“É um dever enorme assumir um posto que eleva o papel da Esalq”

Foto: Arquivo/CNPQ

Apaixonado pela agricultura desde cedo, o engenheiro agrônomo Evaldo Ferreira Vilela assumiu o posto de Quarto Titular da Cátedra Luiz de Queiroz da Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), durante a celebração dos 121 anos da instituição, realizada no dia 3 de junho. A Cátedra é um espaço importante no desenvolvimento e sustentabilidade de Sistemas Agropecuários Integrados, que propõe discussões e realizações de atividades que trazem reflexões para todo território nacional e internacional.

Nascido em oito de janeiro de 1948, na cidade de Campo Belo em Minas Gerais, formou-se pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) em 1971, também é mestre em Entomologia pela Esalq e doutor em Ecologia Química pela University of Southampton, UK. Vilela já assumiu papéis muito importantes ao longo de sua trajetória: foi reitor da UFV entre 2000 e 2004, professor convidado da pós-graduação da Esalq, é membro da Academia Brasileira de Ciências e condecorado com a Medalha de Ordem Nacional do Mérito Científico.

Atualmente é presidente do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e agora, recentemente, assume o cargo de Quarto Titular da Esalq.

Quando e como surgiu o seu interesse no campo da agricultura?

A convivência familiar com o meio rural (fazendas) e tendo frequentado, no ensino básico e médio, um colégio de padres holandeses, vivamente dedicados à agricultura, despertou meu interesse pela agronomia, na perspectiva da produção de alimento para o enfrentamento da fome em todo mundo e, mais especificamente, no Brasil. Isto aconteceu nos anos de 1970, quando o Brasil se industrializava e, em consequência, as famílias migravam do meio rural para as cidades à busca de emprego. Era então necessário aumentar a produção agrícola, até porque o País importava cerca de 30% dos alimentos que consumia. Minha motivação, portanto, decorria da ameaça da fome no Brasil. Era preciso fazer algo a respeito.

Como foi realizado o convite para assumir o posto de Quarto Titular da Cátedra Luiz de Queiroz? O quão importante é para o senhor e quais responsabilidades que o cargo carrega?

O convite decorreu da boa interação que sempre mantive com as Diretorias da Esalq, e em particular mais recentemente com o Diretor e professor Durval Dourado. Juntos participamos do Fórum do Futuro, que discute a sustentabilidade da produção da agricultura brasileira, sob a liderança de do ex-ministro Alysson Paolinelli, que a todos inspira e orienta para um trabalho colaborativo em prol da produção de alimento de modo mais sustentável, com mais atenção à preservação dos recursos naturais.

Certamente teve ainda influência a minha proximidade com a Entomologia da Esalq, onde fiz meu Mestrado, e sempre tive uma interação muito positiva com os professores, todos muito colaborativos, especialmente o Prof. José Roberto Parra e o Vice-Diretor da Esalq, Prof. João Spotti. Assumir a titularidade da Cátedra Luiz de Queiroz, pelo que ela representa na figura de Luiz de Queiroz é um prestígio para mim. Muito valoriza minha experiência de vida e minha carreira profissional.

A responsabilidade, ao assumir a posição de Titular da Cátedra, é muito grande, diante da missão de elaborar e divulgar estudos capazes de contribuir estrategicamente para a transição da agricultura verde para a agricultura sustentável. E a responsabilidade é ainda maior quando o trabalho da Cátedra deve ainda elevar o papel da Esalq no cenário da produção sustentável de alimentos nacional e internacionalmente.

Em seu posto como o Quarto Titular da Cátedra Luiz de Queiroz, o senhor desenvolverá o tema “Transição da revolução verde para uma agricultura sustentável: o papel da ciência e da tecnologia, engajamento da sociedade e políticas públicas”, certo? Como surgiu a idealização do tema?

O tema da Cátedra surgiu de discussões que tivemos com os Professores Durval Dourado e Ruy Caldas e contando ainda com a ajuda qualificada do Terceiro Titular da Cátedra, o ex-ministro Alysson Paolinelli, frente ao cenário atual que requer a ampliação da sustentabilidade dos processos produtivos, segundo os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – ODS, da ONU. São ações que protegem o agro brasileiro, preservando seu impacto positivo sobre a economia e a condição humana no Brasil, com geração de oportunidades de negócio e de empregos, inclusive para jovens que almejam protagonismo na vida brasileira.
Com a Cátedra temos a chance de tornar o agro um projeto de todos os brasileiros. Mas para conseguir mais sustentabilidade dependemos da ciência, que gera de novos conhecimentos em todas as áreas do conhecimento, como da agronomia, das tecnologias, das humanidades e outras áreas. E a inovação depende ainda de pessoas capacitadas, de jovens com habilidades digitais e empreendedoras, sensíveis às necessidades da sociedade. Neste sentido, a Cátedra deve também influenciar na formação de profissionais preparados para a produção com preservação do meio ambiente. Nada disto é fácil de ser feito, mas é necessário. Por isto, é preciso abraçar a causa da sustentabilidade com determinação, tendo a sociedade como parceira. Os estudos gerados neste contexto servirão para nortear políticas públicas mais efetivas para o desenvolvimento da agricultura brasileira.

Quais os auxílios e as estratégias que o tema abordado pode trazer para agregar na sociedade e para a Esalq?

A Esalq tem um quadro de professores muito qualificado com uma atuação destacada na pesquisa agronômica, produzindo conhecimento e tecnologia que impactam positivamente na produção sustentável de alimentos e demais produtos agrícolas e florestais. Valendo-se da sua ótima infraestrutura, a Esalq atua também na pesquisa e no ensino de áreas como biologia, saúde, meio ambiente e outras, com uma contribuição importante e um potencial de expansão enorme.

A Cátedra irá ampliar ainda mais a atuação na formação de novas redes de pesquisa multidisciplinares, conectando ainda mais grupos da própria Esalq e da USP, bem como de outras universidades e instituições internacionais, além empresas, em projetos focados em missões capazes de atender as necessidades do desenvolvimento sustentável de São Paulo e do País. Durante o seu mandato como catedrático, como deseja trazer discussões e a execução de atividades que promovam reflexões sobre a agricultura sustentável? Esta pergunta me permite complementar a resposta anterior, discorrendo sobre a estratégia de promover a discussão e a reflexão sobre o estágio atual e a evolução da agricultura brasileira sustentável, bem como a percepção de que dela fazem os brasileiros e os estrangeiros.

Este é um trabalho de mobilização articulado com a Diretoria da Esalq e que contará ainda com instâncias da USP, como o Instituto de Estudos Avançados – IEA, para a execução e comunicação dos avanços alcançados. É preciso integrar o avanço técnico ao benefício para a sociedade, de maneira percebida por todos. Neste sentido, entrevistas como esta, a interação com a imprensa e com as mídias sociais são estratégias para alcançar as pessoas, levando as verdades da ciência sobre as questões que afligem a todos, como a segurança alimentar e a proteção da vida no planeta, no contexto da agricultura, do agronegócio.

Em sua opinião, quais são os maiores desafios para a busca da segurança alimentar?

O tema da segurança alimentar é tão complexo como a sua importância para a vida no planeta. Num País com tamanha desigualdade social como o Brasil, a segurança alimentar se torna um tema ainda mais estratégico e, portando, relevante. No que toca à Cátedra, nossa contribuição maior estará sempre na produção de alimentos com impacto mínimo sobre a natureza, ou seja, na promoção da produção sustentável. Esta é uma contribuição fundamental, que permite avançar em estratégias outras para garantir a capacidade de compra e de enfrentamento da fome no país. Ou seja, sem alimento não há segurança alimentar, mas somente a produção não garante o combate à fome. É preciso trabalhar em outras instâncias para garantir empregos e renda.

Como professor, o quão importante é passar os seus conhecimentos para os seus alunos e também transmiti-los para a sociedade? Como costuma incentivar seus alunos a realizarem pesquisas?

É missão do professor repassar aos seus alunos conhecimentos atualizados, oriundos da investigação científica. Mas não pode parar aí, o professor deve ainda ensinar aos seus alunos o gosto pela ciência; ciência como um valor civilizatório, que ilumina a verdade sobre a natureza, sobre a vida. E também convencê-los da necessidade de aprender sempre! Isto é o que fiz em minhas aulas, e muito me orgulho de ter encaminhado muitos dos alunos para a iniciação científica, possibilitando-lhes o contato com o método científico e a sua importância. O contato com a pesquisa e como executá-la. Já a questão de levar o conhecimento gerado nas pesquisas para a sociedade é algo que não é trivial. Cada vez mais, é necessário levar pessoas recebam as informações corretas, por exemplo sobre o impacto da agricultura sobe o meio ambiente, e como mitigar estes impactos, o que vem sendo feito com o protagonismo da própria Esalq.

Fernanda Rizzi
[email protected]

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