Como é alto o preço a pagar quando se constata ter nascido para exceção e não para regra sem direito a dizer, em tempos de agora, dado a mentiras, a verdade como é e não como sugere ser.

Difícil à beça sentir o mundo correr ao levar a termo o tempo que lhe tocou viver, sem ter tido a oportunidade de fazer-se entender como gostaria, porque a sociedade, como se apresenta, quer mesmo é fantasiar tudo e pintar a felicidade como coisa simples e fácil.

As redes sociais, neste setembro, e nos outros todos, vem com notícias de Primavera. Centenas de mensagens com cenário de flor, de cor e de alegria. Me pergunto a quantos dos que remetem se leram um só louvor até o final dele proposto e quanto lhes valeu alimentar-se espiritualmente dele?

Dia destes, atrevi-me a contar que, na verdade, já me havia dado conta da primavera (neste ano da graça ou da desgraça?), quando, no isolamento, o terraço me oferecia como consolo o azul do céu, as buganvílias florindo na praça em frente ao prédio onde vivo e as azaléas enlaçadas umas às outras encantando o jardim da casa onde vivi um dia.

Entende-me, leitor, você que por vezes me escreve contando do sabor encontrado nos meus textos ajudando-me, com isso, a encontrar a mágica da palavra nos que estão por vir? É justo não reconhecer por quase todo o ano, num país como o nosso, o espírito da primavera? Para mim, como todos os anos, desde que me descobri mais adulto, a primavera se me tem revelado por julho e agosto, nas ruas, nos parques, nos jardins das casas, aos olhos dos homens e de Deus. Incluo Deus não só por crer no Espírito de Amor que representa, mas por não decifrar a razão de tudo isso, senão por Ele.

A vida, bem sei, é quem me oferece esta fatia de tempo em anos contados – e não são poucos – e me permite, com estudos, leituras, análises, organizar uma estrutura psíquica tal que me ajude a configurar reação pessoal, alicerce moral, para suportar o mundo como se apresenta e desdizer esta enxurrada de mensagens que me afogam sem dar-me tempo para livrar-me delas.

Sei bem que o leitor conhece tanto quanto eu como conspira o mundo para o sofrimento. Não há como iludir-se: é sofrimento mesmo!

Nem o filho do Homem escapou disto tanto que expôs, no sofrimento físico, seu abatimento moral ao sentir-se completamente abandonado.

Em De Profundis, quando Dostoievski afirma: “A moral não me socorre. Nasci para a exceção e não para a regra” – penso nEle. Prossigo, já voltado para mim mesmo: “A religião para nada me serve. Os meus deuses habitam templos construídos pelas mãos dos homens… Só é espiritual o que cria a sua própria forma. A razão nada me adianta porque me diz que as leis que me condenaram são más e injustas como é mau e injusto o sistema que me faz sofrer.” Ou não é assim?

Terei despertado há pouco de um processo analítico recente que me obriga a revelar como me relaciono com o mundo? Ou, por pensar em demasia no silêncio e na solidão impostos pelo isolamento? Terei alcançado a dimensão do psiquismo que não conhecia? O que me leva a isto tudo?

Este setembro amarelo me despertou a consciência ao saber de suicídios a rondar a juventude (e não só ela), ou do desassossego provocado pelo outro que, induzido pelo mal, sai a desenhar gestos, lançar palavras, rir-se de viés, semeando injúrias, manifestos de ingratidão, cinismo, escondidos em alma desconhecida, obscura e vil?

Dostoiévski, uma vez mais, é quem me ajuda, com toda humildade, a compreender. “A culpa é dos homens. Deram-lhe o paraíso, e eles quiseram a liberdade e roubaram o fogo do céu, sabendo muito bem que seriam infelizes. Não vejo, portanto, motivos para lhes ter piedade.”

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