas o aborto também é muito dramático e não redime o horror do estupro. A mulher que aborta de um estupro terá dois fardos para carregar, dois abusos contra o seu corpo.

Concordo em não haver lugar de fala para os homens quanto ao direito da mulher sobre o seu próprio corpo, mas quando se trata do direito à vida, seja de um ser consciente ou não, todos devemos nos posicionar. Um caso sensível e digno de nota é o da atriz Klara Castanho, que a despeito de todo sofrimento e abuso sexual, hospitalar e jornalístico, agiu de maneira consciente”, diz Miazaki. No caso da atriz, ela entregou o bebê para adoção.

O pastor se mostra indignado com as atrocidades cometidas contra mulheres. “O estupro é um crime hediondo e precisa ser punido de forma exemplar com penas mais duras, inclusive responsabilizando instituições por possíveis negligências e omissões. Acredito que é a melhor forma de prevenção. Existe uma cultura do estupro e da objetificação das mulheres sendo disseminada pela própria cultura moderna”, diz ele.

“DESIGUALDADE”
Outra fonte consultada pelo JP é Nalu Faria, psicóloga, coordenadora da SOF (Sempreviva Organização Feminista) e integrante do Comitê Internacional da Marcha Mundial das Mulheres. Ela diz que o Brasil é um dos países onde o aborto evidencia “desigualdade e injustiça”. “O aborto é uma realidade na vida das mulheres do mundo inteiro. Nós temos sempre denunciado a hipocrisia presente nessa realidade, pois as mulheres com acessos a recursos realizam abortos em situação de segurança mesmo frente à ilegalidade no país. E são as mulheres pobres, negras e, em particular, as mais jovens que precisam recorrer a prática do aborto inseguro, que coloca em risco suas vidas e saúde”, diz.

No movimento feminista, explica Nalu, é defendido que mulheres têm o direito de decidir se querem ou não ser mães. “Sabemos que têm muitos conflitos, medos, culpa presentes no momento dessa decisão, em uma sociedade que coloca a maternidade como um destino, uma obrigação e não como uma decisão. Precisamos ter essas garantias: seja o acesso aos métodos anticonceptivos ou de recorrer ao aborto como último recurso. Mas também de ter direito de exercer a maternidade com a garantia do conjunto dos bens e serviços que necessitamos para sustentar a vida. Entendemos que o aborto não deve ser crime e que a vida das mulheres que recorrem ao aborto não pode estar em risco. É um dever do Estado proteger e assistir as mulheres e não culpar, estigmatizar e criminalizar”.

Por fim, Nalu diz que nem mesmo as situações previstas em lei para o aborto legal são seguidas no Brasil. “O Estado viola o direito das mulheres. Os casos que têm se tornado públicos são emblemáticos pois são justamente de meninas grávidas por estupro. O tema do aborto tem sido utilizado como uma das principais vias para incrementar o ódio e desprezo à vida das mulheres”.

Nani Camargo
Especial para o JP

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