Empoderada, empreendedora e dedicada a causas das mulheres

Foto: Alessandro Maschio/JP

Uma mulher a frente de seu tempo, assim é a advogada Simone Seghese de Toledo, que é atualmente em Piracicaba, uma referência na defesa das mulheres vítimas de violência doméstica. Foi fundadora do Projeto Heroica, que faz o acolhimento jurídico, psicológico e de empreendedorismo para quem decidiu se afastar dos relacionamentos abusivos, mas não sabe o que fazer para sustentar a casa e cuidar dos filhos. Ao longo dos sete anos de atividades em Piracicaba e região, registra histórias muito tristes que não constam nos livros, mas no mundo real. São relatos de pessoas que sofrem com relacionamentos abusivos e como pedir ajuda se o agressor está ao lado e tem ficado mais em casa, por conta da pandemia da covid-19.

Além do Heroica, Simone também é presidente da Comissão da Mulher Advogada da Subseção da OAB (Ordem dos Advogados), além de mãe dedicada e coruja de seus dois filhos. Ela também é mais um número dos positivados da covid-19. Mesmo com todos os cuidados, contraiu a doença assim como todos de sua casa, mas felizmente, ninguém teve sintomas fortes.

Assim como grande parte da população, ela está se reinventando neste cenário de pandemia. Com muitas reuniões online com os clientes de seu escritório de advocacia e cuidados redobrados, com os quando precisa sair de casa. Quem a conhece sabe que esbanja alegria por onde passa, além de cuidar da saúde de corpo também tem a preocupação de cuidar da mente. Para ela, não existe uma fórmula para superar esses momentos de incertezas diante da pandemia da covid-19. Manter a mente sã é uma meta a ser conquista pela maioria das pessoas. Simone acredita que cada pessoa deve desenvolver seu próprio método de uma maneira consciente. Mas adverte que é uma tarefa fácil, no entanto não é impossível, pois cada pessoa pode escrever sua própria história. Conheça um pouco mais sobre essa mulher que é apaixonada por Piracicaba, no Persona deste domingo:

Fale um pouco sobre sua família e a importância que tem para você?

Minha família começou como quase todas, tradicional, presa aos velhos conceitos, um aglomerado de pessoas boas mas julgadoras, o tipo comum no Brasil e, ao longo dos anos, foi se tornando única, moderna e até ousada. Todos os integrantes evoluíram e chegamos ao novo mundo muito melhores. A famosa “terra dois” nos atingiu e acho que soubemos transcender com bastante êxito. Isso me orgulha porque me faz parte de um grupo que soube olhar para as novas necessidades.

Qual a sua identidade com Piracicaba?

Eu amo Piracicaba, não desejo outro lugar para mim. O nosso lugar é onde estão os nossos amados, nossos hábitos, não me imagino feliz em outro lugar.

Por que escolheu a carreira de advogada?

Meu pai escolheu para mim. Ele identificou (corretamente) uma habilidade em mim. Sou feliz na minha profissão.

Em qual momento também decidiu lecionar?

Lecionar é um grande prazer daqueles que adoram estudar, que amam relacionamentos, dias sem rotina, diálogos sobre pensamentos, mundos, interpretações. A área acadêmica é um mundo sem volta, uma paixão eterna e crescente.

Como decidiu atuar em defesa das mulheres? Qual é seu trabalho na Comissão da Mulher?

Escolhemos lutas que nos foram provocadas de certa forma, né? Embora eu nunca tenha sofrido uma grande violência, sofro violências diárias e isso ficou pesado quando entendi que se eu não fizesse nada a minha filha também sofreria, minha neta e todas as mulheres que eu amo. Então, mãos à obra para criar o novo porque, do meu sofá, nada aconteceria.

Como surgiu o Projeto Heroica?

O projeto surgiu na academia. Várias professoras dialogando sobre o tema. Como ajudar? Como reverter esse quadro? Como colaborar com o futuro? A partir disso começamos a desenhar ações e estamos aí há quase 7 anos.

Quais foram as dificuldades para a aplicação do projeto?

O projeto foi sendo criado através de estudos das necessidades, então atuamos em vários núcleos apenas com a intenção de entendermos carências, dores, sensibilidades. Então, depois de mapeados, planejamos diversas ações e agora, estamos com a estrutura completa. Essa foi a parte mais difícil do nosso trabalho, entender como podíamos ajudar.

Como analisa a situação da violência doméstica? Acredita que a mulher é tratada como “propriedade”?

Sim. No caso da violência doméstica sim. Acho que a mulher é considerada propriedade. Mas acho também que o amor é um sentimento muito mal compreendido e precisa ser reinterpretado. Se eu achar que, porque amo meu par, o mundo só existe em nós dois, que não pode haver outros interesses que não sejam os comuns, então eu tenho que me proibir de coisas e te proibir também. Posso te policiar, te dirigir, te punir por qualquer escolha diferente daquela supostamente esperada.

Qual é o cenário das mulheres atendidas nesse período de pandemia?

A pandemia está sendo devastadora emocionalmente, para mim, para você, para todos nós, mas principalmente para aqueles que não podem sair para pedir socorro, não podem encontrar amigos, parentes ou qualquer auxilio externo. Temos medo de morrer em virtude da doença ou ver um dos que amamos sucumbir, estamos sem trabalho, sem dinheiro e muitos sem comida. A mulher vítima de violência doméstica está presa com o agressor que está, supostamente, mais agressivo em virtude das tensões decorrentes da crise. O projeto tem atendido casos bárbaros, inimagináveis. Nossa equipe toda tem passado por treinamentos constantes para estarmos todas em condições de lidar emocionalmente com as situações e sermos, de alguma forma, um ponto de apoio.

Como a mulher pode denunciar o agressor, se ele mantém a casa? Como a mulher pode se libertar desse relacionamento tóxico?

Não existe uma formula para isso, não tem um passo a passo determinado. A mulher tem que se tratar, tem que buscar fortalecimento emocional. É um processo de cura e requer uma rede de apoio. O projeto tenta ser parte desse grupo.

Por que ocorrem tantos casos de feminicídios?

O suposto amor, quando instalado em uma mente perturbada, transforma-se em ódio como forma de cura, de controle, de poder. Você não pode ser feliz sem mim, como ousa? Você não pode me rejeitar, enfim… São mentes doentes em pessoas muito perigosas.

Que tipos de profissionais podem ajudar no Heroica e como podem atuar?

Temos três núcleos de trabalho, o jurídico que oferece mentoria, o de trabalho e renda que oferece cursos para capacitação e o de psicologia. Inicialmente trabalhávamos com voluntários, agora nossos profissionais são treinados e remunerados pelas horas trabalhadas. Quem quiser fazer parte do grupo deve inscrever-se para o curso de habilitação que acontece duas vezes ao ano.

Que cenário espera para o futuro?

Precisamos nos humanizar e isso, para mim quer dizer, olhar para o outro com cuidado e atenção. Temos que olhar para as pessoas e desviar os olhos das coisas. Temos que nos desligar um pouco das aparências e viver com mais realidade. O mundo da internet é ilusão, não existe. Convido a todos que quiserem conhecer o mundo real para passear comigo e encontrar as mulheres que eu encontro, as comunidades que eu frequento e ver as necessidades reais que está aqui a nosso lado. Todo mundo pode ajudar de alguma forma, porque não tentar?

Quais são seus hábitos em seus momentos de folga? Gosta de ler ou fazer exercícios?

Eu adoro exercícios físicos, é minha forma de limpar a mente e reorganizar meu corpo. Eu gosto de estar junto a natureza, trilhas, cachoeiras. E sou uma amante da leitura, minha biblioteca é minha paixão. Dias de folga começam com um café na italianinha, pijama na varanda, livro no colo. Natureza, plantas, vinho no final da tarde, família cozinhando, amigos em volta de uma mesa, música e muita música.

O que mudou em casa e no trabalho para você nessa pandemia?

Mudou tudo. Muitos meses de isolamento total, tudo em casa, treinos, trabalho, compras, hábitos totalmente opostos aos anteriores.

Já teve pessoas conhecidas que foram positivadas ou vitimadas pela covid-19?

Apesar de todos estarmos em casa, todos nós ficamos doentes, mas ninguém com gravidade. Muitos amigos queridos, infelizmente não tiveram a mesma sorte. O momento requer muito cuidado e respeito aqueles que tem que estar na rua obrigatoriamente.

Como podemos ter a mente sadia diante de cenário de incertezas?

Cada um tem sua fórmula de sanidade. Especialistas recomendam que pratiquemos a resignação. O que nos é possível fazer hoje deve ser o bastante. Tudo pode ser recuperado se estivermos saudáveis, então o foco é acalmar a mente com o que pode trazer conforto, manter o corpo ativo, alimentação saudável e mente de paz. Recomendações bem difíceis de seguir, não acham?

Cristiani Azanha
[email protected]

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