Emissão de carteiras de motorista cai quase pela metade em Piracicaba

Em 2020 foram emitidas 35.953 carteiras de motorista; em 2019, foram lançados 68.415 documentos. (Foto: Amanda Vieira/JP)

A crise provocada pela pandemia do novo coronavírus, aliada ao desinteresse dos jovens em aprender dirigir, fez com que a emissão da CNH (Carteira Nacional de Habilitação) caísse quase pela metade em Piracicaba. De acordo com estatísticas disponibilizadas pelo Detran-SP (Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo), de janeiro a dezembro do ano passado foram emitidas 35.953 carteiras de motorista no município, 47,44% a menos que no mesmo período de 2019, quando foram lançados 68.415 documentos.

Presidente do Sindautoescola (Sindicato das Autoescolas de São Paulo), Magnelson de Souza, afirma que apesar de a pandemia ter contribuído de maneira significativa para a redução na emissão da CNH no ano passado – as autoescolas ficaram fechadas por quatro meses -, a queda já vem sendo sentida desde 2019. “Percebemos um desinteresse por parte dos jovens com idade entre 18 e 25 anos, que estão mais interessados em aplicativos de motoristas particulares e em transporte público de qualidade”.

Outro ponto abordado pelo especialista é a responsabilidade de ter um veículo hoje em dia, principalmente no que se refere à questão financeira. “São custos com IPVA, seguro, manutenção, combustível. É uma série de encargos que faz com que os jovens privilegiem outros meios de transporte”, diz.

É o caso da estudante Giulia Urizzi, 23 anos. “Nunca tive interesse em tirar carta, sempre achei que era dinheiro jogado fora e que posso fazer outras coisas com esse valor”, afirma.

E o investimento financeiro é também o motivo de a estudante nunca ter tido vontade em comprar um automóvel. “O valor do carro, depois o seguro, manutenção, esse tipo de coisa, não me interessa. Sempre achei mais prático chamar um Uber. É barato e não preciso me preocupar com nada”, destaca.

Uma pesquisa realizada em 2018 pela Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) analisou a relação das diferentes gerações com a mobilidade.

O estudo contemplo u 1.789 pessoas em 11 capitais: Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Quando a pesquisa foi divulgada, o presidente da Anfavea na época, Antonio Megale, classificou os resultados como “surpreendentes”.

Apenas 39% dos entrevistados entre 26 e 35 anos possuíam carro. O percentual entre os jovens de até 25 anos era ainda menor: 23%. Entre os do primeiro grupo, 31% responderam não desejar comprar um carro nos próximos cinco anos. Mesmo percentual ao dos entrevistados com 36 e 55 anos de idade. Já entre os mais jovens (até 25 anos), 30% não tinham interesse em adquirir um automóvel.

MUITO CUSTO E POUCO BENEFÍCIO

O jornalista Serjey Joseph Manuel de la Concepcion Martins, 33 anos, tirou a CNH com 28 anos. “Tirei porque alguns empregos na área de jornalismo exigem CNH. Eu até gosto de dirigir, mas não sentia uma necessidade extrema. O que também contribuiu para tirar a carta é que na época os aplicativos de transporte ainda estavam chegando no Brasil. Dependia totalmente de ônibus e táxi. Para sair era um horror”, recorda.

Segundo Martins, pouco tempo depois de pegar a CNH, o Uber se popularizou e pôs fim a muitos dos problemas que ele tinha. “Como trabalhava na universidade que estudava, utilizava ônibus no dia a dia e recorria ao Uber para sair à noite ou eventuais necessidades. A CNH foi ficando encostada”.

Para o jornalista, se colocado na ponta do lápis, manter um carro fica muito mais caro do que usar os aplicativos de transporte. “A economia está ruim e os preços estão muito altos, tanto para comprar quanto para manter um veículo. Isso sem contar a dor de cabeça que a gente se livra de não ter que se preocupar em bater o carro”, afirma.

Martins acredita que a falta de qualidade do transporte público é o que ainda motiva as pessoas a recorrerem ao carro ou à moto. “Hoje em dia, acho que as pessoas, se tivessem um sistema público de transporte decente, não utilizariam tanto automóvel”.

REFLEXOS DA PANDEMIA

Por conta dos riscos de contaminação entre alunos e instrutores, as autoescolas foram impedidas pelo Governo do Estado de São Paulo de dar aulas por, pelo menos, quatro meses. “Foram 120 dias parados, com portas fechadas. Agora que as coisas estão voltando gradativamente”, afirma o presidente da Sindautoescola.

De acordo com Souza, houve um pequeno acúmulo de processos de habilitação, mas tudo está caminhando sem grandes problemas. A reportagem do Jornal de Piracicaba entrou em contato com quatro autoescolas do município para saber se havia fila de espera ou qualquer outra eventualidade por conta da crise provocada pelo coronavírus. Apenas uma delas – que oferece curso teórico e prático – disse que o tempo para início do processo de habilitação está variando de 20 a 30 dias por conta da demanda reprimida.

Ana Carolina Leal
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