Eliana Asano Ramos: Amor pela música e pela família

Presidente da Associação Amigos Mahle prepara-se para celebração de dez anos da entidade (Créditos: Claudinho Coradini/JP)

Piracicabana apaixonada por música, Eliana Asano Ramos começou suas aulas de piano aos 7 anos, um sonho de sua mãe, em São José dos Campos. Em 1995 passou a estudar na Empem (Escola de Música de Piracicaba Maestro Ernst Mahle), quando também iniciou seus trabalhos e estudos ao lado do maestro que tanto lhe inspirou no mestrado e doutorado.

Foi professora de piano, música de câmara e teoria musical na Empem de 1999 a 2018 e pianista do Coro de Câmara de Piracicaba. No momento, também é presidente da Associação Amigos Mahle, que tem por objetivo valorizar e difundir a obra intelectual e artística do maestro Ernst Mahle, que completa dez anos de atividade no próximo mês.



Já presidiram a entidade Luís Carlos Justi (2010 – 2012), André Luís Giovanini Micheletti (2012 – 2014) e Marcelo Batuíra Cunha Losso Pedroso de Mello (2014 – 2016).

 

É filha de Raquel Zen e Ossamu Asano, e seu pós-doutorado, que finalizou em julho de 2019 na USP Ribeirão Preto, foi sobre o compositor brasileira Alberto Nepomuceno.

Pode nos contar sua trajetória?
Tenho 42 anos, sou de piracicaba, minha mãe também, meu pai é de Pereira Barreto. Quando eu tinha uns 6 anos, a gente foi para São José dos Campos, meu pai foi trabalhar na Avibras [Indústria Aeronáutica]. Lá que eu comecei a estudar piano e tinha uns 7 anos. Eu vi a minha prima, que tocava piano. Eu tinha um pianinho em casa, ela chegou, deu uma tocadinha e aí eu quis aprender também. Então, comecei a fazer aula particular, com uma conhecida da família. Depois meu pai parou de trabalhar [na Avibras] e voltou a trabalhar em Piracicaba. [Então] fui para a Escola de Música de Piracicaba, que era o sonho da minha mãe. Estudei lá até 1995 e fiz o curso técnico. Prestei vestibular em música. [Fui] para Unicamp, fiz a graduação, terminei e fiquei um pouco parada, depois voltei e fiz o mestrado, doutorado e pós-doutorado.

Você se casou? Tem filhos?
Casei, meu marido é engenheiro civil, o nome dele é Edivaldo, e tenho dois filhos, o Kenzo, de 21, e o Yudi, de 17. […] O mais velho toca violino, o mais novo, violoncelo.

Quando começou seu trabalho com o maestro Ernst Mahle?
Em 1999, a dona Cidinha Mahle (esposa de Ernst Mahle) me convidou para tocar no Coro de Câmara de Piracicaba. Fiquei lá até o ano passado. Foram 20 anos de coro. Estou desde aquela época tocando com o coro e em paralelo também era professora de música na Empem.

Você é uma grande estudiosa e admiradora das composições de Ernst Mahle. O que te inspira na obra dele?
As canções que eu estudei. Eu me envolvi nessa área de relações texto-música. Até então, existia aquele medo de ler poesia. Mas quando fui trabalhar com música, tive que começar a ler poesia, a interpretar, e isso me fez crescer muito, pessoal e  profissionalmente. Mahle sempre musicou poemas de autores importantes. Então, acabei ampliando meus conhecimentos. Engraçado porque ele é alemão, no entanto todas as canções de câmara dele foram com textos em português.

Para você, qual é a importância da obra de Ernst Mahle para Piracicaba e para o Brasil?
Olha, é muito importante. Ano passado foram comemorados os 90 anos de vida do Ernst Mahle e ele recebeu centenas de homenagens. Um dia eu estava conversando com a dona Cidinha [Mahle] e o que as pessoas mais comentam, e a gente vê, é que as pessoas que vão assistir – muitas delas vão, lógico, por causa da música, pela excelência –, mas também pela pessoa. As pessoas gostam muito dele. E tem muito ex-aluno, vários pelo Brasil afora. Acho que isso revela muito dele, que não só a excelência dele como compositor, mas como pessoa. Nesses 90 anos, os concertos vieram mostrar que as pessoas admiram muito a obra dele. Ernst está sempre disposto a ensinar, é muito paciente. Por isso que a Escola de Música teve tanto destaque no cenário musical. Lá sempre foi uma família. Dona Cidinha e o Mahle criaram esse ambiente. Você começou a estudar música bem pequena e hoje seus filhos também tocam.

Como é a relação da família com a música?
Acho que já é uma coisa comum, apesar de eu ter me profissionalizado, por exemplo, meus filhos não são músicos profissionais, eles fazem porque gostam. O Kenzo, na verdade, faz engenharia. Quando a gente senta pra tocar, é um momento muito gostoso. A gente dá risada, brinca e fortalecemos ainda mais nosso vínculo, pois a música inspira, toca a alma, é sincera. É um momento único, me sinto muito contente, é muito gratificando, fico emocionada.

O que você estudou no seu pós-doutorado?
Meu pós-doc foi em canções de [Alberto] Nepomuceno, outro compositor brasileiro da passagem do século 19 para o século 20. Ele é considerado o pai da canção brasileira. Acabei dando um tempo das canções do Mahle, fui estudar as canções do Nepomuceno, mas, na verdade, isso influencia [nos estudos sobre as obras de Mahle] porque abre novos horizontes, e agora estou voltando para as canções do nosso compositor. Foi importante esse caminho. Nepomuceno é considerado o pai da canção de câmara brasileira. Ele colocou o piano no mesmo patamar que a linha vocal.

O que levará da experiência que teve no pós-doutorado?
Parece que a gente não dá muito valor quando estamos estudando. Mas, quando a gente começa a sair e retoma o trabalho, percebe o quão importante é aquilo. É como se eu estivesse retomando, mas agora de uma maneira muito mais profunda. Você começa a valorizar mais, enxergar algumas coisas que vão além. Quando iniciamos um estudo ou uma especialização, nos samos conta de que ainda tem muita coisa para estudar dentro desse repertório na música do Mahle.

Como é o trabalho que vocês realizam na Associação Amigos Mahle?
A Associação é uma entidade sem fins lucrativos, que sobrevive de doações e contribuições dos associados, [que são] voluntários, pessoas que gostam do trabalho dele […]. Um dos objetivos é justamente valorizar, divulgar e preservar a obra do Mahle. Toda a sua obra está na associação. Quando as pessoas querem tocar, como agora em 2019 que tivemos um monte de homenagens, as pessoas procuram a associação para mandar partituras. […] Nesse ano, estamos completando dez anos da Associação Amigos Mahle. Ela foi fundada dia 5 de fevereiro de 2010.

Como foram as celebrações de 90 anos do Mahle?
Do que a gente ficou sabendo, a dona Cidinha contabilizou 26 homenagens. Nos Estados Unidos, na Alemanha, em Portugal. E foram sempre muito bem recebidas.

E como serão as comemorações para os dez anos da Associação?
Estamos programando alguns concertos. Além de trazer a música do Mahle, pretendemos também colocar algumas composições de Beethoven, afinal esta ano se comemora os 250 anos de seu nascimento; e também 100 anos de morte do Alberto Nepomuceno. Também estamos pensando fazer com que parte desses concertos seja em prol de conseguir bolsas para alunos da Escola de Música, de instrumentos menos procurados, de orquestra, por exemplo, trompa, violoncelo, contrabaixo.

O que você gosta de fazer no tempo livre?
Eu sou super caseira. O trabalho da gente é sempre sair e tocar. Eu gosto de ficar com os meninos, com minha família, gosto de ler coisas mais associadas ao trabalho também. De vez em quando, vamos ao cinema. Vamos bastante a concertos, pois eles gostam. É mais família. Eu fiz um concurso para professor temporário na Estadual do Paraná, em Curitiba, e fiquei alguns meses do ano passado [viajando], mas acabei tendo que parar por causa dessas coisas de locomoção, acho que ficou um pouco difícil. Eu preciso estar perto deles. Eu preciso estar com a minha família.

Como você é como mãe?
Sou muito carinhosa. A gente está sempre junto. Esse é o negócio do porque eu sou tão caseira. Eles são muito apegados. Moramos um ano nos Estados Unidos, para o meu doutorado, e eles sempre estavam ali comigo. Íamos a concertos, shopping. Acho que por isso também eles gostam tanto da música, quando eu tinha ensaio eles estavam juntos. Se vou tocar, também arrasto eles para assistir.

O que ainda pretende fazer profissionalmente?
Pretendo retomar as canções do Mahle, [na verdade], continuar trabalhando com isso. Estou trabalhando numa tradução de um livro [Poetry into Song: Performance and Analysis of Lieder”, de Deborah Stein e Robert Spillman] da minha orientadora americana. Eu e mais duas professoras, para traduzir essa obra para o português. De resto, ficam abertas as possibilidades. Eu não me estresso, passou essa época. A gente corre tanto atrás de tanta coisa e chega uma hora que fala: – ‘não, preciso parar um pouco’. Eu estou tranquila. Acho que a gente fica muito ansiosa querendo fazer tanta coisa, mas, na verdade, devemos é valorizar o que já fazemos e dar a devida importância.

Como você avalia a importância da música estar no dia a dia das escolas?
Aulas de músicas nas escolas são importantes, pois auxiliam no desenvolvimento de habilidades cognitivas como a memória, a percepção auditiva, a concentração e a musicalidade, além de favorecer a comunicação e a convivência social. A música nos permite imergir em um estado de bem-estar, sendo ela uma das vertentes de representação e valorização da cultura.

 

Andressa Mota
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