Elza (eterna) Soares

A voz do milênio emudeceu. Após 91 anos de uma existência estratosférica, Elza Soares calou-se, mas não deixou de ecoar. A quinta-feira foi de luto, mas também de homenagens a esta que é a maior entre as maiores cantoras do país.

Enquanto a técnica vocal perfeita é exageradamente valorizada em reality shows musicais da televisão, Elza levou a dor do trabalho duro na infância para sua interpretação intensa e rasgada de voz nada convencional, porém única.

Sua vida e sua arte sempre se misturaram: seja como vítima das injustiças, principalmente raciais — que a deixaram com fama de vilã nas capas de revista de fofoca — ou nas músicas interpretadas no palco, refletindo diretamente sua triste realidade.

A garotinha da favela carioca que trabalhava levando latas d’água na cabeça. A adolescente que foi mãe aos 13 anos e viúva aos 18, com cinco filhos para criar. Aquela que buscou na carreira musical a única maneira de vencer a fome.

Sofreu por ser negra e pobre ao se casar com o jogador Garrincha. Foi ameaçada de morte pelo preconceito. E viúva pela segunda vez.

Elza, no palco, era tudo isso misturado, seja na forma brutal de cantar e dançar ou nas letras das canções que escolhia para serem suas. E como são suas!

Acompanho a carreira de Elza desde o “boom” de seu renascimento artístico, em meados de 2015. De lá para cá, quase não perdi uma entrevista e tive a oportunidade de vê-la ao vivo algumas vezes. Entre elas, em 2016, quando apresentou o álbum Mulher do Fim do Mundo, no Sesc Piracicaba.

Naquela época, Elza renascia com uma obra que percorre diversas avenidas musicais, destacando temas que estão no dia a dia das pessoas, mas pouco aparecem no trabalho de outros artistas.

Ou seja, mesmo após décadas cantando e em plena velhice, ela teve energia para se jogar com a juventude novamente, que lotava todos os espaços que ela percorria.

A idade de Elza, aliás, era sempre um mistério, já que a pobreza e a desinformação a fizeram ficar sem registro oficial por sabe-se lá quantos anos. Mas como ela mesmo dizia: “eu não tenho idade, eu tenho tempo”.

Mesmo sem poder andar ou ficar em pé, por conta de um problema na coluna, Elza teve fôlego de loba até dias antes de sua partida. Não se abalava com qualquer coisa, nem se abalou com a morte. Foi em paz.

Há oito anos, escrevi um artigo neste mesmo espaço sobre ela. Terminei o texto dizendo: “a mulher do fim do mundo vai cantar até o fim”. E ela cantou.

Historinha bônus: quando Elza foi fazer show em 2016, no Sesc Piracicaba, eu trabalhava como editor de cultura deste matutino. Nos comunicamos com a assessoria de imprensa da artista, revelando nossa intenção de fazer uma entrevista.

Eis que toca o telefone e a repórter Sabrina Franzol atende. Era a própria! “Oi dona Elza, como você está?”, disse Sabrina. “Dona Elza, não, me chame apenas de Elza, Sassááá…”, respondeu ela, com uma intimidade própria que só ela podia conquistar em segundos.

No dia do show, fomos recebidos pela diva em seu camarim. Quando entramos e ela viu a Sabrina, não deixou por menos. “E aí, Sassááááá…”. Quer reconhecimento maior?

Sempre dei o exemplo de Elza quando me perguntam como era trabalhar na divulgação de espetáculos e shows no interior de São Paulo.

Enquanto muitos artistas novos hesitavam em dar entrevista para um jornal de porte regional, como é o JP — para eles muitos deles sem significância –, Elza, no auge da carreira, fez questão de reconhecer nosso trabalho, mesmo com alcance infinitamente menor do que ela estava acostumada a ter.

Essa era Elza Soares!

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